
Depois de assistir ao funeral de seu pai, Meryl volta para casa em um trem. Distraída e pensativa, ela olha a paisagem, no momento em que um dos vagões descarrila quando iria entrar em um túnel, e o veículo se choca com o morro. Tudo continua bem e o trem segue seu caminho, uma vez que o acidente apenas fez parte da criativa e trágica imaginação de Meryl. É assim uma das primeiras cenas de Olhe Para os Dois Lados, filme australiano de 2005, dirigido por Sarah Watt.
Especialista em animações, a diretora resolveu de uma forma simples a diferenciação entre os sonhos de seus personagens e a realidade. Meryl é uma artista plástica, desta forma, seus sonhos são desenhos animados com os mesmos traços de suas pinturas. Já Nick, um fotógrafo, tem animações realizadas com fotos em seus delírios. Desta forma, Sarah pode ter uma maior liberdade em dar aos seus personagens uma imaginação capaz de propor as situações mais terríveis para quem está em volta deles.
Apesar de tratar da morte, Olhe Para os Dois Lados não deixa de ser um filme leve, uma comédia romântica em que seus protagonistas se conhecem após Meryl presenciar um homem sendo atropelado por um trem, evento que deverá ser fotografado por Nick, que trabalha no jornal local. A morte ronda a artista por sua solidão. Já uma balzaquiana, ela teme não encontrar alguém com quem compartilhe o resto de sua vida. Já seu novo parceiro, acaba de descobrir um câncer que já se espalhou pelo corpo.
Além do casal, personagens secundários também refletem sobre os acasos da vida e a inevitabilidade da morte. O maquinista, com sentimento de culpa, mergulha em uma grande tristeza depois do acidente. Nela, ele descobre sua inabilidade em se comunicar com seu filho. Andy, colega de Nick, tenta convencer a todos, através do jornal, que pequenos acidentes como estes são na verdade suicídios bem-sucedidos. Mas o acaso lhe traz uma grande surpresa, ao descobrir que sua ex-namorada está grávida, quando ele não consegue cuidar nem mesmo de seus filhos com a ex-esposa.
De uma maneira simples e ingênua, o filme australiano tenta tratar de assunto mais tensos e pesados, como a morte e o destino. A diretora, através de seus personagens, declara que o amor é um sentimento tão importante como a vida e a morte. A sutileza da câmera, dos atores e, principalmente, das animações, dá ao filme um toque muito mais descompromissado que o deixa leve.
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