Querô

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Em tempo em que a espetacularização da pobreza e da violência dita uma das modas do que é ser cinema nacional hoje – muitas vezes voltado para a exportação -, o filme Querô parece ganhar algum destaque por fugir de certas fórmulas recorrentes. Ao contrário dos demais no gênero, o longa de Carlos Cortez não se passa em uma favela e não tem como segundo plano o tráfico de drogas. O que mais impressiona, no entanto, é o foco dado nos conflitos internos do protagonista.

Baseado no romance Querô –Uma Reportagem Maldita, de Plínio Marcos, o filme fala sobre um jovem órfão e suas tentativas em ter uma vida normal. Quando Jerônimo nasce, sua mãe, uma prostituta, é expulsa da casa em que trabalha. Não agüentando a pressão, ela toma um litro de querosene, o que faz aparecer o apelido do garoto e a maioria de seus problemas de toda a vida. Querô, então, passa a transitar entre a marginalidade e a fé, tentando encontrar o seu lugar.

Escrito na década de 70, o texto se mantém atual e sem respostas, ao questionar qual o lugar que um jovem órfão e pobre pode ocupar dentro da sociedade. Existe na figura do protagonista a vontade de viver como um jovem normal, mas ele próprio entende que devido às condições de vida que teve até ali, isto é bastante improvável de acontecer. Em um dos momentos mais fortes do longa, quando ele está preso em uma solitária na da Febem, não é o sentimento de raiva que o acomete, mas o de prostração.

Querô busca sua mãe, ao mesmo tempo em que busca a si mesmo. Quando algum garoto mal-intencionado faz piadas com o destino dela, o jovem a defende com toda a força que tem. Apesar de ter consciência de que toda a sua desgraça partiu daquele desatino, ele não a culpa pelo suicídio, culpa sim por não levá-lo junto. Durante toda a trama, ele luta para descobrir qual o destino que melhor lhe foi reservado: a busca de si através da mãe ou essa mesma busca superando a tragédia de sua progenitora.

Mais do que mostrar o retrato de uma sociedade violênta, ou de revelar os bastidores do mundo da marginalidade e do crime, o filme de Carlos Cortez busca a redenção moral e psicológica de um personagem. Não há neste caso o embate de classes ou da polícia contra o povo, como em obras como Cidade dos Homens, por exemplo. Aqui, o que existe apenas é uma luta íntima entre Querô e todo o resto da sociedade. Uma luta entre Querô e Jerônimo. E quando se luta contra si próprio, não há como não sair perdedor.

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