Arquivo para agosto \30\UTC 2007

Paranóia

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Sem grandes pretensões, Paranóia se tornou repentinamente um filme de sucesso ao estrear em solos estadunidenses. Com um diretor de pequeno porte e um ator até então desconhecido, o filme conta com um empurrão de Steven Spielberg, mas não apenas isso impulsionou seu lançamento. O apelo que o filme tem aos mais jovens pode ser considerado o segredo de sua bilheteria espetacular, que refletiu também no início da fama do jovem Shia LaBeouf, que será o filho do Indiana Jones no próximo filme.

A transformação do ator em astro, porém, se não viesse neste filme viria em outro, como Transformers, que estreou depois nos EUA. Spielberg quer fazer dele um grande ator, como já fez com Tom Hanks, então seria apenas uma questão de tempo. Shia, porém, é um elemento bastante responsável pela identificação que os jovens têm pelo filme. O ator bom, porém, não consegue fugir das armadilhas de um roteiro ruim. Enquanto em Transformers é a coadjuvante que muda repentinamente de personalidade, aqui é o protagonista.

Em uma releitura do clássico Janela Indiscreta, de Alfred Hichcock, o filme conta a história da Kale, um adolescente rebelde que bate em seu professor e, por isso, é condenado a passar três meses em prisão domiciliar. Nela, ele passa a espionar os vizinhos, encontrando num deles um possível serial killer. O primeiro problema é que o jovem só é um adolescente rebelde em um momento do filme, quando bate no professor. Em todos os outros é um jovem normal, sem grandes frustrações, fora o fato de estar de castigo em casa.

Esta falha no roteiro também se reflete nas relações entre os personagens. Kale se comunica com sua mãe ou seu pai – principalmente o pai – da mesma forma que um ator o faz com outro que acaba de conhecer. Não há grande naturalidade. Como é fácil demais a forma como ele conquista a vizinha, talvez esta a razão de chamar tanto a atenção dos mais jovens. Ela percebe que ele a observa na piscina e vai à sua porta, eles ficam amigos e, quando ele revela que a espiona também em seu quarto, ao invés de processá-lo, o que seria comum nos EUA, ela cai de amores. Muito melhor relação se dá entre o casal do brasileiro O Homem que Copiava.

Mas nem tudo está perdido em Paranóia. O filme prende a atenção e revela alguns momentos de grande tensão diante à tela. Apesar de, como em quase toda obra para o público-alvo em questão, pregar peças no espectador. Apesar do suspense que pode proporcionar, a equipe de marketing consegue dar um tiro no próprio pé. Grande parte das fotos de divulgação e até mesmo o trailer do longa mostram o final, o que não é nem um pouco inteligente em uma obra em que a dúvida é um dos poucos pontos altos.

O Grande Chefe

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Dentre os cineastas vivos com trabalho mais autoral hoje em dia, está o dinamarquês Lars Von Trier. Experimental, ou experimentador, o cineasta de 50 anos está sempre criando regras e movimentos, mas não se incomoda em destruir tudo logo em seguida. Foi o que aconteceu com o Dogma 95, pelo qual sempre é lembrado e que lhe deu maior visibilidade. Logo no segundo filme, Dançando no Escuro, já rompeu o que havia escrito em prol de um cinema alternativo, criando um musical. Seu novo longa, O Grande Chefe, se aproxima de seu manifesto, mas vêm com uma nova proposta.

Emotivo como são os dinamarqueses, Ravn não quer que seus funcionários fiquem insatisfeitos com ele, apesar de suas medidas bastante impopulares. Isto o faz criar um suposto superior, que daria as ordens. Um dia, este é requisitado e o verdadeiro chefão tem que contratar Kristoffer, um ator que representaria este chefe, para vender a empresa. Percebendo as manobras de seu diretor, o artista vai além do que é pedido e começa a usar o personagem a favor do que ele quer.

A relação entre um diretor e um ator não poderia ser mais óbvia para um retrato do próprio Trier, que aliás aparece algumas vezes no filme. Tanto o diretor da ficção quanto o real são manipuladores. Ambos usam seus atores para criar uma realidade em torno deles que não existe, mas que faz com que todos ao redor os ame. Recentemente saiu uma entrevista em que Lars disse estar deprimido e não sabe quando filma novamente. Talvez este endeusamento de sua figura, mesmo com essa sua ação clara de jogar com o expectador, o incomode.

Se for assim, O Grande Chefe não é mais que um pedido de desculpas, seguidos de uma tímida declaração de que não vai mudar. Em suas poucas aparições no filme, sua voz vem acompanhada da sua imagem no reflexo dos vidros do cenário. É como se ele dissesse aos fãs que aquilo é ele, que o filme é como uma tentativa de uma auto-biografia do momento. Além disso, quem controla os movimentos de câmeras e a edição não é ele ou qualquer membro da equipe. Ele e o fotógrafo apenas enquadra o começo das cenas e um programa de computador faz todo o resto do trabalho, sem dar chances para alterações posteriores.

Em um paradoxo, Lars Von Trier passa sua função para uma máquina e, assim, faz o seu filme mais autoral. De volta à uma comédia, que não fazia há mais de dez anos, de volta ao seu país, a Dinamarca, filmando com atores locais e em seu idioma nativo, e voltando a um cinema mais simples, sem a grandiosidade dos últimos filmes, como Dogville, o cineasta acaba deixando de lado sua rixa com os EUA e mostrando um pouco mais de si. Não a toa, este é o primeiro filme dele em que a estréia acontece na Dinamarca.

Os Simpsons – O Filme

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Uma série de televisão não tem um porquê de ser adaptada para o cinema. Os meios são diferentes, as linguagens diferentes, a adaptação raramente é bem sucedida. Mesmo assim, existem produtos que, mesmo não perdendo seu caráter original, são prazerosos em suas versões cinematográficas. Um claro exemplo disso é Os Simpsons – O Filme. Não há como negar que se trate de um episódio de uma hora e meia de duração. Mas quem se importa quando o resultado é de ótima qualidade, mesmo comparando com o próprio desenho?

Claro que o longa-metragem tem suas grandiloqüencias, para justificar sua mudança de perfil. Isto já fica claro com a presença do Ralf no símbolo da Fox, logo no início do filme. Além do envolvimento de toda Springfield, e até do presidente da república, no episódio. Porém, a mudança mais marcante neste sentido, é a importância que uma rotineira e, por vezes apagada personagem ganha. Maggie, mesmo não aparecendo tanto na história, é peça fundamental, além de render algumas cenas hilárias.

Apesar do incrível resultado nas telonas, houve uma certa decepção para quem acompanhou os últimos pronunciamentos de Matt Groening, criador da série. Segundo ele, os ambientalistas e os religiosos, em geral, iriam se ofender muito com a obra. Sim, há diversas piadas que atacam os dois grupos, mas nada que chegue a causar grandes desagrados. Apenas uma cena envolvendo a Bíblia pode criar maiores polêmicas. Para os defensores do planeta, os ataques são menores que à política americana, por exemplo. A mais notável das cenas cômicas no sentido, não gera um ataque, apenas rememora um certo músico irlandês.

Além disso, Groening afirmou que a grande maioria das cenas mostradas nos trailers não estava na versão final da fita. Quem se desanimou com a afirmação pode ficar tranqüilo, as cenas estão lá. E, por incrível que possa parecer, todas fazem sentido no contexto do filme. A grande diversidade de cenários, personagens e situações, talvez seja o que mais destoa da versão televisiva. Praticamente todos os personagens estão presentes, em pequenas proporções, com direito a uma chocante morte, já anunciada. Além, claro, das participações especiais de Tom Hanks e do Green Day.

Desta forma, o fato de não fugir muito do que já faz há quase vinte anos é o que justamente faz com que Os Simpsons – O Filme acabe se superando e se torne um dos grandes lançamentos no cinema em 2007. Não só pela espera e ansiedade, mas pelo produto final, com um roteiro engraçado e bem amarrado. A história do filme… Bem, quando se assiste a um episódio na televisão, não se costuma saber sobre o que é. Basta sentar em frente a tela e deixar que Bart e sua família os guie pelos próximos minutos. E assim deve ser.

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