Arquivo para maio \30\UTC 2007

Zodíaco

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Nas décadas de 60 a 80, um serial killer aterrorizou o norte da California, sendo procurado pela polícia de várias cidades, mas nunca encontrado. O nome dele era Zodíaco. Robert Graysmith, um cartunista do jornal San Francisco Chronicle, que sempre estava a par das investigações sobre o caso, nunca se deu por satisfeito pelo trabalho policial e decidiu investigar por conta própria. O resultado é o livro Zodíaco, lançado no Brasil pela Editora Novo Conceito ao mesmo tempo em que o filme de David Fincher chega aos cinemas.

Dividido em 20 capítulos, o livro-reportagem traça de forma cronológica tudo o que Graysmith descobriu sobre o caso, de 1969, quando o assassino passou a agir como um serial killer, até 1985. Zodíaco era um criminoso preocupado em chamar a atenção, o que o fazia escrever cartas para redações de alguns jornais, um deles o Chronicles, o que permitiu um grande acesso do autor aos principais envolvidos no caso. Mesmo não sendo jornalista, mas trabalhando com eles, Graysmith apurou incansavelmente tudo o que pôde.

Metódico e detalhista, o cartunista descreve de forma minuciosa diversos momentos do que investigou. No livro, é possível ver as vítimas caminhando em direção à morte, pela forma como ele relata, rua a rua, movimento a movimento, os últimos passos deles. Os procedimentos policiais e médicos também são descritos com precisão. Diferenças entre armas, calibres e munições são contadas ao leitor para deixar mais claro o processo.

Cada capitulo é intitulado com o nome de seu personagem principal, que na maioria dos casos é o próprio Zodíaco, mas em outros momentos chega a ser vítimas ou suspeitos. Na incerteza sobre quem é o verdadeiro vilão, o autor demonstra suas teorias, principalmente nos últimos momentos do livro, sobre quem ele acha que pode ser ou não. Cabendo ao leitor o julgamento final.

Além de mapas e retratos falados, o livro é ilustrado com algumas das diversas cartas e enigmas que o assassino enviava aos jornais, à polícia, ou à cidadãos, como Paul Avery, jornalista colega de Graysmith. Avery, que aparece como elemento importante no filme de Fincher, pouco se mostra no livro. Aqui, o personagem mais recorrente é outro, o detetive Dave Toschi. Porém não se pode dizer que é o protagonista, que em alguns momentos pode ser o próprio narrador e em outros ser mesmo o Zodíaco.

Sem uma pretensão de apresentar respostas, mas apenas de detalhar os fatos, o autor apresenta ao leitor o resultado de anos de pesquisa, própria e em torno dos arquivos policiais. Os relatos imparciais, no começo da obra, vão se tornando parciais à medida que Robert vai inclinando sua busca a um ou outro elemento, mas isso sempre é deixado claro, para que ninguém seja manipulado impunemente.

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Nome de Família

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Todos nós nascemos do Capote, de Gogol”, é o que disse Dostoievski sobre o escritor pouco mais velho que ele. É a partir dessa frase que surge a história narrada em Nome de Família, filme de Mira Nair, adaptado da obra de Jhumpa Lahiri. Tanto Nair como Lahiri vivem no ocidente, mas de origem hindu. E é sobre este assunto que trata o filme e o livro, as dificuldades de viver como um estrangeiro dentro de seu próprio lar, no caso, os hindus no ocidente. Mas a interpretação pode ser mais ampla, visto a presença de um tema tão universal.

Após um acidente em um trem, Ashoke Ganguli segue os conselhos de um desconhecido e sai de Calcutá, disposto a conhecer o mundo. Quando se casa com Ashima, vai viver em Nova Iorque, onde tem que se acostumar com uma cultura completamente diferente. É lá onde nascem seus filhos, Gogol e Sonia. O primogênito recebe o nome em homenagem ao escritor do conto que o pai estava lendo no momento do acidente.

Gogol Ganguli passa a viver dois grandes impasses em sua vida. O primeiro é o fato dele ser americano com tradições hindu, o que já causa um grande conflito em suas escolhas. Além disso, ele rejeita seu nome, que considera primeiramente um repelente de mulheres e, depois, de extremo mau-gosto, ao saber que Nikolai Gogol se matou depois de uma vida de perturbações. Para resolver este problema, ele usa um paliativo, troca o seu nome, mas isto não é o suficiente.

A grande questão de Nome de Família é a mesma do lema socrático do “conhece-te a ti mesmo”. Gogol precisa de uma identidade, já que não é fácil para ele encontrá-la em elementos comuns de sua vida. Ele não é um americano, visto que sua forma de viver e sua cultura vem de longe. Tampouco hindu, mal conhecendo a Índia. E nem mesmo seu nome pode lhe revelar algo, quando este é herdado de um autor da literatura russa, de quem ele pouco sabe, mas já não simpatiza.

Esta busca pelo “eu” permeia todo o filme. Mesmo antes do nascimento do jovem, é por seus pais que ela acontece. Seja com Ashoke, em sua relutância de sair da Índia antes do acidente e na vontade de ver o mundo depois dele, seja com Ashima, que mesmo sem conhecer o marido, aceita ir com ele à um novo mundo, descobrir uma outra cultura, com a qual não tem nenhuma familiaridade.

Durante as quase duas horas de filme, então, a saga da família funciona como a base para uma reflexão mais densa – mas não tanto que afugente público de hollywood e bollywood – sobre esta angústia de cada um em saber mais sobre si para pode evoluir, de olhar para trás e, assim, poder andar para frente. Fato tão necessário que o próprio Nikolai Gogol não conseguiu, o levando à morte.

Olhe Para os Dois Lados

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Depois de assistir ao funeral de seu pai, Meryl volta para casa em um trem. Distraída e pensativa, ela olha a paisagem, no momento em que um dos vagões descarrila quando iria entrar em um túnel, e o veículo se choca com o morro. Tudo continua bem e o trem segue seu caminho, uma vez que o acidente apenas fez parte da criativa e trágica imaginação de Meryl. É assim uma das primeiras cenas de Olhe Para os Dois Lados, filme australiano de 2005, dirigido por Sarah Watt.

Especialista em animações, a diretora resolveu de uma forma simples a diferenciação entre os sonhos de seus personagens e a realidade. Meryl é uma artista plástica, desta forma, seus sonhos são desenhos animados com os mesmos traços de suas pinturas. Já Nick, um fotógrafo, tem animações realizadas com fotos em seus delírios. Desta forma, Sarah pode ter uma maior liberdade em dar aos seus personagens uma imaginação capaz de propor as situações mais terríveis para quem está em volta deles.

Apesar de tratar da morte, Olhe Para os Dois Lados não deixa de ser um filme leve, uma comédia romântica em que seus protagonistas se conhecem após Meryl presenciar um homem sendo atropelado por um trem, evento que deverá ser fotografado por Nick, que trabalha no jornal local. A morte ronda a artista por sua solidão. Já uma balzaquiana, ela teme não encontrar alguém com quem compartilhe o resto de sua vida. Já seu novo parceiro, acaba de descobrir um câncer que já se espalhou pelo corpo.

Além do casal, personagens secundários também refletem sobre os acasos da vida e a inevitabilidade da morte. O maquinista, com sentimento de culpa, mergulha em uma grande tristeza depois do acidente. Nela, ele descobre sua inabilidade em se comunicar com seu filho. Andy, colega de Nick, tenta convencer a todos, através do jornal, que pequenos acidentes como estes são na verdade suicídios bem-sucedidos. Mas o acaso lhe traz uma grande surpresa, ao descobrir que sua ex-namorada está grávida, quando ele não consegue cuidar nem mesmo de seus filhos com a ex-esposa.

De uma maneira simples e ingênua, o filme australiano tenta tratar de assunto mais tensos e pesados, como a morte e o destino. A diretora, através de seus personagens, declara que o amor é um sentimento tão importante como a vida e a morte. A sutileza da câmera, dos atores e, principalmente, das animações, dá ao filme um toque muito mais descompromissado que o deixa leve.

Entre os Palcos e as Telas

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No novo filme de Nick Cassavetes, Alpha Dog, Justin Timberlake, ex-integrante da boy band N´Sync, interpreta o personagem Frankie, provando que pretende seguir em frente como ator. Começando sua carreira ainda na infância, quando apresentava o programa Clube do Mickey, o artista conheceu a fama com a banda em 1995, e seguiu com projeto solo, em 2002, com o fim do grupo. Em 2005, fez seu primeiro papel de destaque nos cinemas em Edison – Poder e Corrupção.

Antes mesmo de Justin nascer, outro ídolo da música já se aventurava pelo cinema. David Bowie começou a fazer pequenas participações como ator nos anos 60, em filmes experimentais, e não parou… [continua aqui]

Baixio das Bestas

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De acordo com Everardo, personagem de Matheus Nachtergaele do filme Baixio das Bestas, “o melhor do cinema é que no cinema você pode fazer o que tu quer”. E o que Cláudio Assis quer é incomodar. Já com seu primeiro longa, Amarelo Manga, ele causou repulsa em muita gente, com o novo filme não está sendo diferente. Em Baixio das Bestas o diretor pretende mostrar, sem qualquer máscara, a condição da mulher no interior do Brasil, usando como cenário um canavial da Zona da Mata de Pernambuco.

O filme pode não ter sido inspirado em uma história real, mas existem muitas histórias reais dentro dele. A trama principal gira em torno da menina Auxiliadora, de 16 anos, que vive com seu avô Heitor. Numa região onde só há três formas de sobrevivência: a cana-de-açucar, as apresentações de maracatu e o sexo, o velho optou pela mais fácil, e sempre que precisa de dinheiro exibe a neta nua em um posto de beira de estrada para os caminhoneiros de passagem.

Um dos habituais admiradores da cena é Cícero, universitário de Recife, filho de uma rica família da região. Ele, junto com seus amigos em um bando liderado pelo Everardo, se aproveita do poder e do dinheiro para viver de forma irresponsável, realizando encontros e festas regadas a álcool, drogas e orgias, independente de as envolvidas quererem ou não participar. Na maioria das vezes as escolhidas são garotas de programa, mas mesmo elas se sentem ofendidas com tamanha sordidez.

As mulheres de Baixio das Bestas servem apenas para aliviar os prazeres sexuais dos personagens masculinos. Representadas com grande força principalmente pela estreante Mariah Teixeira, por Dira Paes e por Hermila Guedes, em uma participação pequena, mas marcante. Não há no filme nenhuma preocupação em ele ser de fácil digestão. Enquanto Amarelo Manga nos convencia que “o ser humano é estomago e sexo”, este nos mostra a opressão causada pelo sexo. Na sessão de pré-estréia em São Paulo, muitas mulheres saíram, não agüentaram chegar ao fim: a realidade é difícil de ser suportada por aqueles que não a conhecem.

Cláudio Assis quer mostrar em seus filmes o cheiro da podridão do mundo. Ele quer um cinema despido de hipocrisias, que mostre a realidade do mundo àqueles que insistem em não enxergar. Há nudez, violência, sexo explicito em Baixio das Bestas, mas na vida real tudo isto também existe, então ele não vê o porque de esconder. Existe o por quê?

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