Arquivado em: Cinema, Ficção | Tags: Cinema, Foi Apenas um Sonho, Kate Winslet, Kathy Bates, Leonardo DiCaprio, Michael Shannon, Oscar, Revolutionary Road, Sam Mendes

Dez anos se passaram e Leonardo DiCaprio e Kate Winslet estão de volta aos cinemas juntos, como o casal de Foi Apenas um Sonho. Durante esse período, Titanic ou seu diretor James Cameron se perderam no tempo, ficaram para trás e são pouco citados atualmente, em compensação DiCaprio trabalhou em obras de grande porte e hoje é tido, ainda com ressalva, como um dos grandes atores do cinema. Winslet, por sua vez, não deixa ressalva alguma e se apresenta como uma nova Meryl Streep, colecionando prêmios e indicações.
Os atores são primordiais para a trama contada por Sam Mendes, marido de Winslet. O diretor de Beleza Americana retoma como um iconoclasta, tentando demolir o “American Way of Life”. Frank e April eram jovens sonhadores quando se conheceram. Com o casamento, os filhos, a adequação a uma vida normal, os jovens revolucionários da Revolutionary Road, acabaram entrando na rotina. E, como é comum nos casais, a paixão esfriou, dando lugar às discussões e à indiferença. April, no entanto, tem a solução para salvar o casamento. Que eles se mudem para Paris, tentar uma vida nova.
A questão não é Paris, ou qualquer outra cidade do mundo. Eles só precisam fugir da vida que levam na América dos anos 50, e que se continua levando hoje em tantos lugares. Em certo momento, Frank confessa que está fugindo do desesperado vazio da vida. O casal está em uma conversa com John, personagem que rendeu uma indicação ao Oscar para Michael Shannon. Filho de uma vizinha, o homem acaba de sair de um sanatório e não tem o mínimo pudor em dizer o que pensa. Sua capacidade de ver a vida além do medíocre, lhe trouxe os problemas emocionais, que se pensava na época só poderem ser curados com choques elétricos.
E é nesse momento em que Sam Mendes dá seu mais duro golpe na sociedade. John, um louco, um desajustado, é o único a perceber que é preciso sim fugir daquele vazio desesperador. E ele sabe que não é qualquer um que consegue cumprir uma missão tão dura, que é preciso muita coragem para isso. A sociedade não descartou John por ele ser um insano, mas por ele ter esse despreendimento de apontar o dedo na cara de cada um e mostrar suas fraquezas. E é muito difícil para qualquer ser humano ter seu ponto fraco exposto, mesmo que este seja coletivo.
Foi Apenas um Sonho ajuda Sam Mendes a voltar a dar um tapa na cara do americano médio ou daquele que tenta seguí-lo com empenho em busca de sua vida perfeita, com um carro na garagem de uma casa grande, com um grande jardim para plantar e dar espaço para as crianças brincarem. Frank apenas queria não seguir o caminho de seu pai, mas acabou herdando o emprego dele, e uma vida semelhante. A possibilidade de mudança aparece para todos, mas quem tem coragem de ver o desespero dentro do vazio da vida?
Arquivado em: Cinema, Ficção | Tags: Cinema, Jim Carrey, Peyton Reed, sim senhor, yes man, Zooey Deschanel

Um discurso político escondido no contexto de uma comédia banal? Um filme (mais um) de auto-ajuda para tentar em vão ensinar a humanidade a ser feliz? Uma reflexão sobre a vida moderna? Apenas puro entretenimento barato e acéfalo? Talvez o novo filme de Jim Carrey, Sim Senhor, seja todas estas coisas juntas, em um liquidificador de boas intenções e com um sentimento de dever cumprido no que resultou de seu objetivo final.
O comediante, que há muito tempo deixou de ser um simples careteiro e provou ser um dos melhores atores de Hollywood da atualidade, faz o papel de Carl Allen, um sujeito que se nega à vida. Seu emprego não lhe dá o que quer, seus amigos já estão se cansando de sua companhia, nenhuma mulher se interessa por ele, muito menos a que ele deseja, nada na sua vida funciona por ele só dizer ‘não’ a todas as propostas que lhe fazem. Até que, após uma quase lavagem cerebral, em uma palestra, ele passa a dizer ’sim’ para tudo, e isto muda completamente a forma como todos o vêem, ele passa a ser muito mais feliz, com mais amigos, um emprego superior e com uma mulher melhor do que a que ele desejava antes.
Pode parecer muito simples essa espécie de sequência de O Mentiroso, ou talvez só esteja sendo facilitado para que o público médio de Hollywood (seria uma espécie de Homer também?) possa aproveitar, mesmo que queira apenas ver mais um filme de Jim Carrey. Mas Sim Senhor também trata de muitas outras coisas além do que aparenta, como é comum nos filmes do ator. Mas, para começar, é melhor desfazer um equívoco do título brasileiro, que deveria ser algo semelhante a Senhor Sim, para fazer mais sentido. Enquanto Sim Senhor é um título que rememora à submissão, o que ele deveria era passar a idéia de alguém que, simplesmente, só diz sim.
Avisado o engano, é bom também lembrar sobre como as pessoas hoje lidam com este tipo de situação. Há um medo generalizado, dentro desta modernidade liquida, de aceitar o que aparece, sendo muito mais fácil ficar no ‘não’, ou no ‘talvez’. Desta reação deriva grande parte dos problemas de relacionamento, inclusive em âmbitos políticos. O filme chega a fazer uma piadinha a respeito disso, quando Carl Allen é preso por sua atitude suspeita. Veja bem, hoje, nos EUA, é ainda mais difícil dizer ’sim’ para todas as oportunidades que surgem.
Resumindo, o filme é um grande tratado filosófico ou psicológico? Claro que não, ele está realmente muito mais próximo de uma comédia banal do que disso. Mas, assim como grande parte de suas comédias, o caráter dramático de mais este filme de Jim Carrey não é algo a ser descartado apesar de suas máscaras de futilidade. Há muito a se considerar sobre sua obra, e Sim Senhor não foge a isto. Mesmo assistida de forma despretensiosa, a comédia tem muito a deixar para o espectador.
Arquivado em: Cinema, Ficção | Tags: Austrália, Baz Luhrmann, Cinema, Hugh Jackman, Nicole Kidman

Há quem diga que Baz Luhmann é um diretor de filmes de ‘menininhas’. Depois de criar obras como Romeu + Julieta ou Moulin Rouge, não é de se admirar que o cineasta tenha adquirido tal fama. Os longas são completamente costurados pelas histórias de amor, e contêm um caráter lírico bastante marcante, seja pela narrativa ou mesmo pela trilha sonora, que costuma chamar bastante a atenção do público. Com sua nova obra, Austrália, não é diferente.
Pode parecer estranho a princípio. O filme conta uma história que se passa em meio à Segunda Guerra Mundial. Não bastasse, fala de uma mulher que precisa salvar a fazenda de sua família, e para isso precisa fazer uma jornada pela Austrália com 1500 cabeças de gado. Com um enredo desses, difícil dizer que seja voltado para o público feminino. É aí que entram os personagens. Ela é Sarah Ashley, uma inglesa interpretada por Nicole Kidman, e para o serviço conta com a ajuda do Capataz, vivido por um Hugh Jackman quase sempre com a camisa apertada, quando não está sem.
Ashley acaba de perder o marido, morto em uma emboscada armada pelos mesmos que colocam em risco a fazenda, e contra quem ela deve se defender. Claro que entre a Senhora Patroa, como é chamada, e o Capataz, não haverá apenas a relação profissional. Ainda, há uma criança na história, Nullah, cuja mãe acaba de falecer. Bem, temos três personagens principais: uma mulher que perdeu o marido, um menino que perdeu a mãe e, quem diria, um homem que perdeu a esposa.
Desta forma fica mais simples de se formar uma família. Nullah precisa de uma mãe, e a encontra em Sarah, que precisa de um homem para ajudá-la a cuidar de sua vida, que é o Capataz, que por sua vez perdeu sua esposa negra, mas encontra outra branca, mas um filho mestiço. Tudo isso, porém, precisa acontecer em um ambiente dificultado, com inimigos querendo o mal dos três, um cenário inóspito, e um ser superior que zela por todos. Mais interessante ainda se tudo se passa durante uma guerra.
Inspirado em E O Vento Levou…, tentando ser uma espécie de versão australiana do clássico – visto que o diretor e os dois atores principais são de lá -, o filme tenta copiar até uma forma arrastada dos épicos antigos, porém com menos sapiência na hora de amarrar esse roteiro. Calma, continue sentado na poltrona se acha que o filme está terminando, ele não está. De qualquer forma não é um tempo de todo perdido, caso você tenha 2h45 livres. Esteticamente é uma obra bastante bonita, e a história de Nullah e seus semelhantes chama a atenção. Só precisa de um pouco de paciência, que é possível aproveitar Austrália.
Arquivado em: Cinema, Ficção | Tags: a troca, angelina jolie, changeling, Cinema, clint eastwood

No filme dirigido por um renomado diretor, Angelina Jolie interpreta o papel real de uma mulher forte, mas que não percebe esta força até que precisa dela. Sua vida é dedicada quase que exclusivamente para a pessoa que mais ama, que subitamente é levada dela. A personagem, então, faz de tudo para descobrir seu paradeiro e para exigir que a justiça seja feita, custe o que custar.
Estas palavras podem tanto descrever O Preço da Coragem, de Michael Winterbottom, ou o novo A Troca, de Clint Eastwood. Tirando um ou outro ponto, os filmes tem temáticas bastante parecidas. A grande diferença, certamente, é o peso da direção. Enquanto Winterbottom fraqueja ao dirigir alguém como Jolie, que exagera em sua atuação, transformando o dramático em ora cômico, ora vergonhoso. Já sob a batuta de Eastwood, com sua longa carreira de ator, a atriz realmente demonstra toda a dramaticidade necessária.
Nos anos 20, Christine Collins é uma mãe solteira que tem sua vida completamente transformada quando seu filho, Walter, desaparece. Depois do caso virar uma grande comoção pública, a polícia de Los Angeles, famosa pela corrupção, decide se empenhar em encontrar o garoto, e logo o faz. Porém, o menino devolvido não é Walter, mas uma outra criança. Christine, então, precisa provar que aquele não é seu filho, além de pedir que voltem a se mobilizar para achar o verdadeiro garoto.
A dureza do roteiro, que foi pensado por um acaso, deve abalar grande parte do público de uma estrela como Angelina Jolie. O filme se registra como um crescente de baques que a mãe sofre para tentar salvar a vida do filho, ante a ineficiência policial e o desinteresse político. O que se vê nas telas não destoa tanto do que ainda pode acontecer em diversas partes do mundo, mesmo no Brasil. Se a polícia não pode resolver um crime, o erro é de quem denunciou.
A história, apesar de verdadeira e de ter chocado a população no fim da década de 20, já estava esquecida. Foi um informante quem disse para o roteirista J. Michael Straczynski que haviam alguns documentos na prefeitura que ele poderia gostar de ler. Estes papéis eram as transcrições dos julgamentos do caso. A partir de então, o roteiro foi escrito e apresentado à Clint, que gostou do que viu.
O diretor, que há muito já provou que é muito mais do que um simples ator de faroeste, mostra mais uma forte história com protagonista feminina. Aliás, Clint Eastwood deixa claro que seu forte é justamente este. Mesmo que ele tenha colhido inúmeros elogios com Sobre Meninos e Lobos ou com os dois filmes sobre a guerra de Iwo Jima, é Menina de Ouro e, agora, A Troca que mais tocam os espectadores.


