Arquivo para abril \24\UTC 2007

Por um Cinema Sem Limite

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Um dos fundadores do Cinema Marginal, com O Bandido da Luz Vermelha, de 1969, o cineasta catarinense Rogério Sganzerla pode ser considerado um dos mais importantes do país, mesmo não tendo uma filmografia ampla e nem mesmo popular. Durante as décadas de 60 e 80 o autor, morto em 2004, escreveu textos que foram mais tarde reunidos e organizados formando o livro Por um Cinema sem Limite, reeditado em 2001 pela Azougue Editorial.

Na obra, Sganzerla traça sua teoria sobre o cinema, que consiste em separá-lo em dois: o cinema tradicional e o cinema moderno, do qual faria parte. Apesar dos artigos terem sido escritos em épocas diferentes e não estarem em uma ordem cronológica, o tema do livro é bem definido – diferente da maioria das coletâneas – sobre essa dicotomia entre o tradicional e o moderno. O discípulo do americano Orson Welles e do francês Jean-Luc Godard não economiza palavras em defender o seu estilo de cinema, que o faria fundar mo meio tempo, junto com Júlio Bressane, a corrente que se oporia ao Cinema Novo.

O tradicional, para Rogério, também chamado de Cinema da Alma, seria aquele cinema que se preocupa com os conflitos internos dos personagens, com filmes mais psicológicos – ou psicanalíticos – e filosóficos, como as obras do sueco Ingmar Bergman. Já o moderno, ou Cinema do Corpo, seria o filme “menos pretensioso”, que não quer mostrar os motivos do herói, apenas contar a história de uma forma mais direta, que seria o caso de Godard, ou mesmo do próprio Sganzerla.

O maior problema do livro é o radicalismo do cineasta, que insiste em deixar claro que, para ele, apenas o cinema moderno é válido, denegrindo a imagem de todos os que não seguem este padrão, inclusive diretores renomados, como o próprio Bergman. Tentando dividir o fazer filmes em dois, ele acaba de certa forma se contradizendo, quando supõe que o tradicional segue os Lumière e o moderno segue Meliès, ambos clássicos. Ainda mais quando diz que a obra maior do Cinema do Corpo é Cidadão Kane, de 1941, tornando assim equivocada a terminologia “tradicional” e “moderno”.

Apesar destes deslizes, Por um Cinema sem Limite merece alguma atenção. As teorias de Rogério Sganzerla fazem bastante sentido, independente do posicionamento em que ele se coloca diante delas. Além disso, o cineasta se propõe a fazer analises de obras e autores de grande importância, como um capitulo dedicado ao fundador da Nouvelle Vague, Godard. É inegável o conhecimento do brasileiro, tanto na sua forma de escrever, como de fazer filmes. Assim, é sempre válido buscar conhecer mais de suas obras.

Batismo de Sangue

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Depois de uma infinidade de filmes sobre a Ditadura Militar no Brasil, resta saber se faz sentido continuar lançando obras sobre o tema. Batismo de Sangue parte de uma premissa pouco conhecida, a história de frades dominicanos que foram torturados durante o regime por suas ligações com Carlos Maringhela, da ALN (Aliança Libertadora Nacional). Mas o simples fato de ser um tema não divulgado já é motivo para um novo filme sobre o assunto?

Diretor e atores têm uma opinião unanime sobre o caso, a de que se o governo não abre os arquivos da Ditadura, o cinema o tem que fazer. Há sim que produzir e revelar materiais a respeito não só desse período, mas de tantos outros da nossa história. A questão que fica, porém, é outra. Será que o cinema nacional não está sofrendo de um bloqueio criativo? Depois de surgir algum filme de relativo sucesso, seja de público ou crítica, sobre um determinado assunto, parece que brotam dezenas de projetos abordando o mesmo tema.

A Questão vem inclusive do fato de Helvécio Ratton, diretor do filme, ter feito Uma Onda no Ar, filme que se passa em uma favela mineira e que parece ser um fruto do ‘boom’ causado por Cidade de Deus. Mas, independente do fato, não é hora de julgar a qualidade criativa do diretor.

Batismo de Sangue não é isento de falhas, mas também está longe de ser ruim. A primeira metade do filme é claramente a mais fraca, chegando em alguns momentos a se temer pela qualidade total da obra, mas mais pra frente se percebe que não há tanto prejuízo. Parece que, talvez por tentar dar espaço ao personagem de Frei Betto, autor do livro que dá origem ao filme, o diretor acabou criando uma crise de identidade, em que se demora muito tempo para perceber que o protagonista de fato é Frei Tito.

O final, mesmo conhecido – já que todo o filme serve para explicar a primeira cena, em que Tito se suicida na França – consegue uma carga de emoção grande, principalmente pelo trabalho do ator Caio Blat. Intercalando cenas do religioso na França, com cenas das lembranças amargas do passado, o diretor consegue passar bem a dor do Frei e o porquê ele acabou morrendo, mesmo longe da opressão dos militares. Assim como são justificadas as polêmicas cenas de violência nas torturas, que servem somente pra explicar o porquê dos frades terem falado mais do que deviam.

Sendo um filme que apenas segue uma onda, ou um filme já pensado há tempos – Helvécio Ratton militou na luta armada na época, sendo exilado no Chile, onde se tornou cineasta –, Batismo de Sangue tem certo destaque dentre os do tema. Só resta esperar que o cinema nacional continue criando obras de qualidade com maior diversidade, sem precisar se restringir sempre a dois ou três temas específicos.

 

Leia matéria sobre o filme no Guia da Semana.

O Pequeno Príncipe

Sempre tive curiosidade pelo encanto que O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupéry, causa nas pessoas. Ouço falar tanto do livro, que cada vez mais a vontade de ler aumentava. Por não ter o hábito, não o li na época certa, na infância. Recentemente decidi que iria ler, mas ao pegá-lo e sentir que era realmente um livro infantil, aquela vergonha de adulto, sujeito sério que sou, falou mais alto e tentei Terra dos Homens, livro do autor para os mais crecidinhos. Primeira semana de aula, tanto a se ler, apesar do interesse não avancei na leitura.

Agora ressurgiu a oportunidade de, enfim, ler o tal sonho de consumo, e em poucos minutos concluí mais esta missão. Entendo agora este tal encanto que causa. O livro, mais aos adultos que às crianças, remete a uma ingenuidade rara, que só se encontra nos mais novos. Quando a gente cresce acaba se preocupando demais com coisas inúteis e não percebemos que existe coisas muito mais importantes a se fazer, como por exemplo, olhar mais para as pessoas.

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“Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas”, diz a raposa do livro. Acho que hoje em dia isto pouco importa para a maioria. Parece muito fácil cativar e depois abandonar, e assim os corações parecem cada vez mais duros por terem sido deixados de lado. Há uma grande dificuldade naquilo que seria tão simples às crianças: manter relações independente de qualquer ideologia, gostos, livre de qualquer tipo de preconceito.

Ou não. Hoje em dia é raro ver crianças sendo crianças. Elas estão preocupadas demais em serem sérios, ganhando seu sustento, seja rebolando em algum programa dominical ou vendendo balas nos cruzamentos. Acho que mesmo as crianças precisam dessa ingenuidade que aparece no Pequeno Príncipe. Como diria Tom Zé, “ah meu Deus do céu, vá ser sério assim no inferno!”.

Me sinto aqui um pouco como um simples reprodutor de clichês, mas talvez seja um pouco mais que isso – e espero que sim. Em determinado momento, a mesma raposa, sábia raposa, disse que “o essencial é invisível aos olhos”. Acho que é preciso deixar de enxergar a vida um pouco com os olhos e passar a prestar mais atenção às coisas. Vamos ver se é tão fácil lidar com isso, afinal “sou um pouco como as pessoas grandes. Acho que envelheci”.

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