Verdade Alternativa


Valsa com Bashir

Poucas vezes um filme de guerra consegue ter uma posição que o diferencie dos demais. São raros os casos de longas que consigam sair do lugar-comum, daquela batida narrativa, encadeamento dos fatos, fotografia, entre tantas coisas. Valsa com Bashir o conseguiu de uma forma simples que teve um resultado estonteante, por, primeiro, se colocar como um documentário em primeira pessoa, e, ainda, por ser uma animação. Extremamente psicológico, a opção por não haver sido feito com pessoas de carne e osso, não só é esteticamente belo, como torna possível nas telas toda a viagem do subconsciente do diretor Ari Folman.

Tudo começa quando o cineasta é acordado por um amigo, Boaz Rein, que não consegue dormir por causa de um sonho recorrente há mais de dois anos. O fato nada mais representa para o restante do filme, é apenas o pontapé inicial de uma grande viagem pela mente humana, no caso a mente de Ari Folman. No pesadelo, uma matilha de 26 cães raivosos correm pelas ruas com o objetivo de matar Boaz, e a única coisa que ele sabe é que este sonho remete a um acontecimento do passado comum deles, quando ambos serviram no exército israelense durante a Guerra do Líbano, há mais de 20 anos.

Folman, então, se dá conta de não ter qualquer lembrança daquela época. Naquela noite, porém, ele se lembra de uma cena, em que ele está na praia diante de uma cidade em ruínas. Quando caminha pelas ruas desertas desse local, é surpreendido por dezenas de mulheres gritando em desespero. A imagem faz com que ele passe a investigar, entre amigos e outras pessoas que fizeram parte daquele momento, o que de tão terrível aconteceu ali, que fez com que seu cérebro simplesmente descartasse toda informação sobre aquele período. Ele vai entrevistando várias pessoas, inclusive um analista, para entender melhor sua mente.

Este é um ponto que causa ao mesmo tempo o estranhamento e a curiosidade do espectador. Valsa com Bashir não é um simples filme de guerra, mas um filme sobre as consequências da guerra na cabeça do cineasta. Folman vai aos poucos percebendo o que tentou esconder de si próprio durante toda a vida. Seu povo, sua origem, sua cultura é colocada em cheque por aquele momento marcante que ele, inconscientemente, decidiu esquecer. Ele percebe que de nada adianta eleger um inimigo, considerá-lo um monstro e fazer o mundo acreditar nisso, se quando se olha no espelho, você percebe que entre você e o monstro não há diferenças, que você pode cometer os mesmos erros que ele.

Por ir tão profundamente dentro de si, Ari Folman deixa escapar facilmente entre os traços dos desenhos uma carga forte de emoção que nunca chegaria se optasse por um filme de ficção ou se filmasse as cenas. Em Valsa com Bashir, ele coloca apenas o que ele vê, e assim o espectador vai fazendo suas descobertas e se surpreendendo junto a ele. Mesmo sendo uma animação, não é um filme fácil. O alto contraste e as cores vibrantes embelezam, mas não escondem o sentimento. A cena final, uma das mais chocantes do cinema, sozinha poderia ser julgada de diversas formas ruins, mas todo o encadeamento que é construído faz com que a obra desemboque naquilo de maneira natural, mas não menos chocante, tornando o filme ao mesmo tempo forte e magistral.

Valsa com Bashir (Vals Im Bashir, 2008, Israel)
Direção:
Ari Folman
Roteiro: Ari Folman
90 Minutos.



Gran Torino
Março 18, 2009, 10:00 pm
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Basta assistir ao novo filme de Clint Eastwood, Gran Torino, para entender porque neste longa o cineasta passou completamente despercebido pela Academia, dentre os indicados ao Oscar. Não que o filme seja ruim, pelo contrário, mas ele foge bastante do que se costuma ver nestas listas, como é o caso de A Troca, do mesmo diretor. Mesmo sendo um drama muitas vezes pesado, o filme tem momentos cômicos em todo o seu decorrer, chegando em cenas que a platéia desaba em gargalhadas pela atuação propositalmente forçada de Clint.

Dá para se fazer um paralelo do filme com o clássico Karatê Kid, por mais estranho que isto possa parecer a princípio, mas a história dos dois filmes muitas vezes se encontra. A grande diferença é que, desta vez, o mestre é um veterano de guerra estadunidense e o aprendiz é um imigrante chinês. Walt Kowalski é um viúvo recente extremamente preconceituoso e xenófobo. Mesmo com as tentativas do padre de socialização, o homem que lutou na guerra da coréia prefere ficar sozinho em casa, bebendo cerveja apenas com a companhia de sua cadela Daisy. Enquanto isso, reclama do aumento de chineses na vizinhança.

Os problemas com os vizinhos aumentam quando Thao, um garoto confuso da casa ao lado, tenta roubar o Ford Gran Torino de Walt, a mando de uma gangue local. Sem querer, no entanto, Kowalski acaba salvando a vida do garoto, o que o torna um herói no bairro. Aos poucos, contando principalmente com a ajuda de Sue, irmã do jovem, os dois vão aprendendo a conviver e ensinando muito sobre a vida um para o outro. Tal qual Karatê Kid, o menino aprende a se tornar um homem e a se defender, e o senhor ganha companhia e um objetivo a mais na vida.

A atuação de Eastwood, apesar de muito boa, não é nem um pouco convincente aqui. Walt Kowalski é um sujeito amargurado, recluso, esperando apenas o momento de sua morte, para pagar seus muitos pecados e se juntar à sua amada esposa que acaba de falecer. Porém, o eterno caubói cria a partir disto um personagem extremamente envolvente, daqueles que o espectador irá querer como seu avô ou ainda vizinho. As caras e bocas que o ator faz, ainda, o coloca junto ao antigo Jim Carrey no hall dos grandes careteiros de Hollywood, o que deixa o filme mais leve e divertido.

Apesar de tudo isso, o tema é bastante pesado. Dentro de Walt, que se assemelha a Frankie de Menina de Ouro, há uma culpa difícil de ser esquecida. Thao, juntamente com Sue, está ameaçado por um grupo de criminosos, que querem tentar de tudo para destruir suas esperanças. O preconceito e o conservadorismo fala alto no longa, fugindo do discurso dos filmes anteriores do diretor. Assim, diante de tantos poréns, é fácil notar como, mesmo sendo bom, Gran Torino não foi indicado a nenhuma categoria no Oscar.

Gran Torino (2008, EUA)
Direção:
Clint Eastwood
Roteiro: Nick Schenk
Elenco: Clint Eastwood, Bee Vang, Ahney Her
116 Minutos



Watchmen – O Filme

Allan Moore bem que avisou. Já na década de 80, quando Watchmen foi lançado em graphic novel, o autor convenceu o cineasta Terry Gilliam a desistir da idéia de adaptar a série para os cinemas, afirmando que seria impossível. Que o longa não conseguiria pegar as nuances e ficaria superficial. Dave Gibbons, o ilustrador, nunca teve problemas com isso, tanto que entrou no projeto da Warner para a adaptação realizada por Zack Snyder, o mesmo que já havia levado para as telas a HQ 300, de Frank Miller.

A história não é mesmo algo tão simples para caber em quase três horas de filme. Watchmen é um grupo já separado de super-heróis em um universo paralelo, onde não existiu o escândalo do Watergate e onde Nixon foi capaz de fazer os EUA saírem vitoriosos na guerra do Vietnã, com a ajuda do Dr. Manhattan, o único deste grupo a ter superpoderes reais, após ser exposto a energia nuclear. Os outros, meros mortais com uniformes, acabaram sendo hostilizados pela população, que os achavam acima da lei.

Quem mais ajudava nesta visão das pessoas era o Comediante, um mascarado das antigas, ultradireitista, que não se importava em matar mulheres e crianças quando achava conveniente. Além dele e de Manhattan, havia Rorschach, Ozymandias, Coruja, e a bela Jupiter. Quando um destes heróis é misteriosamente assassinado, os outros passam a acreditar que podem estar em risco, e que a melhor forma de se salvarem é se reunirem e lutarem contra este mal desconhecido.

A história é interessantíssima. Uma completa desconstrução do super-herói americano. O iconoclasta Allan Moore, no entanto, estava certo de não querer sequer ter seu nome vinculado ao longa, ou mesmo assistir ao filme ou ao trailer. A superficialidade nas telas é imensa e a história acaba se tornando boba, hollywoodiana no pior sentido do termo. Já nos primeiros minutos, uma introdução de pouco menos de cinco minutos ao som de Bob Dylan, contando a origem dos heróis, já renderia um filme próprio.

A edição, para tentar melhorar esta questão do pouco tempo para muita informação, acaba fazendo um vai e vem que só deve confundir a maioria dos espectadores. Sem se atentar ao máximo na trama, é fácil acabar se perdendo sem perceber se aquela cena se passa no presente, 1985, no passado recente, ou mesmo em um passado distante. O elenco de quase desconhecidos consegue segurar bem seus papeis, com destaque para Jackie Earle Haley, de Pecados Íntimos, na pele de Rorschach. Mas, com tantos problemas, a falta de um nome mais conhecido só fará com que poucos se interessem pela obra.

Watchmen – O Filme (Watchmen, 2009, EUA)
Direção:
Zack Snyder
Roteiro: David Hayter, Alex Tse
Elenco: Patrick Wilson, Malin Akerman, Jackie Earle Haley
160 Minutos



O Menino da Porteira

Em 2005, muitos torceram o nariz para Dois Filhos de Francisco por ser a cinebiografia da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. Lançado o filme, o público foi avassalador, fazendo com que grande parte dos chamados formadores de opinião repensassem sua conduta e fossem ao cinema conferir. A maioria acabou confessando a qualidade da obra, que é hoje uma das mais importantes do cinema nacional atual. Em 2009, o caso parece se repetir, tomadas as devidas proporções, com O Menino da Porteira, de Jeremias Moreira.

Ao contrário do que muitos imaginam, não se trata de uma cinebiografia do cantor Daniel, seguindo os passos do filme anterior. Apenas é mais um filme sertanejo que surge, timidamente, tentando conquistar espaço em um país que teima em não se assumir como de maioria sertaneja. Jeremias não é um oportunista, tentando ganhar com o sucesso do colega Breno Silveira. Em 1977, o diretor já havia dirigido um filme de mesmo nome. Daquela vez, o protagonista também era músico e gravou a canção-tema. Agora, Sérgio Reis é substituído por Daniel no papel do peão Diogo.

O boiadeiro acaba de chegar em um vilarejo com o gado do Major Batista, o grande fazendeiro da região. Lá, ele conhece o pequeno Rodrigo, que deseja ser peão como ele, e sempre está disposto a abrir a porteira para o gado passar. Assim como é apresentado ao pai do menino, Otacílio, inimigo político de Batista e líder de um grupo de sitiantes que querem promover a justiça social naquela região. Diogo não toma partido de ninguém, quer apenas ser um homem livre, independente. A forma como os fatos se sucedem, fazem com que tenha que se colocar, mudando a sorte de toda a cidade.

Em outros tempos, o sucesso da primeira versão foi grade, levando mais de 4 milhões de pessoas aos cinemas. Hoje, o público do filme nacional é bem mais modesto. Lançado em um fim de semana que concorre com um filme de super-heróis (Watchmen) e o grande ganhador do Oscar (Quem Quer Ser um Milionário?), O Menino da Porteira pode ser ainda mais prejudicado. Porém, o espectador de um filme como estes tende a ser justamente aquele que não costuma ir ao cinema. São as pessoas do interior, que querem se ver, em vez de só ver o eixo Rio-São Paulo ou enlatados americanos.

E não é apenas a presença de Daniel que pode chamar este público. Talvez por ter mais de 30 anos, o roteiro tem muitas qualidades. Sem deixar de ser popular e sem ser panfletário, ele passa por diversas questões políticas e sociais, que são bem amarradas com a narrativa. Inspirado na música de Teddy Vieira e Luizinho, o longa abusa de elementos típicos das histórias caipiras, com alguns personagens bastante caricatos, dando leveza à história. Mesmo que Daniel não seja um primor da atuação, seu personagem se encaixa aos seus limites, dando a impressão de que a falta de naturalidade seja problema de Diogo, não dele. Com uma história de amor para completar, O Menino da Porteira tem grandes chances de ajudar a ser este o grande ano do cinema nacional, se passar por cima do preconceito.

O Menino da Porteira (2009, Brasil)
Direção:
Jeremias Moreira
Roteiro: Jeremias Moreira, Carlos Nascimbeni
Elenco: Daniel, José de Abreu, Vanessa Giácomo
90 Minutos



Quem Quer Ser um Milionário?

Cores, belas imagens, ritmo alucinante, um sofrimento agudo e a busca pelo amor verdadeiro. Elementos que, juntos, com uma direção eficiente de alguém como o inglês Danny Boyle, de Trainspotting, e em forma de um conto de fadas pós-moderno, dificilmente pode não arrebatar os corações daqueles que assistem. Assim se explicam as oito estatuetas que Quem Quer Ser um Milionário? recebeu no Oscar 2009, ao ser indicado a 10 prêmios. Campeão absoluto, o melhor filme do ano segundo a academia hollywoodiana é do tipo de filme que agrada sem muita restrição.

Na Índia, Jamal Malik se torna uma celebridade ao chegar à última pergunta do programa de televisão Quem Quer Ser um Milionário?, uma espécie de Show do Milhão. Com a chance de receber o prêmio máximo, o jovem de 18 anos é preso por suspeita de fraude. Nunca na história do programa alguém tinha chegado tão longe, e um favelado, analfabeto, não era a pessoa que eles esperavam que atingisse esse posto. Na delegacia, o garoto precisa explicar, através de sua própria história de vida, como conseguiu acertar a todas as questões.

De alguém pobre, espera que seja apenas um malandro, que descobriu uma forma de forjar as respostas e levar um dinheiro fácil. Jamal, no entanto, revela que não se interessa pelo prêmio, só está lá para tentar reencontrar sua amada Latika. Assim, é o amor que conduz e amarra o roteiro de Simon Beaufoy, baseado na obra do escritor indiano Vikas Swarup. A história pode ser um tanto simplista, mas todo conto de fadas o é. Talvez seja exatamente isso que faça o sucesso do filme. Que cause tanto encanto.

Durante a produção, e após o resultado, Quem Quer Ser um Milionário? sempre foi comparado ao brasileiro Cidade de Deus. A fotografia, a edição, questões do personagem se assemelham nos dois filmes. O nacional se consolidou como uma obra de grande importância, uma referência mundial. O inglês, atingiu um sucesso mais imediato. A direção de um estrangeiro ajudou a fazer do filme muito mais do que uma análise social, como é o caso do Cidade de Deus. A Índia pobre e problemática aparece no longa, mas isto serve apenas como elemento narrativo, e não fica em primeiro plano.

Não apenas o Oscar. Quem Quer Ser um Milionário? ganhou a maioria dos prêmios ao qual concorreu, se consolidando como realmente o melhor filme de 2009, mesmo que em alguns anos sua importância acabe sendo bem menor do que a de uma obra como Cidade de Deus, que não alcançou tantos méritos. Mas, em uma época de crise, o filme cai perfeitamente. Ele se torna uma celebração da vida, uma prova, mesmo que na ficção, de que é vivendo que se aprende e de que é bobagem correr atrás dos bens materiais, o importante é a felicidade e o amor.

Quem Quer Ser um Milionário?
(Slumdog Millionaire, 2008, Inglaterra/França)

Direção:
Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy
Elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Irrfan Khan
120 Minutos



Rio Congelado
Fevereiro 19, 2009, 10:00 pm
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Há em Rio Congelado, filme de estréia de Courtney Hunt, uma grande semelhança com o nacional Linha de Passe, último filme de Walter Salles Jr.. Em ambos, uma mãe solteira têm que ser forte para cuidar da família apesar do ambiente ríspido e das adversidades financeiras. Se no brasileiro, parte das dificuldades vinham do fato de Cleuza viver com seus quatro filhos na periferia paulistana, no estadunidense é frio próximo à fronteira com o Canadá que atrapalha ainda mais a sobrevivência de Ray e seus dois filhos.

Abandonada recentemente pelo marido, Ray precisa urgentemente de uma grande quantidade de dinheiro para pagar a prestação da casa que compraram juntos, sob o risco de perder a propriedade. O valor, que já estava guardado, foi roubado pelo pai de seus filhos, que sumiu sem dizer para onde. Em uma tentativa de encontrar o ex-companheiro, ela conhece Lila, uma índia Mohawk que trabalha como coiote, ajudando estrangeiros a entrarem ilegalmente no país através de terras da reserva. Desesperada para dar sustento aos filhos, Ray aceita ajudá-la.

Em ambos os filmes, as dificuldades fazem com que a família caminhe em uma corda bamba entre o legal e o ilegal, pendendo ora para cada lado. Não apenas a mãe de Rio Congelado flerta com a criminalidade, mas também o filho mais velho, TJ, na ingênua tentativa de dar ao irmão um simples presente de natal. Enquanto isso, as duas mães, Ray e Lila, complementam seus salários atravessando o rio do título, com o porta-malas ocupados por chineses ou paquistaneses. Não há a má intenção em nenhum dos casos, de qualquer filme, apenas uma questão de necessidade, de sobrevivência.

Nas duas histórias, o que há de sobra é a garra da mãe, que precisa enfrentar os problemas sem deixar o peso da maternidade derrubá-las. Cleuza rendeu à Sandra Corveloni o prêmio de melhor atriz em Cannes, Ray teve como resultado uma indicação ao Oscar para Melissa Leo. Ambas desconhecidas pelo grande público, mas merecidamente reconhecidas pelo grande trabalho. A impressionante atuação da mãe que só quer criar seus filhos é de uma pungência que chega a apertar o peito na simples lembrança da história.

Courtney Hunt escreve e dirige seu filme de estréia com tanta emoção que não é de se admirar que já conquiste uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original. E, ao contrário de outros casos, desta vez se pode garantir que seu nome na lista é mérito próprio, e não por ter trabalhado antes em clubes de stripper ou algo do tipo. O filme está longe da perfeição. A projeção digital chega a incomodar por vezes, e certos clichês quebram momentos de profunda emoção. Mas, esses momentos existem e batem forte, o que fazem de Rio Congelado um pequeno grande filme.

Rio Congelado (Frozen River, 2008, EUA)
Direção:
Courtney Hunt
Roteiro: Courtney Hunt
Elenco: Melissa Leo, Misty Upham, Charlie McDermott
97 Minutos



Milk – A Voz da Liberdade

Há certos cineastas que eu realmente não consigo entender todo um endeusamento em cima deles. São diretores bons, reconheço, mas que me parecem superestimados pelos motivos errados. É o caso por exemplo de David Lynch, que tem ótimos filmes, mas que ultimamente tem sido cultuado por bobagens sem sentido – pelo menos ao meu ver. Outro caso é o de Gus Van Sant, que ficou famoso principalmente por um equivocado Elefante. Voltando a um cinema mais tradicional, o diretor aparece agora com Milk – A Voz da Liberdade.

Conhecido defensor de minorias, Harvey Milk foi o primeiro político estadunidense eleito apesar de ser homossexual assumido, ainda nos anos 70. Pouco depois, no entanto, é assassinado por um adversário. Quem dá corpo ao personagem é Sean Penn, que também entra com a alma no filme e muitas vezes se esquece de quem é que está na tela. Macho daqueles que bate na esposa, como já foi divulgado, o ator se entrega ao papel chegando quase a ultrapassar a barreira para um esteriótipo. Mesmo concorrendo com Mickey ‘Volta por Cima’ Rourke, Penn tem toda chance de levar o Oscar para casa.

Ao contrário dos últimos trabalhos de Van Sant, Milk até experimenta, mas não deixa que isto seja maior que a própria história do filme. A maior dessas ousadias, na verdade, nem é tão inovadora. Se tratando de um fato real, o diretor abusa de imagens de arquivo da época e mesmo de fatos retratados na história. Porém, neste caso, a fotografia granulada e opaca consegue deixar estas cenas documentais mais próximas do filme, sem ser apenas meras ilustrações e fazendo parte da narrativa.

A principal vantagem do filme sobre os últimos é que ele conta algo, seu roteiro é concreto, não apenas mostrando fatos. Além disso, também ao contrário deles, Milk não tenta justificar os atos de seus personagens – todos reais – por uma homossexualidade reprimida, como já havia acontecido em Elefante e em Últimos Dias, sob o pretexto de não assumir a responsabilidade de contar a vida dos assassinos de Columbine ou de Kurt Cobain.

Acredito que muitos dos fãs de Gus Van Sant vão sair decepcionados da sala de cinema, talvez até acusando seu ídolo de ter se vendido a um tal sistema careta. Não vejo, no entanto, qualquer traço careta em Milk, que defende não apenas os homossexuais, como qualquer minoria, e defende a “saída do armário” para que o mundo perceba que não há como tentar fugir de um problema que está apenas na cabeça de muitos. A união de um bom diretor, um grande ator e um roteiro coeso, permite ao mundo tentar entender melhor as razões de Harvey Milk.

Milk – A Voz da Liberdade (Milk, 2008, EUA)
Direção:
Gus Van Sant
Roteiro: Dustin Lance Black
Elenco: Sean Penn, Emile Hirsch, James Franco.
128 Minutos



O Lutador

Famoso durante os anos 80, Phillip Andre passou a ter uma série de problemas a partir dos anos 90. Além dos maus-tratos à sua própria família, sua carreira na luta livre consumiu seu corpo. Nos ringues, conquistava marcas e cicatrizes. Fora deles, o uso de drogas e esteróides para melhorar seu desempenho. Desta forma seu declínio foi visível tanto fisicamente quanto profissionalmente, até que se desse conta disso e, em uma tentativa de retomar sua vida social, conseguiu uma excêntrica volta por cima. Apesar de esta não ser a história do filme O Lutador, de Darren Aronofsky, as semelhanças são grandes.

Assim como Phillip, que prefere atender por Mickey Rourke, o personagem do filme também não gosta de ser chamado pelo seu nome de batismo, Robin Ramsinski, mas de Randy Robinson. E é a questão da identidade que carrega todo o filme que rendeu o prêmio de melhor ator em Cannes para Rourke. Da mesma forma que muito é falso na vida de um ator, que precisa lidar com sentimentos que não são próprios, os lutadores de luta livre também fazem suas encenações e cultuam um corpo artificial, que empolgue mais o público.

Randy, que era famoso nos anos 80, ainda é um nome conhecido no mundo da luta, mas sua vida não passa de uma grande ilusão. Morando em um trailer, ele mal tem dinheiro para se sustentar, gastando quase tudo com as drogas ou roupas de luta e tinta para os cabelos. Após abandonar sua filha pequena, a única pessoa com quem ele tem uma relação mais próxima é com Cassidy, nome também falso da stripper vivida por Marisa Tomei. A amizade, porém, é restrita ao clube e mediante pagamento. Apenas quando percebe que está próximo da morte que ele tenta voltar a ser um pouco mais Robin Ramsinski.

As semelhanças entre as duas histórias podem facilitar a atuação de Mickey, que segundo alguns dizem apenas interpretou a si mesmo. Porém, é difícil assumir erros, ainda mais alguns tão antigos, diante de uma câmera para todo o mundo. E foi enfrentando suas dificuldades e assumindo o desafio de interpretar a si próprio que Rourke fez notar sua capacidade cênica. A forma como o bruto tenta agir para mostrar que também ama impacta no peito do espectador. Seus medos, sua insegurança em dizer para Cassidy ou para sua filha que ele teme a solidão parecem doer mais do que qualquer golpe.

Nos ringues, Randy aguenta qualquer coisa. Em uma das lutas, ele sai com o corpo todo ferido, sangrando por toda parte, com cacos de vidro e grampos espalhados em si, mas com uma serenidade de que aquela dor vai passar, que aquelas feridas podem deixar alguma cicatriz, mas que vão deixar de incomodar em pouco tempo. Quando ele se assume como Robin, sabe que se se machucar, não há curativo que resolva. Sabe que qualquer cicatriz, por menor que seja, machuca por toda a vida. Assim como deveria saber o ator de 9 e ½ Semanas de Amor quando optou largar a fama pelos ringues.

O Lutador (The Wrestler, 2008, EUA/França)
Direção:
Darren Aronofski
Roteiro: Robert D. Siegel
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood
115 Minutos



Operação Valquíria

Cada vez mais, o Nazismo ou a Segunda Guerra Mundial é um tema recorrente no cinema. Este ano, diversas produções abordaram o assunto, com Um Homem Bom, com Viggo Mortensen, ou O Leitor, com Ralph Fiennes, cada um sob um ponto de vista diferente. Mesmo Quentin Tarantino, atualmente está rodando sua própria visão da época em Inglorious Bastards, com Brad Pitt e Leonardo diCaprio, em um misto de comédia e trash, como costuma fazer. Tom Cruise, não querendo ficar para trás, também tratou de conceber sua própria versão, com Operação Valquíria.

Polêmico, o longa logo chamou atenção por diversos fatores, na maioria ligados mais ao ator do que ao filme propriamente dito. Segundo boatos, o exército alemão demorou a permitir as gravações nas locações escolhidas por não quererem se envolver com alguém da cientologia. Cruise logo se prontificou a desmentir, afirmando que as filmagens correram bem, apesar de inúmeras vezes em que foi adiada a data de estréia. Mais do que fechado na questão de que há muitos filmes sobre o tema, ou de que este teve divergências durante a produção, o problema neste caso é bem mais amplo.

Operação Valquíria, estrelado e produzido por Tom Cruise, e dirigido por Bryan Singer, conta a história real do coronel nazista Claus von Stauffenberg. Apesar de estar no exército de Hitler, o oficial ficou conhecido por ter arquitetado uma das tentativas de assassinato sofridas pelo Führer. O coronel é um dos poucos dentro do sistema a perceber que estar a favor do nazismo é estar contra a Alemanha, por isso não se preocupa em trair seus juramentos se for pra salvar seu próprio povo. Quando encontra um grupo do alto escalão com o mesmo pensamento, surge o plano para eliminar o líder.

O grande mérito do personagem, então, foi ter tentado matar Hitler. Como todos sabem, mesmo a maioria que nunca tinha ouvido em falar em Stauffenberg, o coronel não teve sucesso em seu objetivo. O filme, então, é como que uma homenagem póstuma a um fracassado pela sua boa intenção. A história pode ser interessante, mas qual o estimulo de uma obra que endeusa alguém que não conseguiu realizar a única coisa pela qual ela poderia obter prestígio? Talvez, se o roteiro não se focasse apenas naquele personagem, mas falasse sobre o grupo, com um ponto de vista diferente, poderia não ser tão cansativo.

O maior problema de Operação Valquíria, então, é o próprio Tom Cruise. O ator e produtor parecia querer algo que o endeusasse também no tema tão em moda. E, apesar de não ter intenções tão boas, fracassou assim como seu personagem. A opção por Bryan Singer torna tudo ainda mais constrangedor. Diretor de X-Men e Superman – O Retorno, ficou claro que ele deveria transformar o coronel alemão em um quase super-herói. Só esqueceram que, neste tipo de história, o bem sempre vence o mal. E se Adolf Hitler derrotou Claus von Stauffenberg, subentende-se que ele seja o herói.

Operação Valquíria (Valkyrie, 2008, EUA/Alemanha)
Direção:
Bryan Singer
Roteiro: Christopher McQuarrie, Nathan Alexander
Elenco:Tom Cruise, Kenneth Branagh, Tom Wilkinson
121 Minutos



O Leitor (filme)

Quando Michael Berg, personagem vivido na fase adulta por Ralph Fiennes em O Leitor, adoece na porta de uma casa e é ajudado por uma estranha, ele não sabe que aquele momento será decisivo para mudar toda a sua vida, para causar uma dor e culpa imensa, da qual ele jamais irá se livrar. É por essa dor, que Berg já não consegue mais se relacionar com as mulheres que conhece, ou mesmo com sua filha, que sempre sentiu sua falta, mesmo quando ele ainda estava presente.

É Hanna Schmitz quem o ajuda. Interpretada por Kate Winslet, em um papel que lhe rendeu um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar, a personagem acaba atraindo o rapaz de apenas 15 anos, até que eles iniciam um relacionamento que alterna entre sexo e leituras de clássicos. Mais tarde, ele descobre ser ela, na verdade, uma criminosa de guerra, nazista. Todo o filme é uma reflexão de Berg, já adulto, sobre a relação intensa dele com essa mulher 20 anos mais velha. Apesar de ficarem juntos por pouco tempo, ele nunca conseguiu se livrar dessa relação.

Diretor de As Horas, Stephen Daldry segue, muitas vezes milimetricamente, outras com algumas liberdades poéticas, o livro de Bernhard Schlink, no qual o filme O Leitor se baseia. Porém, nos momentos em que a história ganha mais intensidade, Daldry, ou o roteirista David Hare, preferem se ausentar. A amargura de Berg, muito mais presente na versão cinematográfica, não tem tantos motivos quanto na versão impressa. Mesmo o grande segredo da obra, a grande vergonha de Hanna, é percebida facilmente nos trailers, enquanto camuflada no livro.

Impossível seria transcrever toda a história do papel para a película, mesmo com pouco menos de 250 páginas. Mas há momentos incisivos que foram cortados, assim como muitas passagens dispensáveis, que mesmo atrapalham o fluir da trama, mas estão lá. Cenas postas de uma forma muitas vezes didática para que o público se lembre delas quando surgir a grande revelação de Hanna, mas que, de tão didáticas deixam claro este segredo.

É belíssima a história de Michael e Hanna nas telas, com grande vantagem para a primeira parte, quando ele ainda está com seus 15 anos. A interpretação de Kate Winslet é realmente merecedora de prêmios. Se ela vai bem em Foi Apenas um Sonho, em O Leitor ela vai além como a ex-nazista dura e sofrida, que aos poucos revela seus traços de humanidade e feminilidade. Por tantas coisas, o filme realmente vale a pena. Porém, com um pouco mais de tempo, é melhor ler o livro e contemplar a história por inteiro.

O Leitor (The Reader, 2008, EUA)
Direção:
Stephen Daldry
Roteiro: David Hare
Elenco: Kate Winslet, Ralph Fiennes, David Kross
124 Minutos