O Cinema Circense de Fellini

Numa madrugada, de sua cama, um garotinho de oito ou nove anos escuta um barulho vindo da rua. Ele olha pela janela e vê, inflando na frente de sua casa, uma estranha estrutura, uma construção que não conhecia. Imaginou que fosse algum barco, ou qualquer coisa do mar. Na manhã seguinte, eufórico e curioso, pergunta à mãe sobre a novidade. “É o circo. Se você não for bom, eu digo a esses ciganos pra te levarem com eles”, diz ela. Assim começa o filme Os Palhaços, de Federico Fellini, numa cena em que o cineasta italiano conta como se deparou pela primeira vez com esse inusitado elemento que iria fazer parte de sua vida. “Da primeira vez que entrei numa lona de circo senti essa embriaguez, essa comoção, essa exaltação, a sensação imediata de estar em casa, e não era nem hora do espetáculo, com o barulho das pessoas que se esmagam e a música que enche o ar de ruídos ensurdecedores; não, era de manhã cedo”, disse Fellini em seu livro Fazer um Filme.

Para ele o cinema sempre foi uma espécie de circo, e este o precursor ideal de toda forma de espetáculo. Tanto o circo quanto o cinema têm seus “artistas extravagantes, operários musculosos, técnicos, especialistas estranhos, mulheres bonitas a ponto de nos fazer desmaiar, costureiros, cabeleireiros, gente que vem de todos os cantos do mundo e que se entende numa babel de línguas”, como cita no livro. Fellini já confessou que não é grande entendedor do circo, assistiu a poucos espetáculos, porém o circo sempre esteve nele. Assim ele foi quem melhor representou este universo no cinema, ao lado de Charles Chaplin – artista que começou sua carreira no circo, foi um ator-palhaço e, entre outros, dirigiu O Circo.

Seu primeiro filme de sucesso, de 1954, Oscar de melhor filme estrangeiro em 1956, A Estrada da Vida, foi também o primeiro filme dedicado à sua mulher, Giulietta Masina, que interpreta a protagonista Gelsomina. Vendida pela própria mãe a Zampano, um artista mambembe interpretado por Anthony Quinn, Gelsomina é uma pobre e ingênua moça que passa a apresentar os shows de seu inesperado parceiro nas praças de povoados e de pequenas cidades. Uma interpretação simplista, com graça em seus gestos mínimos, como um palhaço, que não precisa de palavras para indicar ao público seus sentimentos, faz de Giulietta o grande charme desse filme. “É uma atriz-palhaço, um autêntico palhaço” dizia onde e quando Fellini sobre sua esposa. “O talento de palhaço de um ator, a meu ver, é o dom mais precioso, o sinal de uma vocação aristocrática para a arte cênica”.

Gelsomina se assemelha muito a Cabíria, outra personagem interpretada por Giuletta Masina, que nasceu no filme Abismo de um Sonho, de 1951. O papel era pequeno, mas em 1957 ganhou um filme próprio, Noites de Cabíria. Assim como Gelsomina, Cabíria também faz o tipo ingênua, sonhadora, com um olhar pueril, numa interpretação também inspirada em palhaços, onde não é preciso dizer pra se fazer entender. Cabíria é uma prostituta da periferia de Roma que sonha em sair dessa vida e encontrar um homem que a faça feliz, mas sua inocência faz com que seja facilmente enganada pelos homens que encontra. Chega até a achar que o homem que a jogou no mar e fugiu com seu dinheiro, no início do filme, a amava. Somente com a ajuda de uma amiga, Cabíria se dá conta de que seu amado não sumiu por ter ido buscar ajuda, mas que tentou matá-la e fugiu para não ser preso.

Fellini nos diz que tanto Gelsomina quanto Cabíria, assim como os palhaços, são seres assexuados. Elas são augustos, palhaços-crianças, não têm maldade. Os palhaços são originalmente divididos entre os clowns brancos e os augustos. Os clowns brancos são sérios, inteligentes, elegantes. Já os augustos são desbocados, bagunceiros, brincalhões. Quando Fellini não queria ver mais palhaços em seus personagens fez Os Palhaços, de 1971, dedicado a esses dois tipos, para tentar se exorcizar, como fazia sempre que se cansava de um assunto. Foi assim também que fez um filme dedicado à Roma (Roma de Fellini) e à sua vida em sua cidade natal, Rimini (Amarcord). Para não precisar mais incluir as cidades em partes de seus filmes, ele dedicou um filme inteiro a cada uma delas.

Os Palhaços, documentário feito para televisão, tenta descobrir se os palhaços estão desaparecendo. Fellini tenta mostrar nesse filme que a magia do circo ainda é possível. Passando por vários circos, entrevistando diversos palhaços, mostrando o dia-a-dia do espetáculo, reconstituindo cenas, Fellini e sua equipe, muitos deles artistas de circo, vão cruzando Roma em busca de uma resposta. Chegam a se deparar com um palhaço que lhes diz: “Por que fazer um filme sobre palhaços? O mundo do circo já não existe. Todos os verdadeiros palhaços desapareceram. O circo não tem nenhum significado na sociedade atual”. Mas, logo, um antigo palhaço lhe dá uma possível resposta à sua dúvida: “Os palhaços não desapareceram, as pessoas que não sabem mais rir”.

Publicado originalmente no Esquinas de SP, jornal-laboratório do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero
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