Arquivado em: Cinema, Documentário | Tags: Chaim Litewski, Cidadão Boilesen, Ditadura, Documentário, DOI-CODI, DOPS, Pedro Asbeg, Regime Militar, Ultragaz

Quando foi lançado no Brasil o filme Coco Antes de Chanel, biografia de uma das mais influentes estilistas do mundo, muito se falou sobre a omissão de seu envolvimento com o nazismo. Da mesma forma, se questionou o fato de, após o fim da guerra, alemães, franceses e gente de todo o mundo se tornasse, de repente, opositor ao sistema. Assim como na Europa, no Brasil aconteceu caso parecido. No início da década de 60, muitos empresários e instituições pediam o Golpe de Estado ao governo João Goulart e, mesmo durante a ditadura militar, foram financiadores dos golpistas. Com o retorno da democracia, no entanto, muitos deles comemoraram com o outro lado, sem sujar seus nomes, ou de suas empresas com a ligação anterior.
Mesmo mais de duas décadas após o fim do regime, apenas os militares são responsabilizados por atos contra a liberdade. Um passo para abrir a discussão é o lançamento do documentário de Chaim Litewski, Cidadão Boilesen. O filme conta a controversa ligação entre o dinamarquês Henning Boilesen, presidente da Ultragaz, e os militares da Operação Bandeirante, responsável pelo temido DOI-CODI. Membro ativo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a FIESP, o empresário não apenas financiava a tortura, como convencia outros industriários a fazer o mesmo. Além disso, Boilesen tinha a mórbida mania de estar presente quando revolucionários eram torturados, o que resultou em seu assassinato, em 1971.
Mais do que fazer um filme que demonize o personagem, ou mesmo apenas uma denúncia aos civis que financiaram a Oban, Chaim mergulhou durante dezesseis anos em um minucioso trabalho de pesquisa, que deu voz a todos os lados da história. Tomando o distanciamento necessário da história, o cineasta recolheu depoimentos desde funcionários da escola em que o personagem estudou na Europa ao filho de Boilesen, do coronel Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI, ao líder da ação que resultou na morte do empresário, Carlos Eugênio da Paz, sempre dando espaço para cada lado expor suas verdades, e quase sempre ouvindo o mesmo discurso, de que não foram apenas os militares os responsáveis pelo terror da ditadura, mas muitos civis.
Abusando de recursos audiovisuais, como músicas e filmes que retratam a época, e com a ajuda do produtor e montador Pedro Asbeg, Chaim criou um filme leve, didático e bastante emocionante, com uma edição lúdica e ágil que prende a atenção do espectador do início ao fim. A estrutura narrativa do filme já fascina o espectador. Aliando à riqueza de detalhes conquistada pelos anos de pesquisa, o filme alcança lugar de destaque entre os melhores documentários brasileiros lançados nos últimos anos, o que lhe rendeu, inclusive, o prêmio de melhor filme na edição de 2009 do festival É Tudo Verdade.
Seja pela estrutura, pelo apurado trabalho de pesquisa, ou pela força da história, o filme já merece ser visto. Porém, mais do que uma obra cinematográfica, Cidadão Boilesen é o instrumento para a mudança no pensamento do brasileiro. Em entrevistas, Chaim deixa clara a sua intenção de usar o filme para questionar tantos Boilesens que ainda estão vivos hoje, e que posam de defensores da democracia e da liberdade. Mais do que investigar o lado negro do empresário de origem dinamarquesa, o cineasta quer, com este polêmico filme e com os debates que ele pode suscitar, expor o lado negro da sociedade civil brasileira. Porém, este já não é um trabalho tão simples, já que a mesma elite que lutou às escondidas para apoiar a ditadura, ainda continua na surdina impedindo que este envolvimento venha a tona.
Cidadão Boilesen (2009, Brasil)
Direção:Chaim Litewski
Roteiro: Chaim Litewski
93 Minutos
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Poucas vezes um filme de guerra consegue ter uma posição que o diferencie dos demais. São raros os casos de longas que consigam sair do lugar-comum, daquela batida narrativa, encadeamento dos fatos, fotografia, entre tantas coisas. Valsa com Bashir o conseguiu de uma forma simples que teve um resultado estonteante, por, primeiro, se colocar como um documentário em primeira pessoa, e, ainda, por ser uma animação. Extremamente psicológico, a opção por não haver sido feito com pessoas de carne e osso, não só é esteticamente belo, como torna possível nas telas toda a viagem do subconsciente do diretor Ari Folman.
Tudo começa quando o cineasta é acordado por um amigo, Boaz Rein, que não consegue dormir por causa de um sonho recorrente há mais de dois anos. O fato nada mais representa para o restante do filme, é apenas o pontapé inicial de uma grande viagem pela mente humana, no caso a mente de Ari Folman. No pesadelo, uma matilha de 26 cães raivosos correm pelas ruas com o objetivo de matar Boaz, e a única coisa que ele sabe é que este sonho remete a um acontecimento do passado comum deles, quando ambos serviram no exército israelense durante a Guerra do Líbano, há mais de 20 anos.
Folman, então, se dá conta de não ter qualquer lembrança daquela época. Naquela noite, porém, ele se lembra de uma cena, em que ele está na praia diante de uma cidade em ruínas. Quando caminha pelas ruas desertas desse local, é surpreendido por dezenas de mulheres gritando em desespero. A imagem faz com que ele passe a investigar, entre amigos e outras pessoas que fizeram parte daquele momento, o que de tão terrível aconteceu ali, que fez com que seu cérebro simplesmente descartasse toda informação sobre aquele período. Ele vai entrevistando várias pessoas, inclusive um analista, para entender melhor sua mente.
Este é um ponto que causa ao mesmo tempo o estranhamento e a curiosidade do espectador. Valsa com Bashir não é um simples filme de guerra, mas um filme sobre as consequências da guerra na cabeça do cineasta. Folman vai aos poucos percebendo o que tentou esconder de si próprio durante toda a vida. Seu povo, sua origem, sua cultura é colocada em cheque por aquele momento marcante que ele, inconscientemente, decidiu esquecer. Ele percebe que de nada adianta eleger um inimigo, considerá-lo um monstro e fazer o mundo acreditar nisso, se quando se olha no espelho, você percebe que entre você e o monstro não há diferenças, que você pode cometer os mesmos erros que ele.
Por ir tão profundamente dentro de si, Ari Folman deixa escapar facilmente entre os traços dos desenhos uma carga forte de emoção que nunca chegaria se optasse por um filme de ficção ou se filmasse as cenas. Em Valsa com Bashir, ele coloca apenas o que ele vê, e assim o espectador vai fazendo suas descobertas e se surpreendendo junto a ele. Mesmo sendo uma animação, não é um filme fácil. O alto contraste e as cores vibrantes embelezam, mas não escondem o sentimento. A cena final, uma das mais chocantes do cinema, sozinha poderia ser julgada de diversas formas ruins, mas todo o encadeamento que é construído faz com que a obra desemboque naquilo de maneira natural, mas não menos chocante, tornando o filme ao mesmo tempo forte e magistral.
Valsa com Bashir (Vals Im Bashir, 2008, Israel)
Direção: Ari Folman
Roteiro: Ari Folman
90 Minutos.
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Os EUA estão doentes. O país que se considera o mais poderoso e importante do mundo tem a sua saúde frágil. E o que os fazem tão poderosos é exatamente o que torna essa saúde tão débil. Forte opositor do presidente George W. Bush, o cineasta Michael Moore decidiu investigar este problema. Porém, como é sabido que seu país não é nada saudável, em seu filme $.O.$. Saúde ele não se atém apenas em mostrar o caos do sistema, mas em provar também como o presidente está pouco se importando com o seu povo e como ele e a mídia mentem.
No início, Moore fala sobre personagens que não são cobertos por planos de saúde nos EUA, e deixa claro que o filme não é sobre eles, mas sim sobre aqueles 250 milhões que se sentem em paz por possuir o benefício. Mas na verdade o documentário não é bem sobre esses também, mas sobre como o governo estadunidense tem grande êxito ao tentar manipular o povo, com verdades inventadas por si, que dizem ser a favor do povo quando em muitos outros países seriam logo descartadas como grandes embustes. E Moore não quer apenas dizer que são meras mentiras, ele prova com fatos e imagens cada um de seus ataques.
É fato que o cineasta não é nenhum exemplo de confiança. Michael Moore foi bastante criticado à época de Tiros em Columbine por manipular as imagens ao seu favor. Mesmo mais cedo, em Roger e Eu, o diretor expôs apenas o que lhe era conveniente. Da mesma forma que não dá para negar o seu caráter picareta, não há também como desprezar a imensa qualidade que $.O.$. Saúde conseguiu atingir. Moore, desta vez, não usa apenas truques de câmera e edição para comprovar suas teorias – não que tenha deixado de usar –, mas cresce como cineasta e como investigador ao deixar o filme ser maior que seu próprio ego – fora uma das cenas finais, sobre um rival, que ao menos suaviza um assunto tão pesado.
Com carta branca do governo e apoio da mídia, os planos de saúde estadunidenses se esforçam, e muito, em apresentar motivos para que os seus associados não possam ter direito a este ou aquele tratamento. Chega ao ponto de uma mulher, que é levada inconsciente ao hospital, depois de um acidente, receber a conta da ambulância por não ter feito o pedido com antecedência. O esforço dos planos é tamanho que eles dão bônus aos médicos que conseguem deixar um doente sem o tratamento adequado. Tudo em nome do dinheiro, sem se importar com as vidas ao redor.
Para contrastar o sistema de saúde dos EUA e contradizer o governo e a mídia, Moore visita outros países e estuda como funciona em cada um deles, incluindo Cuba, o que causou problemas ao diretor. Em comparação aos outros, percebe-se como o “país mais poderoso do mundo” está afundado em corrupção, e como isto parece estar próximo de desmoronar. O grande problema em se assistir a este tipo de filme por aqui é o fato de o nosso sistema de saúde estar mais para EUA do que para Canadá, França ou Cuba. É uma pena que o Brasil esteja adoecendo tão rápido.
Arquivado em: Cinema, Documentário | Tags: bangu, Cinema, Documentário, música, rato no rio, rio de janeiro, rock, underground
Documentário sobre a cena do rock underground da Zona Oeste do Rio de Janeiro em 2002. Realizado a partir do Rato no Rio, um festival mensal realizado em Bangu. Com a participação do organizador do Rato no Rio, Marcelinho, e das bandas Filhotes!, Sexo & Blood Mary e Ataque Periférico.
Aceito reclamações, elogios, críticas, sugestões, convites para novas produções e o que quer que você tenha a falar a respeito…
Pouco se falou aqui no Brasil sobre o documentário Acampamento de Jesus, e dificilmente ele terá uma grande atenção da mídia, mesmo dizendo o que muitos precisam escutar. Ele concorreu ao Oscar de melhor documentário e, provavelmente, seria o vencedor, não fosse a presença de Al Gore e seu Uma Verdade Inconveniente entre os indicados.
O filme, dirigido por Heidi Ewing e Rachel Grady, fala sobre o crescimento de um grupo evangélico nos EUA que não tem nenhum pudor de confundir religião e política. O grupo, que vê o presidente George Bush como um grande ídolo, divulga em suas reuniões e missas a importância de votar em candidatos indicados por eles para que a religião se fortaleça e, assim, Deus consiga vencer o diabo.
O mote principal do documentário é um acampamento onde se doutrinam a crianças a se tornarem mini-pastores. É assustadora a forma como os argumentos são colocados. No acampamento, as crianças são forçadas a acreditar que Deus quer que elas passe sua palavra aos outros – leia-se: ficar pregando por todos os lugares em que estiver – e que, se eles quiserem ter uma vida normal de criança ao invés de tentar convencer seus amigos a entrar no mesmo transe em que são colocados, é porque eles estão dominados pelo diabo e irão todos para o inferno.
Assim como o colega famoso, Uma Verdade Inconveniente, Acampamento de Jesus também fala sobre o aquecimento global, porém não se atém somente neste tema. O assunto é falado de uma forma bem rápida, e pode servir como um complemento para o documentário de Al Gore. Na cena, uma mãe que não confia em escolas e professores, ensina o filho em casa. Ao questioná-lo sobre o aquecimento, ele responde que é uma bobagem, assim como o ex-futuro presidente diz que acontece.
Mais do que um filme sobre um isolado grupo cristão, Acampamento de Jesus é sobre uma direita radical liderada por George Bush que se nega a aceitar fatos que vão contra seu governo. Diferente de Al Gore ou de Michael Moore, as diretoras optaram por mostrar o suposto inimigo de uma forma bastante crua, e não simplesmente recheá-lo de críticas. Um filme que merece um pouco mais de atenção.


