Pina

Por não ter palavras para expressar aquilo que pensou e sentiu, foi com a arte, mais precisamente com a dança, que a coreógrafa alemã Pina Bausch se expressou para milhares de pessoas. Na ausência de palavras de sua homenageada, o também alemão Wim Wenders, um dos maiores nomes do cinema atual, também se apropriou da dança para mostrar a seu público, ainda mais amplo, quem é esta mulher.

A partir de alguns poucos espetáculos de Pina, Wenders coloca na tela a emoção que até então estava restrita aos palcos onde se apresentavam a sua companhia de dança. Com trechos das peças e cenas dos bastidores, o espectador leigo ou mesmo aquele já acostumado com o mundo da dança, penetra neste universo e conhece melhor o que Pina sentiu, o que ela colocou de sua alma naquelas coreografias.

Se foi opção de Pina não usar as palavras, Wenders não precisou ser fiel a isto. Assim, as usa para complementar aquilo que vemos na tela, dando voz àqueles que compartilharam dos últimos anos de vida da coreógrafa morta em 2009, seus bailarinos, da Tanztheater Wuppertal Pina Bausch. E é pelas palavras deles que o público junta as peças e pode entende melhor o que significa cada cena que viu, percebendo logo que não é mesmo necessário palavras quando se quer entrar no coração de alguém.

Para colocar o público mais próximo de Pina, Wim Wenders opta pelo 3D. A tecnologia, que tem nos filmes de ação estadunidenses seu uso à exaustão, ganha neste documentário alemão de arte seu melhor uso. Enquanto Hollywood errou ao trazer cenários e personagens para perto do público, Wenders leva o espectador para dentro de sua obra. Logo que começa Pina, a sala de cinema se transforma em um auditório, com um grande palco onde serão apresentadas as danças coreografadas por Pina. A tela não está mais ali. Público e filme é uma coisa só.

Não foi sozinho que Wenders desenhou a produção do filme, mas com a ajuda da própria Pina, sua amiga desde 1985 quando o diretor assistiu a Café Müller, um de seus espetáculos mais conhecidos. Pouco antes do início das filmagens, no entanto, a coreógrafa faleceu apenas cinco dias após diagnosticar um câncer. Na falta de sua parceira para a obra, Wim Wenders transformou o que seria apenas um simples documentário em uma ode à Pina Bausch.

 

Assista ao trailer:

Pina (2011, Alemanha)
Direção:
Wim Wenders
Roteiro: Wim Wenders
103 Minutos

Drive

Na semana após a premiação do Oscar 2012, o público brasileiro tem a chance de notar uma das grandes injustiças cometidas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA. Do dinamarquês Nicolas Winding Refn, Drive consegue fazer uma mistura ideal entre ação e romance, sabendo acelerar e frear nos momentos certos. No elenco, duas grandes estrelas da nova geração do cinema de Hollywood, a bela Carey Mulligan e Ryan Gosling, em mais um de seus impressionantes papeis.

Ryan vive um misterioso motorista, dublê de filmes de ação em Los Angeles. Além de seu trabalho no cinema, ele também aproveita o seu fascínio pelos carros para ganhar a vida em uma oficina mecânica, e usa as suas habilidades no volante como piloto de fuga de aluguel para os bandidos da região. Com a certeza de que pode fugir de qualquer problema quando está dentro de um veículo, ele consegue lidar bem com seus três ofícios, até que conhece sua nova vizinha, Irene, vivida por Carey.

Casada com um presidiário que está prestes a ser liberado da cadeia, Irene vive sozinha com seu filho e acaba sentindo uma atração por aquele estranho homem que se muda para o apartamento ao lado, e parece estar disposto a ajudar em tudo o que ela precisar. Quando o marido, Standart, sai da prisão, o motorista descobre que ele tem uma grande dívida com alguns bandidos, o que coloca em risco a vida da mulher que aprendeu a gostar. Ele, então, decide se unir a seu adversário para resolver mais este problema.

Conhecido do grande público desde que foi indicado ao Oscar por Half Nelson, Gosling mostra a cada filme sua maestria na arte de interpretar. Em Drive, ele mais uma vez se supera na pele deste homem sensível e ao mesmo tempo bruto. Em uma das cenas principais do filme, o protagonista dá o primeiro beijo na amada Irene para, segundos depois, cometer um frio assassinato. Ambas as ações com a mesma intensidade e emoção, resumindo o que se pode sentir ao assistir à película.

Com claras referências ao cinema independente dos anos 70, Drive traz um herói marginal. Um homem bom, carinhoso, respeitoso, mas sem qualquer pudor em passar por cima da lei. Mais uma vez o uso da violência como expressão máxima do amor, fórmula que já deu bons resultados em muitas obras, como Clube da Luta, se mostra eficaz. É o herói perdido entre o brutal e a modernidade, reprimido, que não sabe se expressar de outra forma se não pela força ou pela velocidade, neste caso.

Talvez seja justamente por este caráter que a atuação de Ryan tenha sido negligenciada pela Academia. Tudo rememora a algo já visto, mesmo que com uma história nova. O personagem desaparece sem dificuldade por mais que emocione. Ao contrário, por exemplo, do George Valentim de Jean Dujardin, em O Artista, que quer sempre aparecer, este de Drive prefere se manter recluso, escondido em um submundo onde ele sabe estar seguro. É só uma pena que o filme tenha sido tão fiel aos seus princípios que também tenha ficado oculto entre tantos lançamentos inferiores.

 

Assista ao trailer:

Drive (2011, EUA)
Direção:
Nicolas Winding Refn
Roteiro: Hossein Amini
Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan e Albert Brooks
100 Minutos

Amanhã Nunca Mais

Em seu primeiro longa-metragem, Amanhã Nunca Mais, Tadeu Jungle já deixou clara a sua opção por fazer uma crítica à sociedade brasileira, principalmente a anestesiada classe média representada na tela. Nenhum problema nesta crítica, o que já começa a desqualificar a obra é a forma como ela é colocada. Se o público não percebê-la no filme, por exemplo, fica sabendo desta intenção até mesmo no material de divulgação, que já mostra a tendência da obra de apresentar algo mastigado, que até por isso fica sem sabor para quem tenta consumir.

Na história, Lázaro Ramos é o anestesista Walter, um homem bom que sofre por não conseguir dizer não a ninguém, mesmo que saiba que terá problemas com isto. Em um dos poucos momentos de lazer em família, durante um fim de semana na praia, ele acaba cedendo ao pedido do chefe e volta para o trabalho em São Paulo, provocando o desgosto da mulher (Fernanda Machado) e da filha. Desconfiado de que pode ser trocado por outro a qualquer momento, Walter tenta agradar a esposa, mas não sabe como pode fazer isto.

No aniversário de sua filha, então, ele tem a ideia de ajudar com a preparação da festa, mesmo estando de serviço. Após convencer a mulher de que é capaz de cumprir a simples missão de levar o bolo é que ele percebe que nada será tão fácil. Trabalhando em um hospital público e morando em uma caótica metrópole, Walter passa por diversos contratempos até conseguir enfim chegar em casa com a encomenda. Como ele tem esta dificuldade em negar qualquer pedido, tudo fica ainda mais difícil.

Mesmo que o roteiro tenha seus méritos, mantendo a história coesa apesar de passar por diversas situações diferentes em pequenos intervalos de tempo, sofre por uma certa fraqueza. A fórmula acaba ficando gasta muito rapidamente, tornando a tarefa da busca do bolo quase que mais maçante para o espectador do que para o próprio Walter. Talvez a obra funcionasse melhor como um curta-metragem, se tornando por vezes bastante arrastada. Mesmo as boas atuações não salvam o público de momentos de tédio diante da tela.

O problema maior da fita, no entanto, é a apresentação. Amanhã Nunca Mais começa mal. Em uma exibição na televisão, provavelmente os primeiros minutos sirvam para procurar algo melhor em outra emissora. No cinema, apenas para pensamentos de arrependimento. Artista multimídia, Tadeu não resistiu à tentação de criar uma espécie de clipe, que no início do longa irrita quem está assistindo, em vez de fidelizar o público. Se tudo melhora depois, infelizmente o espectador já está de má vontade com o restante da obra.

A crítica a um Brasil anestesiado, contada sob a ótica de um anestesista, parece um tanto fraca. As explicações são mais visíveis do que a opinião dentro do filme. Fica assim a impressão de que ou não foi possível passar no longa a mensagem que se desejava ou, pior, acreditou-se que o público não seria capaz de compreendê-la. Em geral, então, Amanhã Nunca Mais acaba sendo um filme de poucos atrativos e fácil de ser esquecido.

Assista ao trailer:

Amanhã Nunca Mais (2011, Brasil)
Direção:
Tadeu Jungle
Roteiro: Marcelo Muller, Mauricio Arruda e Tadeu Jungle
Elenco: Lázaro Ramos, Fernanda Machado e Maria Luísa Mendonça
74 Minutos

A Pele que Habito (La Piel que Habito)

As cores de Almodóvar já não são mais as mesmas. Se em Abraços Partidos o diretor espanhol retomou alguns de seus temas e cenários da juventude, agora com o novo A Pele que Habito o cineasta parece romper de vez com o seu cinema alegre e multi-colorido e cria um ambiente clean apesar de sombrio, principalmente pela grande atuação de Antonio Banderas, que deixa de lado o bom-mocismo para encarnar um personagem que chega a assustar pela sua obsessão e seu ar quase de um psicopata. Se desta vez a história parece bizarra até mesmo para Almodóvar, não se pode pensar em outro diretor para ela.

O Dr. Robert, um importante cirurgião espanhol, vivido por Banderas, sofre há anos com a morte de sua mulher após um acidente de carro, em que ela teve seu corpo carbonizado. O médico, então, fica obcecado com a ideia de criar uma pele artificial que possa suportar até mesmo o fogo. Afastado de seu trabalho tradicional, Robert vive em uma mansão equipada com um moderno laboratório e centro cirúrgico, onde ele pode fazer seus experimentos. Para isso, no entanto, ele precisa de uma cobaia humana, a bela Vera (Elena Anaya), a quem ele mantém presa.

Trancafiada todo o dia no quarto, a moça tem poucas esperanças de retomar sua vida normal longe dali. Os únicos contatos que tem é com o médico e com Marília (Marisa Paredes), a governanta da casa. Quando o filho de Marília visita o local, Vera tem a chance de saber mais sobre Robert, e percebe que talvez o médico esteja se apaixonando por ela, já que ela é muito parecida com a falecida mulher do doutor. Assim, ela começa a acreditar que ainda pode sair daquele quarto. Porém, o que passou na casa nunca irá sair de sua memória, e mudará a sua vida para sempre.

Se o óbvio seria associar A Pele que Habito com O Médico e o Monstro, Pedro Almodóvar mostra sua maestria ao fazer com que o seu doutor seja, ele próprio, o bem e mal encarnados em uma só personalidade. Robert não precisa de qualquer transformação, ele é humano, com o que de bom e ruim isto possa acarretar. Mais do que à história de Jekyll e Hyde, no entanto, o filme remete a OldBoy, premiado longa sul-coreano de 2003 sobre a vingança, tema que tem importante papel também desta vez.

A obsessão interpretada por Banderas não é sem razão. Almodóvar tem sempre uma explicação para os desvios de seus personagens. No decorrer da história, o espectador percebe como a vingança move as ações não apenas do Dr. Robert, mas de muitos dentro da trama. Assim como OldBoy, também, temos um personagem que é sequestrado e mantido refém de uma forma bastante estranha. Vera não está ali por acaso, está pagando por uma ação do passado, algo que nunca imaginou que pudesse causar tamanha dor a alguém, a ponto desta pessoa lhe fazer passar por tudo o que ela acaba passando.

Perturbador em muitos momentos, A Pele que Habito pode ser definido quase como um terror psicológico, mas de um tipo que só poderia ser filmado por Almodóvar. O diretor, aliás, mostra sua genialidade em deixar o espectador imaginar uma coisa, quando o que ele quer dizer é algo bem diferente, como ele faz com o próprio título da obra, ou na escolha do elenco. Se perdeu o colorido de seus primeiros filmes, o espanhol deixa claro que evoluiu ainda mais em seu trabalho, e que seu estilo pode render grandes obras mesmo que sem a extravagância que lhe deu sua fama.

Assista ao trailer:

A Pele que Habito (La piel que habito, 2011, Espanha)
Direção:
Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya e Marisa Paredes
117 Minutos

10 Filmes Para Assistir Depois de Morrer

No dia de Finados todos estão relembrando seus entes queridos que já se foram, mas poucos pensam em algo importante: e quando chegar a sua vez? Temos na internet e nas livrarias listas e listas do que fazer antes de morrer. Mas e depois? Vai se acomodar? É preciso também começar a se planejar para os programas pós-vida.

Pensando nesta delicada questão, o VerdadeAlternativa prepara uma lista de dez filmes para assistir depois de morrer. Não que você não possa vê-los durante a vida. Muitos deles até são recomendados ver antes também, mas o importante é que você leve o DVD em seu caixão para se preparar para o outro lado.

1. A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra (1946)

Ok, você morreu, a vida acabou, mas ainda fica com aquela sensação incômoda de que nada valeu a pena. Este clássico do cinema mostra como seria a vida de George Bailey (James Stewart) se ele nunca tivesse nascido. Quem sabe você se inspire, encontre um anjo como o que o personagem encontrou, e não busque saber também como seria a sua. Bem, dependendo do caso pode não ser uma boa ideia.

2. O Céu Pode Esperar, de Warren Beatty (1978)

Está certo que o título é ótimo para quem está a beira da morte, mas nem tanto para quem já passou desta para melhor. Mesmo assim, o filme escrito, dirigido e estrelado por Warren Beatty tem algo a ensinar. E se por acaso a morte se enganou e você foi na hora errada? Pior ainda, se você tem a chance de voltar para terminar sua missão e seu corpo já tiver sido cremado. Bem, nada mal fazer como Beatty e voltar na pele de um milionário, não?

3. Ghost – Do Outro Lado da Vida, de Jerry Zucker (1990)

A questão é se você foi mesmo na hora certa para o beleléu, mas deixou aqui na Terra um grande amor. Foi o que aconteceu com Sam Wheat (Patrick Swayze), que pra piorar vê a sua amada Molly (Demi Moore) sendo seduzida por um ex-melhor amigo. Se isto acontecer também com você, não precisa maldizer a hora da sua morte. Basta procurar a primeira vigarista que finge falar com os mortos. Sempre dá certo! (ao menos neste filme deu)

4. Amor Além da Vida, de Vincent Ward (1998)

Mesmo que você não consiga seguir os conselhos de Swayze, pode fazer o que fez Chris Nielsen (Robin Williams) aqui. Ainda amando muito a sua mulher, mesmo depois de morto, ele não desistiu dela. Quando sabe que Annie (Annabella Sciorra) também está morta, o personagem decide buscar pelo céu e o inferno por sua amada, enfrentando qualquer obstáculo, por mais tenebroso que possa ser. Se ele pode, não deve ser tão difícil.

5. Desconstruindo Harry, de Woody Allen (1997)

Bem, não estou aqui querendo dizer que você não foi uma pessoa correta e idônea durante a sua vida, longe de mim, mas você há de concordar comigo que há a chance de você ir direto para o inferno. Aqui Woody Allen mostra que não há tanto com o que se preocupar, já que o Diabo não é alguém assim tão difícil. Dá até para manter uma discussão filosófica com o Coisa-Ruim se você quiser, principalmente se for por uma mulher.

6. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957)

Nem todo mundo tem o azar de morrer já assim de primeira. Há aqueles que podem negociar com a morte, como no clássico filme sueco. Sim, você deve estar se perguntando se aqui não era para ser uma lista apenas de filmes para assistir depois de morrer. Você está certo, mas se Antonius Block (Max von Sydow) conseguiu jogar um xadrês com a morte para adiar a terrível hora, é sinal de que a temida senhora não é assim tão difícil de se lidar.

7. Bill & Ted – Dois Loucos no Tempo, de Peter Hewitt (1991)

Uma prova de que a morte não é tão terrível está aqui. Quando os roqueiros malucos Bill (Alex Winter) e Ted (Keanu Reeves) morrem após um plano macabro de um vilão do futuro, eles seguem os ensinamentos de Sydow, e ganham uma aliada em sua busca para voltar à vida, a própria morte. Não apenas ela, mas os dois entram em contato também com ELE, o Todo Poderoso. Após assistir a esse filme, você percebe que nem tudo está perdido depois de sua ida.

8. Dylan Dog e as Criaturas da Noite, de Kevin Munroe (2010)

Um assunto que não pode ser ignorado nesta lista é a possibilidade de você se tornar um morto-vivo. Existem muitos filmes que tratam deste tema, mas poucos podem ser úteis, já que a maioria o deixaria deprimido, ao ver que lhe resta apenas vagar pelas ruas e levar um tiro de espingarda. Aqui, porém, há um verdadeiro guia de sobrevivência para zumbis, que lhe mostra como se alimentar, tomar banho e até mesmo o que fazer se, por acaso, partes de seu corpo cairem.

9. Coisas Para se Fazer em Denver Quando Você Está Morto, de Gary Fleder (1995)

Concordo, neste filme não há nenhum grande aprendizado para quem já foi desta para uma melhor, até porque o foco está nos vivos, apesar do título, mas quem há de dizer que não dá para se refletir sobre a eternidade pós-vida em um filme com este nome? Não apenas em Denver, mas em tantos lugares do mundo, afinal não é preciso pagar passagens aéreas nem diárias de hotel quando você não mais existe. Por que não aproveitar?

10. Depois da Vida, de Hirokazu Koreeda (1998)

Caso nenhum desses filmes surtam qualquer resultado prático, a boa pedida é este longa japonês que mostra como é quando alguém morre na cultura oriental. Assistindo, você fica sabendo que todos temos que escolher o melhor momento de nossas vidas para que este seja transformado em um filme, que iremos assistir por toda a eternidade. Não é uma escolha simples, já que vamos conviver para sempre com isto. Bem, aproveite então que ainda está vivo, e crie boas opções para a escolha ser mais fácil depois.

O Palhaço

Se em Feliz Natal, Selton Mello optou por uma história mais intimista e hermética ao grande público, em seu novo filme, O Palhaço, que estreia nesta sexta, ele se esforça para se libertar deste mal, buscando um caminho que dialogue melhor com estas mesmas pessoas, de quem é ídolo. O diretor, desta vez, protagoniza o longa, sendo capaz assim de facilitar a identificação dele com o filme. Mais do que isto, o ator parece sofrer do mesmo mal de seu personagem, que vive uma crise existencial e precisa se reencontrar.

Benjamin, vivido por Selton, é um palhaço do circo Esperança, onde se apresenta ao lado de Valdemar (Paulo José), seu pai. Perfeccionista, o jovem toma para si a responsabilidade do local, mas não suporta o peso que ele mesmo tenta carregar. Enquanto o pai goza o que lhe resta da vida, ao lado de uma mulher bem mais nova, o filho não sabe aproveitar os pequenos momentos de felicidade que lhe aparecem.

Deprimido, o palhaço decide, então, abandonar o circo para descobrir qual é a sua verdadeira vocação. Se antes ele precisava se desdobrar para cuidar do bem-estar e das necessidades de cada um dos artistas, desta vez ele tem que aprender a tomar conta de si mesmo, algo que nunca lhe sobrara tempo de fazer. Sem ao menos um documento de identidade, Benjamin sai à procura de um emprego normal e de uma mulher que fique ao seu lado. Mais do que isto, ele faz uma grande busca interior, para saber quem é ele de verdade, o que nunca havia questionado antes.

Apesar de não ser incomum, a ideia de um palhaço com crise de depressão parece interessante para um filme, e causa certa curiosidade saber o que uma figura conhecida como Selton Mello pode fazer com este tema. Mesmo com muitos momentos engraçados e emocionantes ao longo da trama, no entanto, o resultado final é lento e maçante. A história se arrasta e parece não chegar a qualquer lugar que já não tenha estado. O filme, aliás, sofre do mesmo mal de Muita Calma Nesta Hora, que se apoia em esquetes de humor, com participações especiais, enfraquecendo o roteiro.

O Palhaço, no entanto, é superior à comédia de Felipe Joffily. Com atuações esplêndidas, principalmente pelas figuras do veterano Paulo José e da novata Larissa Manoela, que não se intimida em roubar a cena em diversos momentos no papel da pequena Guilhermina, o drama ainda conta com uma bela fotografia e uma inspirada trilha musical, que resgata canções bregas ao mesmo tempo em que apresenta novidades que se encaixam com maestria nas cenas. A escolha dos cenários ainda mostra um Brasil pouco conhecido, do interior de Minas Gerais, tornando o filme ainda mais interessante visualmente.

Uma das cidades filmadas, Passos, é a terra natal do agora diretor Selton Mello, o que deixa ainda mais claro o caráter auto-referente do filme. Se o personagem de Paulo José sabe com clareza que “o rato come queijo, o gato bebe leite e eu sou um palhaço”, tanto Benjamin, quanto o próprio Selton, parecem ainda não ter certeza do seu lugar. Sucesso de bilheteria em obras como A Mulher Invisível, Selton parece tentar negar seu talento para trabalhos mais populares, tentando criar algo mais intimista, mais artístico, sem com isso agradar nem quem prefere um cinema autoral, nem o consumidor do blockbuster. O nome do circo, no entanto, dá um sinal de que nada está perdido para a nova carreira de Mello, e O Palhaço, com seus problemas, já indica que o cineasta está mesmo no caminho certo.

 

Assista ao trailer:

O Palhaço (2011, Brasil)
Direção:
Selton Mello
Roteiro: Selton Mello
Elenco: Selton Mello, Paulo José e Larissa Manoela
90 Minutos

Os Três Mosqueteiros (The Three Musketeers)

Apenas com um pouco de atenção à ficha técnica da nova versão de Os Três Mosqueteiros já é possível saber o que esperar deste novo filme de Paul W.S. Anderson. A história de D’Artagnan e o trio de herois, escrita originalmente por Alexandre Dumas, já é de alguma forma conhecida pelo grande público, o que diferencia aqui é como foi feita a adaptação para esta obra em terceira dimensão pelo cineasta conhecido por longas como Alien vs. Predador e Resident Evil.

No filme, somos apresentados aos já cansados Athos, Porthos e Aramis, que não tem mais um grande ideal para defender como no tempo em que eram idolatrados como os mosqueteiros do rei da França. Após serem enganados pela Milady de Winter (Milla Jovovich), em uma armação de Buckingham (Orlando Bloom), o trio tem ainda menos motivos para tentar reviver os seus tempos de herois. Preferem então viver uma boa vida, regada principalmente a vinho.

Tudo muda com a chegada do jovem e impetuoso D’Artagnan. Sem medo e com uma grande habilidade para arrumar problemas, o garoto tem como maior objetivo se tornar um novo mosqueteiro, como seu pai já foi um dia. Sua chegada em Paris coincide com um plano do Cardeal Richelieu (Christoph Waltz) para tomar o trono da França. Com o apelo da Rainha, que percebe que corre perigo, os três mosqueteiros agora têm algo que os mova, em uma missão que contam com D’Artagnan a seu lado pela primeira vez.

Pelo diretor e pelo tema, já é possível saber que se trata de um filme com muita ação e efeitos especiais. Ainda a presença de sua mulher, Milla Jovovich, no elenco, garante que o longa terá muitos momentos de bastante sensualidade. Em uma das cenas, em que Milady pratica um de seus maestrais roubos contra a Rainha, é difícil não fazer qualquer comparação com a atuação de Catherine Zeta-Jones em Armadilha. Mais de dez anos depois, Milla repete a cena interpretada pela atriz inglesa com quase o mesmo nível de sensualidade, mas uma dose a mais de adrenalina.

Não apenas a presença de Paul e sua mulher Milla que deixa subentendido o que se esperar do filme. Há também a curiosa constatação de que os vilões são atores muito mais conhecidos dos que os que fazem o quarteto de protagonistas. Além de Jovovich, os herois ainda têm que enfrentar gente como Orlando Bloom, Mads Mikkelsen e Christoph Waltz, que mantém o nível do longa se não alto, em uma boa média, com boas atuações e o carisma necessário para segurar a atenção do espectador. Bloom, ainda, deixa óbvia a opção de Anderson em pegar emprestado um pouco do universo de um outro sucesso das telas, a série Piratas do Caribe.

Claro que uma cópia nunca tem o mesmo sabor do original, mas isto não significa que Os Três Mosqueteiros seja um grande desperdício. O filme entrega ao espectador exatamente o que se propõe, um longa de ação, baseado em uma história clássica, com o poder de sedução de uma bela atriz e a presença de grandes atores já reconhecidos como bons vilões. Porém, não vai além disso. Quem quiser ter uma diversão rasa, encontra um bom entretenimento, e ainda tem a expectativa de, logo mais, poder ver nas telas a sua continuação, o que não deve demorar a chegar.

Assista ao trailer:

Os Três Mosqueteiros (The Three Musketeers, 2011, EUA/Inglaterra/Alemanha/França)
Direção:
Paul W.S. Anderson
Roteiro: Alex Litvak e Andrew Davies
Elenco: Milla Jovovich, Orlando Bloom e Christoph Waltz
110 Minutos

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