Verdade Alternativa


Guerra ao Terror

Filmes de guerra já foram feitos muitos, ainda mais pós-governo Bush, que instituiu que não há graça para os EUA se eles não estiverem protegendo a democracia de alguém. Com uma infinidade de títulos, é questionável que ainda possa aparecer algo de novo no gênero. Provavelmente, inclusive, foi este o pensamento que fez com que a Imagem Filmes lançasse Guerra ao Terror direto em DVD, em abril de 2009. O que faltou se atentar, porém, é que havia sim um grande diferencial já na ficha técnica. Este, ao contrário dos demais, foi dirigido por uma mulher, Kathryn Bigelow.

Mais do que apenas ser a ex-mulher de James Cameron, de Avatar, com quem disputa as atenções – e indicações – do ano, Kathryn foi a pessoa que conseguiu algo simples, mas impensável aos filmes de trincheira. A cineasta, junto com o roteirista Mark Boal, entraram na cabeça de seus personagens como não havia sido feito antes. Mais do que filhos que deixam seus pais, garotos que não esquecem de suas namoradas ou, até mesmo, pais que não podem acompanhar o crescimento de seus filhos, os heróis de Guerra ao Terror são seres humanos, em tudo o que a de bom e ruim disso. São homens que tem seus medos, desejos, emoções explorados de forma sutil, mas longe de ser imperceptível.

O detalhe faz do filme de Bigelow uma raridade dentre os demais, apenas o detalhe. A história bem poderia ser contada da forma tradicional. Uma companhia de remoção de bombas conta os dias para voltarem para casa, mas ainda falta mais de um mês até o fim da missão. Em uma chamada aparentemente tranquila, uma tragédia acontece, causando ainda mais estresse para os oficiais. Sem o líder do grupo, o Sargento Sanborn e o Especialista Eldridge são obrigados a seguirem as ordens do Sargento James, um desconhecido que, a princípio, está mais interessado em arriscar sua própria vida do que em salvar seus companheiros.

Em determinado momento da trama, o especialista parece relaxado jogando videogame. Aqueles minutos matando soldados virtuais logo se mostram apenas uma forma de esquecer sua realidade. Quando surge em cena o psicólogo do exército, ele revela alguns de seus dramas. Ele não quer morrer jovem, acha que ainda tem muito o que viver. Questionado se não estaria se deixando levar pelo problema, ele é enfático ao tirar o mérito de seu terapeuta, já que ele não esteve diante do perigo. E de nada adianta o outro viver o terror daquela guerra, Eldridge logo vai perceber, apenas ele mesmo pode se manter vivo ali, além da confiança em seus parceiros e, principalmente, a confiança em si mesmo.

Contando com estes momentos sutis, talvez em um ano mais inspirado do cinema, Guerra ao Terror fosse apenas mais um bom filme, e realmente não chamasse tanto a atenção. Sua sorte foi ter surgido em um momento de tão poucas grandes obras, o que o colocou nos principais prêmios do cinema no ano. Seu azar, porém, é que nestas premiações seu concorrente maior é justamente Avatar. Inferior em quase todos os sentidos, o filme de James Cameron tem duas qualidades que, infelizmente, o deixa em vantagem. Ele é um fenômeno de bilheteria e uma revolução tecnológica. Os sentimentos de humanos ou não, que emocionaram em Avatar, em Guerra ao Terror mais do que emocionam, chocam, porque não fazem parte apenas de uma fábula, eles são reais. Mas talvez a realidade não seja o que o cinema está precisando agora.

Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2008, EUA)
Direção:
Kathryn Bigelow.
Roteiro: Mark Boal.
Elenco: Jeremy Renner, Anthony Mackie e Brian Geraghty.
131 Minutos



O Homem Que Engarrafava Nuvens

Mesmo mais de 50 anos após o auge de seu sucesso, muitos hoje continuam sabendo quem é o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, lembrado quase como uma figura mitológica com seu traje sertanejo, todo de couro, como um legítimo vaqueiro nordestino. Poucos, porém, são aqueles que ainda se recordam do Doutor do Baião. Maior parceiro de Gonzaga, o advogado Humberto Teixeira foi figura fundamental para que o ritmo se tornasse, na década de 40, sucesso absoluto no Brasil, e conhecido em todo o mundo. Seu prazer, no entanto, era apenas disseminar a cultura nordestina no resto do país, sem preocupação com fama ou qualquer outro tipo de mérito. Apenas hoje, três décadas após sua morte, o compositor tem sua vida exposta no documentário O Homem que Engarrafava Nuvens.

O título, retirado de uma auto-descrição de Teixeira, já revela que a poesia vai permear mais este trabalho de Lírio Ferreira, que já havia filmado Cartola – Música Para os Olhos e Baile Perfumado. A emoção deste novo filme, porém, se faz mais intensa, uma vez que a produção é da atriz Denise Dumont, filha de Humberto. Mesmo tendo vivido com o pai por boa parte de sua vida, Denise alega não o conhecer. Nordestino rígido, Teixeira sempre tratou a filha com frieza e distância, não aceitando sequer sua opção por se tornar atriz. Para conhecer realmente quem foi seu pai, ela recorreu ao cineasta pernambucano, e juntos recolheram depoimentos intensos sobre o compositor, advogado e deputado, que criou obras primas como Asa Branca, Assum Preto, entre outras, totalizando mais de 400 composições.

Como no documentário sobre o sambista carioca, Lírio começa pela morte. O cemitério como cenário, em uma visita de Denise ao pai, como que para avisá-lo que, mesmo contra a sua vontade, chegou a hora dela e do Brasil descobrir quem é ele, destoa do resto do filme. Pouco a pouco, a obra toma força e arrebata o coração da plateia, que não raro interage com as cenas como dificilmente acontece dentro de uma sala de cinema. São cenas de drama, humor, romance, suspense e, claro, muito musical, que desvendam esse grande personagem, mas que também desvendam muito da história de um país.

Consolidando a importância de Teixeira, Lírio e Denise trazem depoentes tão grandes quanto ele. Há Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia de um lado. Otto, Lenine, Lirinha e seu Cordel do Fogo Encantado de outro. Além de toques de Chico Buarque, Fagner, Belchior, Alceu Valença e tantos outros. Não só nos depoimentos, mas também em intervenções musicais. Um dos momentos mais tocantes é quando o mestre Sivuca, morto em 2006, em decorrência de um câncer, faz um dueto com Gal Costa, em uma imagem de êxtase dos dois músicos, que se entregam de corpo e alma para a canção. Não é sem motivos, já que o filme defende, não sem argumentos, que quase toda música criada no país após a década de 40, bebeu na fonte do Baião, principalmente movimentos como a Bossa Nova e a Tropicália. Lirinha ainda vai mais longe, revelando uma teoria de que até mesmo o Reggae foi criado sob influência de um disco da dupla Gonzaga-Teixeira.

Mas O Homem Que Engarrafava Nuvens não foi feito para saudar o grande compositor. Mesmo com diversas imagens que comprovam sua importância, como uma cena de filme italiano com uma apresentação de Baião, um show de uma cantora japonesa com músicas de Teixeira no repertório, ou mesmo o depoimento do americano David Byrne, do Talking Heads. Mesmo com imagens e sons de arquivo de Humberto, Luiz Gonzaga e todo o mundo conquistado pelos dois através da música, o filme é sobre uma filha que deseja encontrar seu pai. Sob as lentes de Walter Carvalho e comando de Lírio Ferreira, esta busca se torna ainda mais poética e sincera, e é quase indiscreta a presença do público quando ela questiona sua mãe sobre sua difícil relação com o ex-marido. Enquanto Denise vai encontrando o que procura, o público vai descobrindo Humberto Teixeira, a ponto de, mesmo sem o conhecer, sentir pelo compositor uma saudade amarga Qui Nem Jiló ao final da projeção.

O Homem Que Engarrafava Nuvens (2009, Brasil)
Direção:
Lírio Ferreira.
100 Minutos



Vício Frenético

Para certos cineastas, antes mesmo de suas obras se tornarem conhecidas já se prevê que algo fora da normalidade está por vir. O alemão Werner Herzog, cercado de um universo polêmico e controverso, certamente é um destes diretores. Ele é do tipo de artista que, por exemplo, surpreenderia a poucos se fosse baleado com um tiro de pressão durante uma entrevista ao vivo para a televisão, fato que realmente aconteceu em 2006. Quando Herzog diz, então, que irá refilmar Vício Frenético, clássico de 1992, de Abel Ferrara, sem ao menos ter visto a obra original, é de se esperar duas coisas: genialidade e estranhamento.

Do primeiro filme, este só tem o nome e a ideia de um protagonista policial viciado em drogas. De resto, o longa estrelado por Harvey Keitel nada tem de semelhante deste novo, protagonizado por Nicolas Cage. O ator, aliás, foi definitivamente a melhor escolha que Werner poderia ter feito para o seu Vício Frenético. Seu aspecto natural de um sujeito frustrado, aliado aos inúmeros problemas pessoais que o ator vem enfrentando, certamente foi fator decisivo para a sua excelente atuação como o homem centrado que perde o controle de sua própria vida após ser obrigado a viver refém do anestésico Vicodin, o mesmo que matou recentemente o cantor Michael Jackson.

Na história, Cage é o Tenente Terence, que após salvar um criminoso de uma enchence causada pelo Katrina fica com um grave problema na coluna. Em pouco tempo, a necessidade de se medicar constantemente, junto com sua estressante rotina de policial e o acesso fácil a traficantes, faz com que ele se vicie não apenas no remédio, mas também em cocaína. Policial exemplar, seu novo habito faz com que ele tome atitudes extremas para conseguir cumprir suas missões, como chegar perto de torturar duas idosas inocentes para descobrir o paradeiro de uma testemunha, neto de uma delas.

A redenção, para Terence, virá se ele conseguir solucionar determinado crime e punir seus culpados. Na periferia de Nova Orleans, uma família de haitianos foi assassinada, e tudo indica que o responsável foi o chefe do tráfico local, Big Fate. A resolução seria muito mais simples, claramente, se não fosse o vício do policial, e o fato de que, para proteger sua namorada, uma garota de programa, ele humilhou o filho de um poderoso homem. Nas mãos de Herzog, ainda, toda a história toma ares muito mais surreais, com direito a uma hilária cena em que, no meio da investigação, Terence é confrontado por iguanas imaginárias.

Não se pode esperar o comum de um diretor que já deu ao cinema obras como O Enigma de Kasper Hauser ou O Homem Urso, e o comum passa mesmo longe de Vício Frenético. O drama do personagem é muitas vezes atropelado pela excentricidade do diretor, que, neste caso, acaba tornando tudo mais leve e cômico. Ver o filme vai além de acompanhar uma simples história com começo, meio e fim, mas embarcar nesta história sob lentes que subvertem o esperado. Herzog sabe bem fazer filmes para um público médio, hollywoodiano, mas dando a ele a margem para o imprevisto, para o improvável.

Vício Frenético (The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans, 2009, EUA)
Direção:
Werner Herzog.
Roteiro: William M. Finkelstein.
Elenco: Nicolas Cage, Eva Mendes e Val Kilmer.
122 Minutos



Onde Vivem os Monstros

Não apenas de brincadeiras vive uma criança. Os primeiros anos de alguém são os que formam sua personalidade. Assim, qualquer adulto teve em sua tenra idade pensamentos sombrios, assustadores se não estivessem ainda relacionados com um resto de ingenuidade que os pequenos ainda conservam. São esses pensamentos que o diretor Spike Jonze explora em seu novo filme, Onde Vivem os Monstros. Se em 1999 ele surpreendeu ao entrar na mente de um conhecido ator, em Quero Ser John Malkovich, agora ele penetra no imaginário infantil, com o que ele pode ter de bom ou ruim.

Inspirado no livro homônimo de Maurice Sendak, Jonze conta a história de Max, um garoto de oito anos com dificuldades de relacionamento que foge constantemente para um mundo imaginário. Mesmo com a mãe aceitando este seu perfil, sempre tentando incentivá-lo a contar mais uma de suas histórias, ele não consegue se encaixar naquela vida em família. Depois de uma grande discussão com a mãe, que recebia o namorado em casa, Max foge novamente em sua imaginação, desta vez indo parar em uma ilha habitada por monstros que, como ele, não querem respeitar qualquer tipo de regra.

O que parecia ser o lugar ideal para Max, logo traz problemas ao menino. Mesmo ele se tornando o rei do lugar, depois de contar mentiras sobre quem é e sobre sua origem, o garoto percebe que não tem total controle sobre as situações, e que mesmo sem querer pode machucar àqueles que ama. Estas descobertas trazem um novo problema para Max, o fato de que sua mãe estava certa, e de que ele ainda não têm condições de viver longe dela. De uma forma bastante dura, ele nota que não deve ser o rei de sua própria vida, e que regras e responsabilidade não são apenas coisas inventadas pelos adultos para tornar a vida mais chata.

Com uma estética anos 80, que talvez remeta à sua própria infância, Spike entra no universo criado por Max, tornando ainda mais mágica a história para o imaginário infantil. Se para um adulto fica claro que o garoto apenas criou aquele universo, não há qualquer elemento que impeça as crianças de embarcar naquela fantasia. A opção por usar atores fantasiados, não se rendendo totalmente às inovações tecnológicas, certamente ajudou a dar maior realismo e a vida aos personagens. Quando utilizadas, com moderação, estas tecnologias só ajudaram a engrandecer o nível de fantasia da obra.

Escrito em 1963, o livro original não tem mais do que algumas poucas frases ilustradas com desenhos realizados pelo próprio autor. Leitor assíduo da obra quando pequeno, Jonze não teve dificuldade em compreendê-la o suficiente para ampliá-la em um filme de 100 minutos. Em suas mãos, os monstros que sequer falavam ganharam a característica de emoções, em uma metáfora do que estava se passando na mente de Max naquele momento. Com momentos de alegria plena e angustiante tristeza, Spike Jonze demonstra que os monstros vivem em nossas próprias cabeças, mas que, com discernimento, é possível conviver, e bem, com cada um deles.

Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are, 2009, EUA)
Direção:
Spike Jonze.
Roteiro: Spike Jonze e Dave Eggers.
Elenco: Max Records, Catherine Keener e Mark Ruffalo.
101 Minutos



Ervas Daninhas

O francês Alain Resnais nunca pode ser considerado um cineasta convencional. Na década de 60, mesmo do movimento da Nouvelle Vague, que se identificava com seus filmes, ele não chegou a participar. Aos 87 anos, Resnais continua ativo, produzindo filmes como Ervas Daninhas, que chega aos cinemas brasileiros neste Natal. A produção, mais do que demonstrar esta característica independente e vanguardista do diretor, revela que ele sabe bem usar a maturidade e a falta de pudores que se ganha com ela.

No filme, seguimos a cômica e, muitas vezes, dramática relação entre Georges e Marguerite depois que ela é assaltada e ele encontra sua carteira no estacionamento de um Shopping Center. Ao ver a fotografia daquela solitária dentista, o homem alimenta uma obsessão. Mesmo casado, pai de dois filhos, ele sabe que só irá sossegar quando se aproximar da mulher, mesmo que seus objetivos não estejam tão claros para ele. Esta complicada relação vai afetar Marguerite, que também fica sem saber se toma uma atitude para se livrar de Georges ou se entra no jogo.

O nonsense toma conta da película durante quase todo o tempo. Em um filme usual, esta história poderia render um suspense digno de exibição em um sábado a noite em algum canal de TV aberta. Quando se trata de Resnais, é diferente. Sua narrativa é solta, o filme não tem as amarras que teria se realizado por um jovem diretor. O francês foge do comum, a começar pelo visual de sua heroína. Apaixonada por aviação, Marguerite nada mais é do que uma versão feminina e melancólica do Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupery.

O fascínio, a fantasia, não ficam apenas nos trajes da personagem. O filme segue o tom. Que importa para a esposa de Georges, se ele está obcecado por outra mulher, se deseja ter um caso com ela. Não é este o conflito que o diretor explora em Ervas Daninhas, ele prefere deixar isto para os diretores prisioneiros do comum. Resnais quer ir além, quer explorar esta doentia relação. Ele quer mostrar até onde podem ir estas ervas daninhas que crescem em nossas mentes, nos chamando a cometer atos contra nossa própria natureza.

Georges é apaixonado por cinema, e é principalmente o cinema que o diretor quer atingir. Mais do que uma metalinguagem, Ervas Daninhas é uma sátira a sua própria natureza, à sétima arte. Mesmo quem ainda insistir em levar a sério esta obra, desiste no momento em que, após um beijo apaixonado, surge na tela um hollywoodiano The End, para depois o filme seguir em frente como se nada houvesse acontecido. Mesmo nos trailers já se percebe o caráter subversivo e satírico do diretor, que abole os métodos de seu próprio ofício. Em um cenário de ode às grandes produções, Ervas Daninhas é a prova de que a genialidade do cinema vai além de fórmulas prontas.

Ervas Daninhas (Les Herbes Folles, 2009, França)
Direção:
Alain Resnais.
Roteiro: Alex Reval e Laurent Herbiet.
Elenco: André Dussollier, Sabine Azéma e Emmanuelle Devos.
104 Minutos



A Princesa e o Sapo

O mais surpreendente no novo filme da Disney, A Princesa e o Sapo, não é o fato dele ser 2D, depois de tantas produções feitas em computação gráfica, nem mesmo por sua protagonista ser uma negra. A maior surpresa da animação infantil é ela ter sido feita para crianças. Depois de anos, é a primeira vez que um grande estúdio se lembra quem é seu público alvo. Hoje, preocupados mais com bilheteria, os roteiristas se ocupam em encher o filme de piadas para adultos, restando para os pequenos apenas personagens bonitinhos com bordões fáceis.

Depois de obras como Wall-E e Up, da parceria com a Pixar, a Disney optou por voltar aos seus tempos áureos em que retratava o mundo encantado das princesas – bem longe, aliás, da desconstrução que faz em Encantada. O nobre universo, assim, volta junto com os traços feitos a mão, que tinham sido deixados para trás desde Nem Que a Vaca Tussa, de 2004, e com a pretensa inocência que tinham os filmes infantis antes de descobrirem que jovens casais também poderiam se divertir – e consumir – esse tipo de obra.

Apesar do título, A Princesa e o Sapo não conta a história de uma princesa. Tiana, protagonista do longa está mais para uma vassala. Moradora da periferia de Nova Orleans, a heroína tem como ambição montar um restaurante, como era o sonho de seu esforçado pai. Para isso, ela dedica quase 24 horas de seus dias para o trabalho, não sobrando tempo para a diversão. O contrário é o príncipe Naveen, que tem uma vida boêmia sem responsabilidades, a ponto de seus pais tirarem tudo o que ele tem. Quando o falido nobre vai à Nova Orleans, conhece um feiticeiro vodu que o transforma em sapo. Pensando que Tiana é uma princesa, o malandro a convence a beijá-lo, transformando-a também.

Como não poderia deixar de ser, como se trata de um filme Disney, a moral é o ponto forte da obra. Durante boa parte da trama, os dois anfíbios estão em uma jornada para voltarem a ser humanos. Neste caminho, vão percebendo que para isso precisam se preocupar mais com aquilo que deixaram para trás durante suas vidas: a diversão, no caso dela, e a responsabilidade para ele. A história ainda resgata algo de Mágico de Oz, quando os personagens cruzam com um crocodilo músico, que sonha se tornar humano para não assustar ninguém ao tocar, e um vagalume sonhador, apaixonado por uma brilhante estrela.

Longe de ser um sinal de fracasso de bilheteria, a ousadia da Disney de honrar suas origens pode pegar de surpresa algumas pessoas já desacostumadas aos filmes infantis para crianças. Independente das polêmicas já causadas antes mesmo de seu lançamento – e há muitas passagens que ainda podem ser questionadas pelo caráter racista –, o longa ainda tem qualidades para agradar e emocionar o público. Mesmo que para isso, não seja preciso apelar para aquelas piadas em que adultos riem muito mais do que as próprias crianças.

A Princesa e o Sapo (The Princess and the Frog, 2009, EUA)
Direção:
Ron Clements e John Musker.
Roteiro: Ron Clements
97 Minutos



Verdade Alternativa Podcast #3

Estreias de 4 de Dezembro de 2009:

- Abraços Partidos (Abrazos Rotos, Espanha, 2009), de Pedro Almodóvar;
- Atividade Paranormal (Paranormal Activity, EUA, 2007), de Oren Peli;
- É Proibido Fumar (Brasil, 2009), de Anna Muylaert;
- O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox, EUA, 2009), Wes Anderson.

Música de fundo:

- Werewolf – Cat Power (Trilha sonora de Abraços Partidos)



É Proibido Fumar

Sete anos depois de Durval Discos, a cineasta paulistana Anna Muylaert volta às telas com seu novo filme, É Proibido Fumar, estrelado por Glória Pires e Paulo Miklos. Com sua narrativa simples, por vezes pueril, e mais uma vez cercada pelo inusitado, a diretora consegue conquistar o público com a história de amor entre dois vizinhos. O filme chega às telas poucos dias após o Festival de Brasília, no qual recebeu um total de oito prêmios, sendo o grande vencedor do ano. O prêmio, no entanto, pode ser preocupante. A obra vale a pena, mas ser escolhida como a melhor do ano representa de duas uma: ou o festival está com problemas, ou a produção audiovisual do país que está.

No longa, Glória Pires vive Baby, uma solitária professora de violão que não tem grandes emoções em sua vida, a não ser brigar com suas irmãs pela herança de uma tia falecida. Romântica e sonhadora, ela percebe a esperança de um novo amor quando o músico Max, interpretado por Miklos, se muda para o apartamento ao lado. A possibilidade vira um tormento quando a alucinada fumante descobre que o novo namorado não suporta cigarro, e pede que ela pare de fumar. Disposta a tudo pelo amor de sua vida, que acaba de conhecer, ela decide parar. Aos poucos, conhecendo mais o vizinho, ela passa a questionar se vale a pena abrir mão de seu companheiro.

Ao contrário do que pode parecer, principalmente depois da lei idealizada pelo governador de São Paulo, José Serra, que proíbe o fumo em locais fechados, o filme não toma partido contra o temido cigarro. Na história, o fato apenas serve como pretexto para a mudança na personalidade de Baby, que se torna muito mais ansiosa e neurótica após a tentativa. Bem amarrada, a história vai acompanhando as alegrias e tristezas enfrentadas pela solitária Baby em busca de um relacionamento estável. Pontuando, a diretora aproveita para colocar diversas aparições especiais, que vai desde sua família, como o ex-sogro, Antonio Abujamra, o ex-marido André Abujamra, e o filho José, até estreantes nas telas, como a cantora Pitty.

No geral, o longa se sai bem, mas deixa a desejar. Quando surgem os letreiros finais, em vez de vir uma sensação de realização – ou de quero mais – o que surge no espectador é um sentimento de que algo ainda está faltando. As emoções em É Proibido Fumar são muitas, mas não chegam a transpassar a tela para atingir o público. O que fica é apenas aquele sentimento bom, de contentamento, mas que passa logo que as luzes acendem. Apesar de muitas semelhanças com Durval Discos, o filme perde por ficar aquém dele, fazendo com que a expectativa atrapalhe ainda mais o resultado final.

Por melhor que seja a trilha sonora, mesmo que Glória Pires e Paulo Miklos tenham se encaixado bem em seus personagens, por mais que as participações especiais deem uma levantada no tom do filme ou que as metáforas deem um encanto especial para a história, apesar de tantas qualidades, nada justifica no filme que ele seja o grande vencedor de um festival nacional tão tradicional, levando sete prêmios. Felizmente o país produz obras bem melhores que esta, e cada vem mais vemos estes filmes chegando nas telas e, aos poucos, conquistando o público. Merecendo ou não seus sete troféus Candango, É Proibido Fumar é mais um que merece a apreciação pública.

É Proibido Fumar (2009, Brasil)
Direção:
Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Glória Pires, Paulo Miklos, Marisa Orth
90 Minutos



Verdade Alternativa Podcast #2
novembro 27, 2009, 9:00 am
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Estreias de 27 de Novembro de 2009:

- A Trilha (A Perfect Getaway, EUA, 2009), de David Twohy;
- Cidadão Boilesen (Brasil, 2009), de Chaim Litewski;
- Do Começo ao Fim (Brasil, 2009), de Aluízio Abranches;
- Eliezer Batista: O Engenheiro do Brasil (Brasil, 2009), Victor Lopes;
- Entre a Luz e a Sombra (Brasil, 2009), de Luciana Burlamaqui;
- Julie & Julia (EUA, 2009), de Nora Ephron;
- Planeta 51 (Planet 51, Espanha/Reino Unido, 2009), de Jorge Blanco;
- Tokyo! (França/Japão/Coreia do Sul, 2008), de Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho.

Música de fundo:

- 8º Anjo – 509-E (Entre a Luz e a Sombra)



Cidadão Boilesen

Quando foi lançado no Brasil o filme Coco Antes de Chanel, biografia de uma das mais influentes estilistas do mundo, muito se falou sobre a omissão de seu envolvimento com o nazismo. Da mesma forma, se questionou o fato de, após o fim da guerra, alemães, franceses e gente de todo o mundo se tornasse, de repente, opositor ao sistema. Assim como na Europa, no Brasil aconteceu caso parecido. No início da década de 60, muitos empresários e instituições pediam o Golpe de Estado ao governo João Goulart e, mesmo durante a ditadura militar, foram financiadores dos golpistas. Com o retorno da democracia, no entanto, muitos deles comemoraram com o outro lado, sem sujar seus nomes, ou de suas empresas com a ligação anterior.

Mesmo mais de duas décadas após o fim do regime, apenas os militares são responsabilizados por atos contra a liberdade. Um passo para abrir a discussão é o lançamento do documentário de Chaim Litewski, Cidadão Boilesen. O filme conta a controversa ligação entre o dinamarquês Henning Boilesen, presidente da Ultragaz, e os militares da Operação Bandeirante, responsável pelo temido DOI-CODI. Membro ativo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a FIESP, o empresário não apenas financiava a tortura, como convencia outros industriários a fazer o mesmo. Além disso, Boilesen tinha a mórbida mania de estar presente quando revolucionários eram torturados, o que resultou em seu assassinato, em 1971.

Mais do que fazer um filme que demonize o personagem, ou mesmo apenas uma denúncia aos civis que financiaram a Oban, Chaim mergulhou durante dezesseis anos em um minucioso trabalho de pesquisa, que deu voz a todos os lados da história. Tomando o distanciamento necessário da história, o cineasta recolheu depoimentos desde funcionários da escola em que o personagem estudou na Europa ao filho de Boilesen, do coronel Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI, ao líder da ação que resultou na morte do empresário, Carlos Eugênio da Paz, sempre dando espaço para cada lado expor suas verdades, e quase sempre ouvindo o mesmo discurso, de que não foram apenas os militares os responsáveis pelo terror da ditadura, mas muitos civis.

Abusando de recursos audiovisuais, como músicas e filmes que retratam a época, e com a ajuda do produtor e montador Pedro Asbeg, Chaim criou um filme leve, didático e bastante emocionante, com uma edição lúdica e ágil que prende a atenção do espectador do início ao fim. A estrutura narrativa do filme já fascina o espectador. Aliando à riqueza de detalhes conquistada pelos anos de pesquisa, o filme alcança lugar de destaque entre os melhores documentários brasileiros lançados nos últimos anos, o que lhe rendeu, inclusive, o prêmio de melhor filme na edição de 2009 do festival É Tudo Verdade.

Seja pela estrutura, pelo apurado trabalho de pesquisa, ou pela força da história, o filme já merece ser visto. Porém, mais do que uma obra cinematográfica, Cidadão Boilesen é o instrumento para a mudança no pensamento do brasileiro. Em entrevistas, Chaim deixa clara a sua intenção de usar o filme para questionar tantos Boilesens que ainda estão vivos hoje, e que posam de defensores da democracia e da liberdade. Mais do que investigar o lado negro do empresário de origem dinamarquesa, o cineasta quer, com este polêmico filme e com os debates que ele pode suscitar, expor o lado negro da sociedade civil brasileira. Porém, este já não é um trabalho tão simples, já que a mesma elite que lutou às escondidas para apoiar a ditadura, ainda continua na surdina impedindo que este envolvimento venha a tona.

Cidadão Boilesen (2009, Brasil)
Direção:
Chaim Litewski
Roteiro: Chaim Litewski
93 Minutos