Nome de Família

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Todos nós nascemos do Capote, de Gogol”, é o que disse Dostoievski sobre o escritor pouco mais velho que ele. É a partir dessa frase que surge a história narrada em Nome de Família, filme de Mira Nair, adaptado da obra de Jhumpa Lahiri. Tanto Nair como Lahiri vivem no ocidente, mas de origem hindu. E é sobre este assunto que trata o filme e o livro, as dificuldades de viver como um estrangeiro dentro de seu próprio lar, no caso, os hindus no ocidente. Mas a interpretação pode ser mais ampla, visto a presença de um tema tão universal.

Após um acidente em um trem, Ashoke Ganguli segue os conselhos de um desconhecido e sai de Calcutá, disposto a conhecer o mundo. Quando se casa com Ashima, vai viver em Nova Iorque, onde tem que se acostumar com uma cultura completamente diferente. É lá onde nascem seus filhos, Gogol e Sonia. O primogênito recebe o nome em homenagem ao escritor do conto que o pai estava lendo no momento do acidente.

Gogol Ganguli passa a viver dois grandes impasses em sua vida. O primeiro é o fato dele ser americano com tradições hindu, o que já causa um grande conflito em suas escolhas. Além disso, ele rejeita seu nome, que considera primeiramente um repelente de mulheres e, depois, de extremo mau-gosto, ao saber que Nikolai Gogol se matou depois de uma vida de perturbações. Para resolver este problema, ele usa um paliativo, troca o seu nome, mas isto não é o suficiente.

A grande questão de Nome de Família é a mesma do lema socrático do “conhece-te a ti mesmo”. Gogol precisa de uma identidade, já que não é fácil para ele encontrá-la em elementos comuns de sua vida. Ele não é um americano, visto que sua forma de viver e sua cultura vem de longe. Tampouco hindu, mal conhecendo a Índia. E nem mesmo seu nome pode lhe revelar algo, quando este é herdado de um autor da literatura russa, de quem ele pouco sabe, mas já não simpatiza.

Esta busca pelo “eu” permeia todo o filme. Mesmo antes do nascimento do jovem, é por seus pais que ela acontece. Seja com Ashoke, em sua relutância de sair da Índia antes do acidente e na vontade de ver o mundo depois dele, seja com Ashima, que mesmo sem conhecer o marido, aceita ir com ele à um novo mundo, descobrir uma outra cultura, com a qual não tem nenhuma familiaridade.

Durante as quase duas horas de filme, então, a saga da família funciona como a base para uma reflexão mais densa – mas não tanto que afugente público de hollywood e bollywood – sobre esta angústia de cada um em saber mais sobre si para pode evoluir, de olhar para trás e, assim, poder andar para frente. Fato tão necessário que o próprio Nikolai Gogol não conseguiu, o levando à morte.

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