Verdade Alternativa


A Órfã

Há diferentes formas de um filme se tornar polêmico. Dentre as mais clássicas, há duas divisões bem claras para aqueles mais acostumados em assistir todo tipo de gênero. Há as obras que defendem uma causa que ainda é considerada tabu na sociedade. Ao fazer isto, acaba atraindo acaloradas discussões e a atenção da mídia. E existem, também, aqueles filmes que preferem o caminho inverso. Com a intenção de conquistar grandes bilheterias, fazer fama rápida e ter a atenção da mídia, escolhem temas polêmicos. Este parece ser o caso de A Órfã, do diretor espanhol Jaume Collet-Serra, de Casa de Cera.

No enredo, o jovem casal Kate e John acaba de sofrer uma grande perda quando ela aborta. Apesar de já terem dois filhos, os dois acreditam que aquele amor que dariam ao terceiro pode ser usado para alguma outra criança, assim decidem adotar. A escolhida é Esther, uma talentosa menina de nove anos, que aos poucos demonstra não ser exatamente quem todos imaginam. Dissimulada e maquiavélica, a garota consegue manipular todos à sua volta, jogando um contra o outro, sem que ninguém perceba que é ela quem está por trás das brigas. Quando não consegue o que quer, ela também não tem pudores em matar seus adversários.

Assim que o longa foi lançado nos EUA, organizações pró-adoção se manifestara, pedindo o boicote da obra. Todos alegavam que aquele filme apenas desestimularia os futuros pais a adotarem crianças, ainda mais as mais velhas, que tem mais dificuldade em conseguir uma família. Como toda manifestação contrária, esta apenas serviu para que o filme se tornasse manchete em todo o mundo, conquistando uma publicidade gratuita enorme, que terá como resultado exatamente o oposto do que as organizações desejam. A obra será ainda mais vista.

Assim como tantos outros casos parecidos, um filme que não tinha nenhum potencial passa a ser um grande produto por conta de manifestações contrárias. Não há muito o que se salve em A Órfã. Como filme de terror, é um desastre. A maior parte dos sustos que a plateia possa tomar, provém apenas de pegadinhas ao espectador, seja com músicas tensas, som mais alto do que o normal, ou clichês, como em uma cena logo no início do filme. Kate está sozinha no banheiro, abre uma porta espelhada, quando fecha novamente percebe que tem alguém atrás de si: seu próprio marido.

Até há questões interessantes no roteiro. Durante todo o filme se especula sobre um passado sombrio de Kate. Além disso, a filha do casal, Maxine, é surda e não se deixa claro o porquê. No entanto, não adianta o espectador aguardas explicações, elas não vêem. Talvez por preguiça do roteirista, o filme prefere ficar apenas no superficial, com uma história fraca, de mau gosto e boba. Mas, afinal, para que a preocupação com um bom roteiro, se as organizações pró-adoção já vão dar todo o público que o filme quer ter?

A Órfã (Orphan, 2009, EUA)
Direção:
Jaume Collet-Serra
Roteiro: David Johnson
Elenco: Isabelle Fuhrman, Vera Farmiga, Peter Sarsgaard
123 Minutos



A Teta Assustada

Apenas o título do filme A Teta Assustada já causa um misto de repulsa e curiosidade na maioria dos espectadores. Apesar de adequado, o nome não consegue fazer prever em quem irá assistir à obra vencedora do Urso de Ouro em Berlim toda a agonia e incômodo causados pela história de Fausta, uma jovem peruana descendente de índios Quechua. No Brasil, o longa de Claudia Llosa foi apresentado, a princípio, como O Leite da Amargura. Em uma atitude rara, a Paris Filmes optou por manter a tradução literal, o que pode afastar alguns espectadores desavisados, mas só faz bem à obra.

O filme fala sobre o medo a partir do drama da jovem Fausta, e os conflitos que ela passa entre a vida em uma grande cidade e a manutenção de suas tradições. Em sua família, apenas ela e a mãe têm o devido respeito pela cultura de seu povo. Por exemplo, entre elas, ou em momentos de maior intimidade, preferem um falar cantado, no dialeto de seus antepassados, assim como estes faziam. Com a morte da mãe, porém, o tio da garota deixa claro que o modo de viver dela pode atrapalhar seus negócios. A moça, então, tem poucos dias para conseguir transportar o corpo para o local onde a mãe deve ser enterrada, ou o enterro não honrará o resto da vida da mulher.

Não bastasse, Fausta sofre de uma doença psicológica chamada de Teta Assustada. Quando sua mãe estava grávida, foi estuprada por guerrilheiros durante um conturbado período no Peru. O ato transmitiu ao feto um medo imensurável, que impede a jovem de ter uma vida normal. Em uma atitude desesperada, ela chega a manter uma batata dentro de sua vagina, imaginando ser a única forma que pode evitar sofrer a mesma violência que sua mãe. Apesar da repulsa, ou estranhamento, que pode se ter, não passa de um filme de amor, um amor pela vida que não se consegue ter.

Mais do que falar do drama de uma só mulher, Claudia Llosa revela o medo de seu país, um sentimento que pode ser ampliado para grande parte da América Latina. Não é apenas Fausta, mas toda uma geração de jovens apáticos, em diversos países, que herdam apenas um enorme e absurdo medo, mesmo que as causas deste ocorreram antes mesmo de seu nascimento. Além deste temor, este povo é diariamente provado a desistir de suas raízes, adotando um modo de vida que vai contra tudo o que seus antepassados acreditavam.

Em determinado episódio do longa, quando Fausta deixa escapar uma canção para mantê-la mais calma, sua patroa aproveita a música para tirar proveito próprio. A cultura é, sim, interessante, mas este mesmo que se interessa por ela, tenta vender uma imagem de que o importante é abandonar suas raízes e seguir o trilho mais fácil, mais comum. O brasileiro, apesar da proximidade física do Peru, pode se ver distante das questões tratadas no longa de Llosa. Não que não o diga respeito, mas por desprezar toda esta cultura. Mesmo abrindo mão disto, no entanto, a doença continua. Muitos ainda sofrem pela Teta Assustada, e a única cura é enfrentar o problema.

A Teta Assustada (La Teta Asustada, 2009, Peru)
Direção:
Claudia Llosa
Roteiro: Claudia Llosa
Elenco: Magaly Solier, Susi Sánchez, Efraín Solís
95 Minutos



Arraste-me Para o Inferno

Não há mais inocência no mundo. Depois de 11 de setembro, da guerra de Bush contra o terror e da crise mundial financeira que assola grande parte dos países nos últimos meses, o Planeta Terra está cada vez mais cru e sórdido. Nos cinemas é possível ver bem isto. Mesmo a Disney, que alimentou ilusões em todo o globo com seus contos de fadas, veio com Encantada, a história da princesa que literalmente cai na real e percebe que a vida não é tão perfeita assim. Depois do cinema infantil, só restava a inocência acabar nos filmes de terror. E é justamente o que acontece em Arraste-me Para o Inferno, a volta de Sam Raimi ao gênero depois de atingir o sucesso com Homem Aranha.

Com uma estética anos 80, remetendo ao seu sucesso Evil Dead, o diretor conta a história de Christine Brown, uma jovem recém-chegada do interior que almeja uma carreira de sucesso no sistema financeiro dos EUA. Trabalhando no setor de empréstimos de um banco, prestes a se tornar assistente da gerência, ela recebe a visita de uma velha senhora que lhe pede mais prazo para o pagamento da hipoteca. Para não perder a chance de conseguir a promoção, ela nega o pedido. A mulher, no entanto, é uma cigana, que amaldiçoa Christine. Agora, sua alma está na mão de um espírito do mal, que aterrorizará sua vida e a levará ao inferno em três dias.

Pelo menos isto é o que se percebe à primeira vista. Mas as coisas não são tão simples assim. Existem muitas nuances por trás deste novo filme de Raimi, coisas que passariam despercebidas facilmente, mesmo numa época como esta, mas que um olhar mais atento revela. Já é fácil perceber que existe algo bem diferente na obra. Ao contrário da maioria dos longas do gênero, principalmente estes dos anos 80, a protagonista não é uma moça boazinha, incapaz de qualquer tipo de maldade. Christine poderia ter sido assim em um passado remoto, mas a vida lhe ensinou a deixar de sentimentalismos e pensar no lado prático das coisas.

Uma protagonista que comete crueldades, como assassinar seu próprio gato de estimação, talvez mereça ser arrastada para o inferno através desta maldição que caiu sobre ela. Mas pode ser que não seja bem isso que o diretor quis dizer quando deu este título à obra. Christine era uma boa moça do interior, mas ao chegar à cidade grande foi fuzilada pelo “american way of life”. Gordinha, ela precisou emagrecer e se adaptar aos padrões de beleza vigentes. Na vida profissional, precisa ter sangue frio para lidar com a vida das pessoas, sem se preocupar com o caos que sua ação pode desencadear para famílias simples. No amor, tem um relacionamento com um jovem de boa índole, mas precisa provar aos pais dele que é a mulher ideal, aquela que vai fazê-lo crescer pessoal e profissionalmente, e não uma moça qualquer da fazenda.

Não é por culpa da velha cigana que Christine se torna uma pessoa vil, ela já era antes da mulher aparecer em sua vida. Esta, apenas foi o gatilho que definiu o futuro da jovem a curto prazo: ser arrastada para o inferno. A executiva ainda resiste em cometer estes atos cruéis, a princípio, mas a pressão que sofre no banco, na família de seu namorado, na sociedade, dá forças para que ela perca seu coração. Não existe uma maldição cigana nesta história. Os demônios que a garota enfrenta, são bem mais reais do que fantasmas de filmes de terror. É o modo de vida das capitais, o sistema financeiro norte-americano, que está arrastando a todos, cada vez mais, para o inferno.

Arraste-me Para o Inferno (Drag Me to Hell, 2009, EUA)
Direção:
Sam Raimi
Roteiro: Sam Raimi e Ivan Raimi
Elenco:
Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver
99 Minutos



À Deriva

Apenas três cenas já são suficientes para resumir a profundidade das relações dentro da narrativa de À Deriva, novo filme de Heitor Dhália, que vai em um caminho inverso aos seus anteriores, O Cheiro do Ralo e Nina. Semelhantes, a primeira e a última imagem do drama mostram a personagem Filipa, vivida pela atriz iniciante Laura Neiva, flutuando no mar de Angra dos Reis. Na abertura do filme, a câmera fechada e por vezes sufocante de Dhália deixam a impressão de que a garota está só, até sermos surpreendidos pela presença de seu pai, Matias, papel de Vincent Cassel.

Algumas cenas depois, quando o conflito da personagem já está bastante desenvolvido, ele fala do livro que está escrevendo, que não se trata de uma história de separação, mas sim de confiança. Não é sobre a obra do personagem, escritor existencialista francês dos anos 80, que aquele texto remete, mas ao próprio À Deriva. A relação conturbada e de quebra de confiança entre o pai adultero e a filha que descobre a vida a dois, e também entre a mãe alcoólatra e a garota perdida nos conflitos da adolescência, são muito mais densos dentro da narrativa do que simplesmente a possibilidade da separação entre os personagens de Cassel e Debora Bloch.

Na praia, durante as férias, Filipa descobre que seu pai está traindo a mãe com uma vizinha norte-americana. No mesmo momento em que ela se vê em um período em que os hormônios começam a dominar os sentimentos, que passa a iniciar uma descoberta sexual com um garoto da turma de amigos, a menina sofre por não saber qual sua posição em relação à traição do pai, se deve ou não contar à mãe. No decorrer das férias, a família entra em um processo acelerado de degradação, observado de camarote pela filha mais velha.

Junto às descobertas dos prazeres da vida adulta, Filipa leva o pacote completo que a faz perceber que o mundo do faz-de-conta fica restrito ao universo infantil, e que ela não tem mais acesso a isto. As possibilidades do amor e a dureza da realidade aparecem juntos para a menina de apenas catorze anos, que pensava apenas passar mais umas férias tranquilas com seus pais e irmãos na praia. É um momento de descoberta, a separação talvez seja necessária, e sem uma percepção do universo não se pode ter a confiança necessária para seguir em frente, para superar os conflitos com sucesso. Não apenas no caso de Filipa, mas principalmente se tratando do próprio Heitor Dhália.

Depois de dois filmes em que passou para as telas uma história adaptada, fruto da parceria com Lourenço Mutarelli e Marçal Aquino, o cineasta sente a confiança para um trabalho mais pessoal. Nina, personagem do filme homônimo e Lourenço, de O Cheiro do Ralo, tinham uma visão restrita do mundo, estavam presos em seus mundos, como a infância de Filipa, inspirada na adolescência do próprio Heitor. Talvez a separação de Mutarelli e Aquino fossem necessárias para o diretor encarar no cinema a separação de seus próprios pais. Esta psicanálise nas telas, a tomada de consciência de um mundo mais amplo do que o de seus personagens anteriores, trouxeram a confiança para Dhália realizar uma obra que enterra de vez o passado mais infantil. Resta agora, conferir os belos frutos que esta maturidade profissional trará ao nosso cinema.

À Deriva (2009, Brasil)
Direção:
Heitor Dhália
Roteiro: Heitor Dhália
Elenco: Laura Neiva, Vincent Cassel, Debora Bloch
97 Minutos.



Inimigos Públicos

Para contar a história de um dos mais procurados gangsteres norte-americanos, o diretor Michael Mann, de Ali e Miami Vice, ousou em buscar novos recursos de fotografia, filmando em digital. Mesmo sendo um filme de época, o que poderia criar certo estranhamento do espectador, Inimigos Públicos foi captado por câmeras de alta definição em um projeto inédito. O resultado, porém, ficou bem aquém do que poderia ter sido obtido com uma câmera 35 milimetros.

A história ainda prende a atenção, mesmo em seus 140 minutos de filme. John Dillinger, interpretado por Johnny Depp em um de seus poucos papéis realistas, é um grande ladrão de bancos procurado pela agência de investigação comandada por J. Edgar Hoover, que até então, nos anos 30, ainda não é o famoso FBI. O criminoso, que aprendeu tudo o que sabe em nove anos que passou na prisão, era o terror dos bancos, mas um herói para a população norte-americana na época. Após a crise de 29, o povo culpava as instituições financeiras pelo caos. Ao mesmo tempo, Dillinger se negava a roubar de civis, apenas destes grandes bancos.

Conquistando a simpatia do povo, aliado a sua inteligência, o gangster era praticamente intocável. Nas poucas vezes em que era pego pelos policiais conseguia escapar com certa facilidade, para total desagrado de seu arquiinimigo, o agente Melvin Purvis, papel de Christian Bale. Enquanto foge do encarregado pela inteligência de Chicago, Dillinger conquista o coração da jovem Billie, uma moça simples e rejeitada pela sociedade, vivida por Marion Cotillard. A paixão entre os dois, apesar de humanizar ainda mais o personagem, indica sua maior fraqueza.

Na verdade, não era bem assim que as coisas aconteciam. A vida não é um filme, Dillinger não era tão santo quanto nas telas, e Purvis também não tão bem cotado. As liberdades poéticas acontecem a todo momento. No longa, Melvin é designado a prender Dillinger após matar um grande gangster, Pretty Boy Floyd, que na vida real morreu depois do próprio Dillinger. Este e outros casos que diferem da realidade, acabam não prejudicando o entendimento do personagem e da consolidação do FBI, apesar de esta história ficar como um pano de fundo praticamente distante.

O problema vem mesmo com as imagens que Inimigos Públicos apresenta. Com câmeras digitais, e a liberdade de movimentos que elas proporcionam, o filme chega a assemelhar imagens documentais, ou até mesmo às amadoras dramatizações comuns em programas jornalísticos policiais. O recurso que funciona bem com um filme independente, um drama intimista, ou algo do tipo, se perde quando em uma superprodução hollywoodiana de ação. Não que a escolha da câmera transforme o que seria uma obra-prima em uma bomba, mas muito se perde da qualidade que poderia ter.

Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009, EUA)
Direção:
Michael Mann
Roteiro: Ronan Bennett Michael Mann
Elenco: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard
140 Minutos.



Gran Torino
Março 18, 2009, 10:00 pm
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Basta assistir ao novo filme de Clint Eastwood, Gran Torino, para entender porque neste longa o cineasta passou completamente despercebido pela Academia, dentre os indicados ao Oscar. Não que o filme seja ruim, pelo contrário, mas ele foge bastante do que se costuma ver nestas listas, como é o caso de A Troca, do mesmo diretor. Mesmo sendo um drama muitas vezes pesado, o filme tem momentos cômicos em todo o seu decorrer, chegando em cenas que a platéia desaba em gargalhadas pela atuação propositalmente forçada de Clint.

Dá para se fazer um paralelo do filme com o clássico Karatê Kid, por mais estranho que isto possa parecer a princípio, mas a história dos dois filmes muitas vezes se encontra. A grande diferença é que, desta vez, o mestre é um veterano de guerra estadunidense e o aprendiz é um imigrante chinês. Walt Kowalski é um viúvo recente extremamente preconceituoso e xenófobo. Mesmo com as tentativas do padre de socialização, o homem que lutou na guerra da coréia prefere ficar sozinho em casa, bebendo cerveja apenas com a companhia de sua cadela Daisy. Enquanto isso, reclama do aumento de chineses na vizinhança.

Os problemas com os vizinhos aumentam quando Thao, um garoto confuso da casa ao lado, tenta roubar o Ford Gran Torino de Walt, a mando de uma gangue local. Sem querer, no entanto, Kowalski acaba salvando a vida do garoto, o que o torna um herói no bairro. Aos poucos, contando principalmente com a ajuda de Sue, irmã do jovem, os dois vão aprendendo a conviver e ensinando muito sobre a vida um para o outro. Tal qual Karatê Kid, o menino aprende a se tornar um homem e a se defender, e o senhor ganha companhia e um objetivo a mais na vida.

A atuação de Eastwood, apesar de muito boa, não é nem um pouco convincente aqui. Walt Kowalski é um sujeito amargurado, recluso, esperando apenas o momento de sua morte, para pagar seus muitos pecados e se juntar à sua amada esposa que acaba de falecer. Porém, o eterno caubói cria a partir disto um personagem extremamente envolvente, daqueles que o espectador irá querer como seu avô ou ainda vizinho. As caras e bocas que o ator faz, ainda, o coloca junto ao antigo Jim Carrey no hall dos grandes careteiros de Hollywood, o que deixa o filme mais leve e divertido.

Apesar de tudo isso, o tema é bastante pesado. Dentro de Walt, que se assemelha a Frankie de Menina de Ouro, há uma culpa difícil de ser esquecida. Thao, juntamente com Sue, está ameaçado por um grupo de criminosos, que querem tentar de tudo para destruir suas esperanças. O preconceito e o conservadorismo fala alto no longa, fugindo do discurso dos filmes anteriores do diretor. Assim, diante de tantos poréns, é fácil notar como, mesmo sendo bom, Gran Torino não foi indicado a nenhuma categoria no Oscar.

Gran Torino (2008, EUA)
Direção:
Clint Eastwood
Roteiro: Nick Schenk
Elenco: Clint Eastwood, Bee Vang, Ahney Her
116 Minutos



Watchmen – O Filme

Allan Moore bem que avisou. Já na década de 80, quando Watchmen foi lançado em graphic novel, o autor convenceu o cineasta Terry Gilliam a desistir da idéia de adaptar a série para os cinemas, afirmando que seria impossível. Que o longa não conseguiria pegar as nuances e ficaria superficial. Dave Gibbons, o ilustrador, nunca teve problemas com isso, tanto que entrou no projeto da Warner para a adaptação realizada por Zack Snyder, o mesmo que já havia levado para as telas a HQ 300, de Frank Miller.

A história não é mesmo algo tão simples para caber em quase três horas de filme. Watchmen é um grupo já separado de super-heróis em um universo paralelo, onde não existiu o escândalo do Watergate e onde Nixon foi capaz de fazer os EUA saírem vitoriosos na guerra do Vietnã, com a ajuda do Dr. Manhattan, o único deste grupo a ter superpoderes reais, após ser exposto a energia nuclear. Os outros, meros mortais com uniformes, acabaram sendo hostilizados pela população, que os achavam acima da lei.

Quem mais ajudava nesta visão das pessoas era o Comediante, um mascarado das antigas, ultradireitista, que não se importava em matar mulheres e crianças quando achava conveniente. Além dele e de Manhattan, havia Rorschach, Ozymandias, Coruja, e a bela Jupiter. Quando um destes heróis é misteriosamente assassinado, os outros passam a acreditar que podem estar em risco, e que a melhor forma de se salvarem é se reunirem e lutarem contra este mal desconhecido.

A história é interessantíssima. Uma completa desconstrução do super-herói americano. O iconoclasta Allan Moore, no entanto, estava certo de não querer sequer ter seu nome vinculado ao longa, ou mesmo assistir ao filme ou ao trailer. A superficialidade nas telas é imensa e a história acaba se tornando boba, hollywoodiana no pior sentido do termo. Já nos primeiros minutos, uma introdução de pouco menos de cinco minutos ao som de Bob Dylan, contando a origem dos heróis, já renderia um filme próprio.

A edição, para tentar melhorar esta questão do pouco tempo para muita informação, acaba fazendo um vai e vem que só deve confundir a maioria dos espectadores. Sem se atentar ao máximo na trama, é fácil acabar se perdendo sem perceber se aquela cena se passa no presente, 1985, no passado recente, ou mesmo em um passado distante. O elenco de quase desconhecidos consegue segurar bem seus papeis, com destaque para Jackie Earle Haley, de Pecados Íntimos, na pele de Rorschach. Mas, com tantos problemas, a falta de um nome mais conhecido só fará com que poucos se interessem pela obra.

Watchmen – O Filme (Watchmen, 2009, EUA)
Direção:
Zack Snyder
Roteiro: David Hayter, Alex Tse
Elenco: Patrick Wilson, Malin Akerman, Jackie Earle Haley
160 Minutos



O Menino da Porteira

Em 2005, muitos torceram o nariz para Dois Filhos de Francisco por ser a cinebiografia da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. Lançado o filme, o público foi avassalador, fazendo com que grande parte dos chamados formadores de opinião repensassem sua conduta e fossem ao cinema conferir. A maioria acabou confessando a qualidade da obra, que é hoje uma das mais importantes do cinema nacional atual. Em 2009, o caso parece se repetir, tomadas as devidas proporções, com O Menino da Porteira, de Jeremias Moreira.

Ao contrário do que muitos imaginam, não se trata de uma cinebiografia do cantor Daniel, seguindo os passos do filme anterior. Apenas é mais um filme sertanejo que surge, timidamente, tentando conquistar espaço em um país que teima em não se assumir como de maioria sertaneja. Jeremias não é um oportunista, tentando ganhar com o sucesso do colega Breno Silveira. Em 1977, o diretor já havia dirigido um filme de mesmo nome. Daquela vez, o protagonista também era músico e gravou a canção-tema. Agora, Sérgio Reis é substituído por Daniel no papel do peão Diogo.

O boiadeiro acaba de chegar em um vilarejo com o gado do Major Batista, o grande fazendeiro da região. Lá, ele conhece o pequeno Rodrigo, que deseja ser peão como ele, e sempre está disposto a abrir a porteira para o gado passar. Assim como é apresentado ao pai do menino, Otacílio, inimigo político de Batista e líder de um grupo de sitiantes que querem promover a justiça social naquela região. Diogo não toma partido de ninguém, quer apenas ser um homem livre, independente. A forma como os fatos se sucedem, fazem com que tenha que se colocar, mudando a sorte de toda a cidade.

Em outros tempos, o sucesso da primeira versão foi grade, levando mais de 4 milhões de pessoas aos cinemas. Hoje, o público do filme nacional é bem mais modesto. Lançado em um fim de semana que concorre com um filme de super-heróis (Watchmen) e o grande ganhador do Oscar (Quem Quer Ser um Milionário?), O Menino da Porteira pode ser ainda mais prejudicado. Porém, o espectador de um filme como estes tende a ser justamente aquele que não costuma ir ao cinema. São as pessoas do interior, que querem se ver, em vez de só ver o eixo Rio-São Paulo ou enlatados americanos.

E não é apenas a presença de Daniel que pode chamar este público. Talvez por ter mais de 30 anos, o roteiro tem muitas qualidades. Sem deixar de ser popular e sem ser panfletário, ele passa por diversas questões políticas e sociais, que são bem amarradas com a narrativa. Inspirado na música de Teddy Vieira e Luizinho, o longa abusa de elementos típicos das histórias caipiras, com alguns personagens bastante caricatos, dando leveza à história. Mesmo que Daniel não seja um primor da atuação, seu personagem se encaixa aos seus limites, dando a impressão de que a falta de naturalidade seja problema de Diogo, não dele. Com uma história de amor para completar, O Menino da Porteira tem grandes chances de ajudar a ser este o grande ano do cinema nacional, se passar por cima do preconceito.

O Menino da Porteira (2009, Brasil)
Direção:
Jeremias Moreira
Roteiro: Jeremias Moreira, Carlos Nascimbeni
Elenco: Daniel, José de Abreu, Vanessa Giácomo
90 Minutos



Quem Quer Ser um Milionário?

Cores, belas imagens, ritmo alucinante, um sofrimento agudo e a busca pelo amor verdadeiro. Elementos que, juntos, com uma direção eficiente de alguém como o inglês Danny Boyle, de Trainspotting, e em forma de um conto de fadas pós-moderno, dificilmente pode não arrebatar os corações daqueles que assistem. Assim se explicam as oito estatuetas que Quem Quer Ser um Milionário? recebeu no Oscar 2009, ao ser indicado a 10 prêmios. Campeão absoluto, o melhor filme do ano segundo a academia hollywoodiana é do tipo de filme que agrada sem muita restrição.

Na Índia, Jamal Malik se torna uma celebridade ao chegar à última pergunta do programa de televisão Quem Quer Ser um Milionário?, uma espécie de Show do Milhão. Com a chance de receber o prêmio máximo, o jovem de 18 anos é preso por suspeita de fraude. Nunca na história do programa alguém tinha chegado tão longe, e um favelado, analfabeto, não era a pessoa que eles esperavam que atingisse esse posto. Na delegacia, o garoto precisa explicar, através de sua própria história de vida, como conseguiu acertar a todas as questões.

De alguém pobre, espera que seja apenas um malandro, que descobriu uma forma de forjar as respostas e levar um dinheiro fácil. Jamal, no entanto, revela que não se interessa pelo prêmio, só está lá para tentar reencontrar sua amada Latika. Assim, é o amor que conduz e amarra o roteiro de Simon Beaufoy, baseado na obra do escritor indiano Vikas Swarup. A história pode ser um tanto simplista, mas todo conto de fadas o é. Talvez seja exatamente isso que faça o sucesso do filme. Que cause tanto encanto.

Durante a produção, e após o resultado, Quem Quer Ser um Milionário? sempre foi comparado ao brasileiro Cidade de Deus. A fotografia, a edição, questões do personagem se assemelham nos dois filmes. O nacional se consolidou como uma obra de grande importância, uma referência mundial. O inglês, atingiu um sucesso mais imediato. A direção de um estrangeiro ajudou a fazer do filme muito mais do que uma análise social, como é o caso do Cidade de Deus. A Índia pobre e problemática aparece no longa, mas isto serve apenas como elemento narrativo, e não fica em primeiro plano.

Não apenas o Oscar. Quem Quer Ser um Milionário? ganhou a maioria dos prêmios ao qual concorreu, se consolidando como realmente o melhor filme de 2009, mesmo que em alguns anos sua importância acabe sendo bem menor do que a de uma obra como Cidade de Deus, que não alcançou tantos méritos. Mas, em uma época de crise, o filme cai perfeitamente. Ele se torna uma celebração da vida, uma prova, mesmo que na ficção, de que é vivendo que se aprende e de que é bobagem correr atrás dos bens materiais, o importante é a felicidade e o amor.

Quem Quer Ser um Milionário?
(Slumdog Millionaire, 2008, Inglaterra/França)

Direção:
Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy
Elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Irrfan Khan
120 Minutos



Rio Congelado
Fevereiro 19, 2009, 10:00 pm
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Há em Rio Congelado, filme de estréia de Courtney Hunt, uma grande semelhança com o nacional Linha de Passe, último filme de Walter Salles Jr.. Em ambos, uma mãe solteira têm que ser forte para cuidar da família apesar do ambiente ríspido e das adversidades financeiras. Se no brasileiro, parte das dificuldades vinham do fato de Cleuza viver com seus quatro filhos na periferia paulistana, no estadunidense é frio próximo à fronteira com o Canadá que atrapalha ainda mais a sobrevivência de Ray e seus dois filhos.

Abandonada recentemente pelo marido, Ray precisa urgentemente de uma grande quantidade de dinheiro para pagar a prestação da casa que compraram juntos, sob o risco de perder a propriedade. O valor, que já estava guardado, foi roubado pelo pai de seus filhos, que sumiu sem dizer para onde. Em uma tentativa de encontrar o ex-companheiro, ela conhece Lila, uma índia Mohawk que trabalha como coiote, ajudando estrangeiros a entrarem ilegalmente no país através de terras da reserva. Desesperada para dar sustento aos filhos, Ray aceita ajudá-la.

Em ambos os filmes, as dificuldades fazem com que a família caminhe em uma corda bamba entre o legal e o ilegal, pendendo ora para cada lado. Não apenas a mãe de Rio Congelado flerta com a criminalidade, mas também o filho mais velho, TJ, na ingênua tentativa de dar ao irmão um simples presente de natal. Enquanto isso, as duas mães, Ray e Lila, complementam seus salários atravessando o rio do título, com o porta-malas ocupados por chineses ou paquistaneses. Não há a má intenção em nenhum dos casos, de qualquer filme, apenas uma questão de necessidade, de sobrevivência.

Nas duas histórias, o que há de sobra é a garra da mãe, que precisa enfrentar os problemas sem deixar o peso da maternidade derrubá-las. Cleuza rendeu à Sandra Corveloni o prêmio de melhor atriz em Cannes, Ray teve como resultado uma indicação ao Oscar para Melissa Leo. Ambas desconhecidas pelo grande público, mas merecidamente reconhecidas pelo grande trabalho. A impressionante atuação da mãe que só quer criar seus filhos é de uma pungência que chega a apertar o peito na simples lembrança da história.

Courtney Hunt escreve e dirige seu filme de estréia com tanta emoção que não é de se admirar que já conquiste uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original. E, ao contrário de outros casos, desta vez se pode garantir que seu nome na lista é mérito próprio, e não por ter trabalhado antes em clubes de stripper ou algo do tipo. O filme está longe da perfeição. A projeção digital chega a incomodar por vezes, e certos clichês quebram momentos de profunda emoção. Mas, esses momentos existem e batem forte, o que fazem de Rio Congelado um pequeno grande filme.

Rio Congelado (Frozen River, 2008, EUA)
Direção:
Courtney Hunt
Roteiro: Courtney Hunt
Elenco: Melissa Leo, Misty Upham, Charlie McDermott
97 Minutos