Cão Sem Dono

Dois anos depois de dividir a opinião dos apreciadores de cinema com Crime Delicado, o diretor paulista Beto Brant surge com Cão Sem Dono, que, além de não tender à discordância, como no anterior, assume sua nova forma de realizar seus filmes. A quinta obra do cineasta parece deixar para trás o filme policial e mostrar que Brant agora pretende ser reconhecido por filmes mais existencialistas, ou intimistas.

Em um pequeno apartamento de Porto Alegre acontece a maior parte da história de Ciro e Marcela. Não propriamente a história, mas o envolvimento entre os dois, já que, neste filme, não há a intenção de se contar uma. Ciro é um tradutor de russo, que (mal) vive de bicos e que passa por uma crise existencial. Marcela, uma modelo recém-chegada do interior, com a cabeça cheia de planos. O cão, do título, poderia ser o cachorro que Ciro cria, que não é seu, apenas mora junto com ele no apartamento. Mas desde o começo fica claro que é o tradutor o real Cão Sem Dono.

O filme destoa completamente dos três primeiros de Beto Brant. A ação e o nervosismo dos outros dão lugar às cenas cotidianas aqui. O que talvez explique a presença de Crime Delicado, entre eles. O longa que foi adorado por muitos e odiado por tantos outros, consegue servir de alguma forma como uma ponte entre o terceiro e o quinto filme de Brant. O estranhamento, causado na época de seu lançamento, parece agora fazer sentido, ao dialogar – de longe – tanto com O Invasor, quanto com Cão Sem Dono.

Enquanto no começo de sua carreira o diretor tinha uma preocupação mais social, coletiva, agora parece que o foco se volta ao ser humano. Brant entra dentro de seus personagens. Chega a entrar literalmente, quando, em uma visita ao hospital, é mostrado claramente uma endoscopia de Ciro. Os silêncios, as conversas, a endoscopia, o cachorro e até o título do filme e do livro do qual foi adaptado são formas de permitir ao espectador que penetre no personagem para, ao final dos pouco mais de 80 minutos, ter a sensação de ter vivido aquilo junto a ele.

Adaptado de Até o Dia em que o Cão Morreu, o longa Cão Sem Dono, de Beto Brant e Renato Ciasca – antigo parceiro de Brant – parece ser o trabalho mais maduro do diretor. Realizado com poucos e desconhecidos atores, distante do eixo Rio-São Paulo, com uma narrativa pouco explorada dentro do cinema nacional, o filme consegue agradar muito, sem precisar ser grande.

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