Arquivo para outubro \10\UTC 2007

Piaf – Um Hino ao Amor

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Existem músicos que ultrapassam as fronteiras dos idiomas. Mesmo sem entender a letra, é difícil não sacar a irreverência dos primeiros sons dos Beatles, a revolta e o inconformismo dos Sex Pistols, ou se deixar levar pelo balanço da Bossa Nova de Antônio Carlos Jobim. Mais difícil ainda é não se entristecer ao som da francesa Edith Piaf. Sua voz, grandiosa e linda, contrastando com seu corpo pequeno e mal cuidado, arrebata o peito de quem se atém a ela, mesmo que não entenda nada do francês. A música se torna idioma universal.

Mais fácil entender, e sentir, o porquê desse aperto no coração ao ouvir músicas como La Vie en Rose, Hymne à L’amour ou Non, Je Ne Regrette Rien, quando se assiste ao filme Piaf – Um Hino ao Amor. A obra francesa de Oliver Dahan conta a vida de Edith, filha de um artista de circo e uma cantora de rua, que recebeu o nome Piaf por seu corpo pequeno e frágil, como o de um pardal. À medida em que o longa vai avançando, ao mostrar as músicas de cada fase da cantora, a emoção causada por elas se potencializa.

Drama não falta em sua vida. Abandonada pela mãe, foi criada pela avó paterna, que era a dona de um bordel sem muito luxo. Foi na infância junto às prostitutas que começou seu talento vocal. Nela também percebeu como a vida seria dura consigo. Principalmente quando, aos sete anos, fica temporariamente cega e, mais tarde, a audição que é prejudicada. Resgatada das ruas por um empresário, Piaf começa a se tornar uma das maiores cantoras do mundo.

Piaf – Um Hino ao Amor, porém, não pretende contar a história de uma forma simples, apenas para que se conheça mais sobre a vida desta mulher que pouco revelou sobre sua intimidade. Sem qualquer cronologia, Dahan faz um vai-e-vem na vida e na carreira da cantora de uma forma que, ao fim da exibição, tudo se sabe sobre Edith e nada se sabe sobre Edith. O expectador consegue entrar dentro da alma desta personagem, que apesar de sua antipatia imensa, ainda se faz amada.

Um dos maiores trunfos é a atriz Marion Cotillard. Interpretando a protagonista, ela se despiu de toda sua beleza para o longa. O trabalho de maquiagem é impressionante. Piaf vai dos vinte aos cinqüenta anos de tal forma que é até difícil dizer que é a mesma atriz, e mais ainda dizer que é outra personagem. Nisto, também há a incrível semelhança das duas atrizes que vivem Edith na infância. Entre si e com Cotillard. Tudo para mostrar que dá para transformar muitas tragédias em vidas cor-de-rosa.

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Tropa de Elite

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Um filme é um filme. Osso duro de roer mesmo é o fato de que, a partir do momento em que o cineasta termina sua obra, ela deixa de ser sua e passa a ser do espectador. Não. Melhor. Assim que o espectador assiste, o filme passa a ser dele, não precisa nem estar acabado. É o que acontece com Tropa de Elite, de José Padilha. Cerca de dois meses antes da real estréia nacional do filme, ele já começava a ser divulgado. Uma vez que a imprensa se apoderou da história, não deu outra: sucesso absoluto. Tudo isto com um porém.

Padilha é o diretor do belo documentário Ônibus 174, sobre o seqüestro no Rio. Seu novo filme é baseado no livro Elite da Tropa, de Luiz Eduardo Soares, antropólogo e militante de esquerda, e Rodrigo Pimentel e André Batista, ex-capitães do BOPE. Rodrigo, aliás, é personagem presente em Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, e André do próprio Ônibus 174. Enquanto o primeiro inspirou Capitão Nascimento, personagem de Wagner Moura, o segundo foi a inspiração de Matias, interpretado por André Ramiro.

Todos eles trabalharam para o filme com a melhor das intensões mas… Entenderam tudo errado. Não tem jeito, não dá pra condicionar o pensamento do público. O que era para ser um filme denúncia, que conta nos pormenores a violência dos poucos policiais não-corruptos, além de dar o quinhão de responsabilidade aos traficantes e principalmente aos jovens de classe média, se tornou bandeira da direita conservadora. Num país onde Ubiratans são heróis e Sandros são a escória, Capitão Nascimento se torna um símbolo, um líder a ser copiado.

Sendo a intensão apenas chocar a população, ou tentar fazer entender um pouco mais os problemas que geram a violência – que é o que indica o histórico de Padilha e de Soares, ao menos – foi uma grande ingenuidade seguir os passos de Cidade de Deus. O filme de 2001 já despertava este instinto violento no público, onde muitos viam em si o desejo de ser um Zé Pequeno ou um Cabeleira. Em Tropa de Elite, o desejo é de ser do Bope e matar bandido na favela. Não que a presença do filme vá criar uma geração de jovens que querem ser da Tropa de Elite da polícia carioca, mas isto revela um problema.

Cada pessoa assiste ao filme filtrando através de seu conhecimento até aquele momento. O sucesso deste filme, endeusando o personagem de Wagner Moura acima de qualquer outro aspecto da obra, além de deixar de lado seu drama pessoal em prol de sua fúria profissional, pode explicar um pouco o porquê do próprio filme existir. Nem mesmo quando uma obra cinematográfica nacional consegue a façanha de se tornar o maior sucesso do cinema no país, explicitando alguns dos grandes problemas da sociedade, ela consegue enxergá-los. Pelo visto, não vai ser tão simples diminuir a violência do Rio de Janeiro.

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