Arquivo para novembro \30\UTC 2006

Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol – Richard Linklater

Há muitos anos ouço falar do filme Antes do Amanhecer, e há outros tantos, ouço de sua continuação Antes do Pôr-do-Sol. Nunca tinha tido oportunidade, ou talvez interesse, de assistir a nenhum dos dois, mas, ao saber que se tratavam de filmes de Richard Linklater resolvi me esforçar a vê-los.

A começar, não consigo lembrar de nenhum caso de continuações que se casam tão perfeitamente com o filme original do que neste. Claro que existem tantas continuações bem sucedidas na história do cinema, mas acredito que nesse caso é diferente. Antes do Amanhecer, de 1995, mostra o encontro entre a francesa Celine (Julie Delpy) e o americano Jesse (Ethan Hawke), num trem onde ele a convence a, ao invés de seguir rumo a Paris, descer com ele, um até então desconhecido, em Viena e o acompanhar até seu vôo partir na manhã seguinte. Já Antes do Pôr-do-Sol, de 2004, narra o reencontro dos dois, em Paris, nove anos mais tarde.

Linklater eu conhecia apenas através do incrível Waking Life, uma diferente animação que trata de questões existenciais a respeito da vida e da morte e dos sonhos e da realidade. Assim como este filme, os dois também se baseiam principalmente no dialogo para sua condução, com personagens densos, longe de estereótipos. As conversas entre Celine e Jesse tratam de relacionamentos, sexo, morte, religião, política, entre tantos outros assuntos, de uma maneira natural e envolvente.

Em Antes do Pôr-do-Sol, onde se dá o reencontro, percebemos claramente o amadurecimento dos personagens durante todos esses anos que ficamos sem saber deles. Eles não são os mesmos que eram na juventude, muita coisa mudou desde o final do outro filme, ao contrário do que fazem a maioria dos roteiristas, que preferem manter uma mesma personalidade, ignorando que seus personagens são humanos e, sendo assim, tende a mudar constantemente, ao invés de se manterem numa geladeira durante os intervalos de filmagem.

Os dois filmes, em conjunto, tratam da dificuldade dos relacionamentos humanos, de como é complexa a compreensão das pessoas, sejam conhecidas ou desconhecidas e de como isso pode se tornar desgastante quando, de fora, tudo parece tão simples e fácil.

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Parábola do Cágado Velho – Pepetela

Ulume e de Munakazi estão ligados pelo destino, mas nada será fácil para eles. Em dialetos africanos, os nomes dos dois quer dizer, respectivamente, homem e mulher, e como tantos homens e mulheres no mundo, os dois vivem uma história que acaba se confundindo com a história de sua terra. Ulume é um homem já maduro, casado com Muari, mas disposto a casar de novo com a jovem Munakazi, numa Angola onde a tradição ainda permite a poligamia para os homens.

Ao mesmo tempo, dois exércitos, os “nossos” e os “inimigos”, travam uma guerra civil em todo o país, que aos poucos vai destruindo a vida de um povo que nada tem a ver com toda essa disputa e nem mesmo sabe dizer quem são os “nossos” e quem são os “inimigos”. Só sabem que qualquer dos dois exércitos que apareça no kimbu, a tribo deles, significará roubos e mortes que deixarão marcas nas vidas desses moradores. O kimbu onde vivem ainda conserva as tradições, mas Munakazi representa a modernidade. Munakazi representa a nova mulher, forte, independente, deixando Ulume perdido entre a tradição e os novos tempos. Dentro de tantos dilemas, de tantas dificuldades, o homem só pode contar com a ajuda de um cágado velho a quem ele visita quase todos os dias, desde criança.

O cágado, o homem e a mulher, a tradição e a modernidade, a guerra e a paz, os nossos e os inimigos, nenhum deles aqui representa o protagonista desta história. O protagonista é o tempo, que sempre mostra os caminhos a seguir. Tudo está preso ao tempo.

O livro Parábola do Cágado Velho, do angolano Artur Carlos Mauricio Pestana dos Santos, conhecido como Pepetela, é um dos representantes da nova literatura de língua portuguesa que desperta no continente africano. Junto a Pepetela, temos o também angolano José Eduardo Agualusa, o português criado em Angola, José Luandino Vieira e o moçambicano Mia Couto, que juntos, cada vez mais, fazem com que essa literatura luso-africana conquiste espaço onde a cultura africana pouco tem de representatividade.

Sobre o livro, Pepetela nos diz que ele “deve ser lido e esquecido logo que fechado. Para que não desperte os maus espíritos da intolerância e da loucura. Os mais velhos sabem, não devemos relembrar aquilo que nunca aconteceu”.

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