Por um Cinema Sem Limite

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Um dos fundadores do Cinema Marginal, com O Bandido da Luz Vermelha, de 1969, o cineasta catarinense Rogério Sganzerla pode ser considerado um dos mais importantes do país, mesmo não tendo uma filmografia ampla e nem mesmo popular. Durante as décadas de 60 e 80 o autor, morto em 2004, escreveu textos que foram mais tarde reunidos e organizados formando o livro Por um Cinema sem Limite, reeditado em 2001 pela Azougue Editorial.

Na obra, Sganzerla traça sua teoria sobre o cinema, que consiste em separá-lo em dois: o cinema tradicional e o cinema moderno, do qual faria parte. Apesar dos artigos terem sido escritos em épocas diferentes e não estarem em uma ordem cronológica, o tema do livro é bem definido – diferente da maioria das coletâneas – sobre essa dicotomia entre o tradicional e o moderno. O discípulo do americano Orson Welles e do francês Jean-Luc Godard não economiza palavras em defender o seu estilo de cinema, que o faria fundar mo meio tempo, junto com Júlio Bressane, a corrente que se oporia ao Cinema Novo.

O tradicional, para Rogério, também chamado de Cinema da Alma, seria aquele cinema que se preocupa com os conflitos internos dos personagens, com filmes mais psicológicos – ou psicanalíticos – e filosóficos, como as obras do sueco Ingmar Bergman. Já o moderno, ou Cinema do Corpo, seria o filme “menos pretensioso”, que não quer mostrar os motivos do herói, apenas contar a história de uma forma mais direta, que seria o caso de Godard, ou mesmo do próprio Sganzerla.

O maior problema do livro é o radicalismo do cineasta, que insiste em deixar claro que, para ele, apenas o cinema moderno é válido, denegrindo a imagem de todos os que não seguem este padrão, inclusive diretores renomados, como o próprio Bergman. Tentando dividir o fazer filmes em dois, ele acaba de certa forma se contradizendo, quando supõe que o tradicional segue os Lumière e o moderno segue Meliès, ambos clássicos. Ainda mais quando diz que a obra maior do Cinema do Corpo é Cidadão Kane, de 1941, tornando assim equivocada a terminologia “tradicional” e “moderno”.

Apesar destes deslizes, Por um Cinema sem Limite merece alguma atenção. As teorias de Rogério Sganzerla fazem bastante sentido, independente do posicionamento em que ele se coloca diante delas. Além disso, o cineasta se propõe a fazer analises de obras e autores de grande importância, como um capitulo dedicado ao fundador da Nouvelle Vague, Godard. É inegável o conhecimento do brasileiro, tanto na sua forma de escrever, como de fazer filmes. Assim, é sempre válido buscar conhecer mais de suas obras.

  1. Não estou certo que Por um cinema sem limite é uma teoria. Digo isso porque ao mesmo tempo em que Sganzerla ressalta positivamente um autor nesse ou naquele artigo, depõe contra no próximo “capítulo”. Creio que a obra seja uma constatação dos cinemas moderno e clássico. Mesmo porque sua cinematografia reflete alguns pontos explícitos no livro, mas na maior parte das vezes apresenta novos elementos não previstos em sua “teoria”.
    Percebo que ele pontua os cinemas e tenta extravasar (diferente da matemática que ele usa no livro).
    Não vejo que para Sganzerla apenas o cinema moderno é válido e muito menos vejo-o denegrindo o cinema clássico. Acredito que ele buscava exatamente uma forma livre e despreocupada de fazer, pensar e constatar cinema. Um grito no meio daquele momento das grandes e mirabolantes teorias de Glauber.
    Parabéns pela resenha, muito bem escrita e com um olhar que, acredito, propositalmente provocou a discussão. Coisa que falta tanto no cinema como nas relações da vida em geral.

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