Arquivo para junho \14\UTC 2007

Cão Sem Dono

Dois anos depois de dividir a opinião dos apreciadores de cinema com Crime Delicado, o diretor paulista Beto Brant surge com Cão Sem Dono, que, além de não tender à discordância, como no anterior, assume sua nova forma de realizar seus filmes. A quinta obra do cineasta parece deixar para trás o filme policial e mostrar que Brant agora pretende ser reconhecido por filmes mais existencialistas, ou intimistas.

Em um pequeno apartamento de Porto Alegre acontece a maior parte da história de Ciro e Marcela. Não propriamente a história, mas o envolvimento entre os dois, já que, neste filme, não há a intenção de se contar uma. Ciro é um tradutor de russo, que (mal) vive de bicos e que passa por uma crise existencial. Marcela, uma modelo recém-chegada do interior, com a cabeça cheia de planos. O cão, do título, poderia ser o cachorro que Ciro cria, que não é seu, apenas mora junto com ele no apartamento. Mas desde o começo fica claro que é o tradutor o real Cão Sem Dono.

O filme destoa completamente dos três primeiros de Beto Brant. A ação e o nervosismo dos outros dão lugar às cenas cotidianas aqui. O que talvez explique a presença de Crime Delicado, entre eles. O longa que foi adorado por muitos e odiado por tantos outros, consegue servir de alguma forma como uma ponte entre o terceiro e o quinto filme de Brant. O estranhamento, causado na época de seu lançamento, parece agora fazer sentido, ao dialogar – de longe – tanto com O Invasor, quanto com Cão Sem Dono.

Enquanto no começo de sua carreira o diretor tinha uma preocupação mais social, coletiva, agora parece que o foco se volta ao ser humano. Brant entra dentro de seus personagens. Chega a entrar literalmente, quando, em uma visita ao hospital, é mostrado claramente uma endoscopia de Ciro. Os silêncios, as conversas, a endoscopia, o cachorro e até o título do filme e do livro do qual foi adaptado são formas de permitir ao espectador que penetre no personagem para, ao final dos pouco mais de 80 minutos, ter a sensação de ter vivido aquilo junto a ele.

Adaptado de Até o Dia em que o Cão Morreu, o longa Cão Sem Dono, de Beto Brant e Renato Ciasca – antigo parceiro de Brant – parece ser o trabalho mais maduro do diretor. Realizado com poucos e desconhecidos atores, distante do eixo Rio-São Paulo, com uma narrativa pouco explorada dentro do cinema nacional, o filme consegue agradar muito, sem precisar ser grande.

Entrevista com Beto Brant e Renato Ciasca

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De um descontraído escritório, cercado de verde, no meio da caótica São Paulo, Beto Brant e Renato Ciasca, diretores de Cão Sem Dono, falaram ao Guia da Semana sobre a produção do novo filme. Adaptado do livro Até o Dia em Que o Cão Morreu, de Daniel Galera, o longa deixa de lado a violência dos anteriores, como Crime Delicado e O Invasor, para contar uma intimista história de amor.

Ciasca confessa que o tema foi o que mais os atraiu na obra de Galera. “A gente estava querendo falar sobre as condições humanas”, diz o diretor. Beto Brant afirma que foi “a construção passo-a-passo até o cara se entregar” que fez com que esta história fosse a escolhida, já que não é comum ver um homem neste estado em uma relação amorosa. Para entender o autor, os cineastas conheceram Porto Alegre, cenário do filme, guiados pelo próprio Daniel, começando a criar o diálogo com o livro. [continua aqui]

Não Por Acaso

Renomado como diretor de curta-metragens, Philippe Barcinski apresenta seu primeiro longa seis anos após o lançamento de Palíndromo, que chamou a atenção e mostrou que uma mente criativa estava para aparecer no cinema nacional. Longe das experimentações dos curtas, Não Por Acaso consegue seguir a mesma linha que o diretor já buscava anteriormente, mas com maior desenvolvimento.

O longa estrelado por Rodrigo Santoro – em uma de suas participações menos inspiradas, mas não fraca – fala sobre o controle que as pessoas esperam ter sobre suas vidas, mas que nem sempre é possível. Para isto, o diretor usa a Teoria do Caos, resquícios do tempo em que era um aluno de física. Divididos entre dois personagens, com a mesma obsessão, o destino e esta necessidade do controle e a eventual falta dele se tornam elementos chaves de Não Por Acaso.

Pedro herdou de seu pai uma fábrica artesanal de mesas de sinuca. Fechado em seu próprio mundo, ele se limita ao trabalho e, quando possível, ao jogo. Apesar dele amar sua namorada, Tereza, ela espera mais atenção, mas raramente recebe. Enquanto isto, Ênio vive fechado em um outro mundo. Monitorando câmeras da Companhia de Engenharia de Trafego, ele parece ter controle total de sua vida, mas nem mesmo quer conhecer sua filha Bia, de 16 anos. Longe do controle dos dois, a mãe de Bia e Teresa se envolvem em um acidente e morrem, desestruturando os dois personagens.

Talvez por ser meticuloso e perfeccionista como seus personagens, Barcinski deixa o filme sem ritmo durante quase metade dele. Antes de apresentar Pedro, ele passa um longo tempo na apresentação de Ênio. Assim como fica tempo demais falando de Pedro antes de seguir com a história. Sem intercalar, em uma introdução longa demais, Não Por Acaso se torna cansativo nos primeiros minutos, o que acaba compensando com o resto da obra.

Não optando por um cinema comercial, e também longe de fazer parte de um circuito alternativo, Barcinski apresenta com o longa exatamente aquilo que se propõe, um filme que pode funcionar tanto com entretenimento como para reflexão. O que faz com que o filme seja bom para ambos os públicos. O problema é que ele não vai além disso para nenhum dos dois.

Entrevista com Philippe Barcinski

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Quem acompanha curta-metragens nacionais já se acostumou a ouvir falar do carioca, radicado em São Paulo, Philippe Barcinski. Principalmente depois de 2001, quando o cineasta fez Palindromo, que, com uma narrativa bem inusitada, chamou a atenção de muita gente. Para quem ainda não o conhece, porém, o lançamento de seu primeiro longa-metragem, Não Por Acaso, é uma forma de começar a acompanhar sua carreira.

Tudo começou quando Philippe ganhou a Bolsa Vitae de Apoio às Artes para começar o roteiro do longa, com a ajuda de sua mulher, Fabiana Werneck Barcinski, e de Eugênio Puppo. Para um cineasta acostumado com pouco tempo, a dificuldade foi “não fazer um curta de 90 minutos”, disse. Apenas o jogo de linguagem, que ele já estava acostumado, não era o bastante, visto que em um longa, “pode se fazer a experimentação que quiser, mas precisa de um desenvolvimento dos personagens”, afirma ele. Por isso, o roteiro demorou cerca de cinco anos para “achar a sua equação temática e estética”, revela.[continua aqui]

Zodíaco

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Doze anos depois de fazer um grande sucesso ao lançar Seven, o filme que revolucionou a forma de retratar serial killers no cinema, o cineasta David Fincher volta ao tema para novamente mudar esta perspectiva. Mesmo tendo prometido a si mesmo que nunca mais falaria sobre assassinos em série, o diretor quis retomar o assunto ao ler a história real de Zodíaco, contada pelo cartunista Robert Graysmith no livro homônimo.

Apesar de se apresentar como algo novo, em sua narrativa, Zodíaco lembra muito o filme sul-coreano de 2003, Memórias de um Assassino, na época o mais assistido na Coréia do Sul. Os dois casos relatam histórias reais de serial killers que aterrorizaram a população, mas que ficam impunes pela falta de comunicação da polícia. O filme americano, no entanto, além de chegar a um público mais amplo, ainda vai mais longe. A obra é dividida em duas partes, sendo a primeira, esta comédia de erros da polícia na caça ao bandido. Na segunda, o que se relata é a ânsia de Graysmith em descobrir tudo sobre o caso para escrever o livro no qual o filme foi baseado.

O Zodíaco das telas mostra a vida do cartunista, a partir do momento em que toma conhecimento dos crimes. Trabalhando no jornal San Francisco Chronicle, para onde o assassino enviava suas cartas e enigmas, ele têm acesso diário ao caso. Seu passado como escoteiro acaba criando nele uma vontade incalculável de desvendar este mistério, mesmo que em detrimento de sua vida pessoal. Assim, no primeiro momento ele apenas observa o trabalho da polícia e dos jornalistas e, quando percebe que nada mais vai acontecer, toma a dianteira na investigação.

A vida pessoal de Graysmith é retratada com bastante ênfase, sendo fator determinante de muitos momentos da narrativa. Seu relacionamento com os filhos, com sua esposa Melanie, com o jornalista Paul Avery e com o investigador Dave Toschi são explorados para dar uma carga dramática maior, caso que não acontece no livro, em que Avery, por exemplo, quase não é citado, mas ainda recebe atenção maior que a mulher e as crianças. Esta dramaticidade também está presentes em diversas cenas que não existiram realmente, mas são simplesmente conjunções de vários relatos, como sua investigação a Bob Vaughn.

O sexto filme do diretor que começou sua carreira na direção de Alien³, mostra que David Fincher alcançou o sucesso, em Seven, em Clube da Luta e agora com Zodíaco, por um domínio da estrutura narrativa indispensável na indústria cinematográfica americana, aliado a uma tentativa de subversão das regras deste mesmo sistema. Mesmo se apoiando em Hollywood para seu triunfo, e por vezes cometendo os mesmos erros, Zodíaco e seu diretor merecem ser reconhecidos como alternativas possíveis.

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