Arquivado em: Cinema, Ficção | Tags: à meia-noite levarei a tua alma, Cinema, encarnação do demônio, esta noite encarnarei no teu cadáver, josé mojica marins, terror, zé do caixão

Depois do acidente com Morgan Freeman, muitos estão falando sobre uma possível maldição do filme Batman – O Cavaleiro das Trevas, que já perdeu o ator Heath Ledger e um técnico de efeitos especiais. Comparando com o que já viveu o cineasta brasileiro José Mojica Marins, isto não é nada. Maldições são constantes nos filmes do diretor, que já chegou a ver morrer duas atrizes para o mesmo personagem de um longa que até hoje não foi completado. Não foi muito diferente para o novo, Encarnação do Demônio.
O roteiro, que foi escrito em 1966, antes do lançamento do segundo filme da trilogia, Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver, iria ser filmado logo em seguida, não fosse a intromissão do Regime Militar. A censura não permitiu a feitura da terceira parte, já que o personagem é categoricamente contra a Igreja Católica. Após o projeto ser engavetado por quase uma década, uma nova esperança. Um produtor americano se interessou por levar às telas a história. Como era americano, ele podia.
Antes que tudo tivesse decidido, o homem faleceu de um câncer, e o projeto voltou para a gaveta. Mais dez anos e um novo produtor, um espanhol, decide filmar Encarnação do Demônio. Desta vez foi o coração que levou as esperanças de Mojica. Nos anos 90 foi um produtor brasileiro quem convenceu o cineasta retomar seu roteiro maldito e já desacreditado. Tudo estava indo muito bem, mas, sem grandes surpresas, este também veio a perder sua vida, de emoção, segundo o próprio diretor. Apenas na última década que o filme conseguiu sair do projeto finalmente, em uma produção corajosa de Paulo Sacramento.
O resultado nas telas foge muito do que era o Zé do Caixão dos anteriores À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver. O que era apenas implícito nos filmes anteriores, neste se torna bastante sanguinolento. A influência de filmes como Jogos Mortais é óbvia, sem sair do universo do personagem, um cético que só acredita na continuidade do sangue. José Mojica Marins não teve grande dificuldade em conseguir adaptar o personagem, e a narrativa, aos novos tempos. Se não for vítima de preconceito, o filme tem grandes chances de ser bem sucedido, encerrando de vez a maldição.
O que mais incomoda nisto tudo, no entanto, é a possibilidade. A censura dos anos 60 não enxergou no Mojica o homem crente que é, nem no Zé do Caixão o vilão dos filmes, indicando uma limitação crítica incrível. Limitação maior, no entanto é o que isto surtiu na carreira do cineasta. Se após tantos anos sem filmar, Mojica conseguiu habilmente, e com poucos recursos, se apropriar do que mais faz sucesso no cinema do gênero em todo o mundo, quem pode imaginar o que seria de sua carreira se não tivesse sido podada por uma ditadura artisticamente ignóbil. Esta sim, foi a verdadeira maldição.
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Será que no último e maldito filme da trilogia, Mojica deveria ter mesmo se vendido para o circuito comercial?
Isso não foi um ultimato infeliz para atingir um público que nunca sequer o acompanhou, enquanto seus filmes era realmente trash, sem recursos elaborados e de baixíssimo orçamento?
Quando Mojica ganhou salas no Cinemark para exibição de seus filmes? Quando houve alarde dessa forma? Fox?
Pergunte a cada um que sai da sala de cinema quais outros filmes de Mojica assistiram. E essa Cléo de Páris que agora está em todo lugar? É curioso e perceptível como a indústria levanta quem quer, qual é a cartada da vez. Ela e sua dicção didática, praticamente uma soletração.
Comment por Vanessa Carvalho Agosto 15, 2008 @ 1:49 pm