Tropa de Elite

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Um filme é um filme. Osso duro de roer mesmo é o fato de que, a partir do momento em que o cineasta termina sua obra, ela deixa de ser sua e passa a ser do espectador. Não. Melhor. Assim que o espectador assiste, o filme passa a ser dele, não precisa nem estar acabado. É o que acontece com Tropa de Elite, de José Padilha. Cerca de dois meses antes da real estréia nacional do filme, ele já começava a ser divulgado. Uma vez que a imprensa se apoderou da história, não deu outra: sucesso absoluto. Tudo isto com um porém.

Padilha é o diretor do belo documentário Ônibus 174, sobre o seqüestro no Rio. Seu novo filme é baseado no livro Elite da Tropa, de Luiz Eduardo Soares, antropólogo e militante de esquerda, e Rodrigo Pimentel e André Batista, ex-capitães do BOPE. Rodrigo, aliás, é personagem presente em Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, e André do próprio Ônibus 174. Enquanto o primeiro inspirou Capitão Nascimento, personagem de Wagner Moura, o segundo foi a inspiração de Matias, interpretado por André Ramiro.

Todos eles trabalharam para o filme com a melhor das intensões mas… Entenderam tudo errado. Não tem jeito, não dá pra condicionar o pensamento do público. O que era para ser um filme denúncia, que conta nos pormenores a violência dos poucos policiais não-corruptos, além de dar o quinhão de responsabilidade aos traficantes e principalmente aos jovens de classe média, se tornou bandeira da direita conservadora. Num país onde Ubiratans são heróis e Sandros são a escória, Capitão Nascimento se torna um símbolo, um líder a ser copiado.

Sendo a intensão apenas chocar a população, ou tentar fazer entender um pouco mais os problemas que geram a violência – que é o que indica o histórico de Padilha e de Soares, ao menos – foi uma grande ingenuidade seguir os passos de Cidade de Deus. O filme de 2001 já despertava este instinto violento no público, onde muitos viam em si o desejo de ser um Zé Pequeno ou um Cabeleira. Em Tropa de Elite, o desejo é de ser do Bope e matar bandido na favela. Não que a presença do filme vá criar uma geração de jovens que querem ser da Tropa de Elite da polícia carioca, mas isto revela um problema.

Cada pessoa assiste ao filme filtrando através de seu conhecimento até aquele momento. O sucesso deste filme, endeusando o personagem de Wagner Moura acima de qualquer outro aspecto da obra, além de deixar de lado seu drama pessoal em prol de sua fúria profissional, pode explicar um pouco o porquê do próprio filme existir. Nem mesmo quando uma obra cinematográfica nacional consegue a façanha de se tornar o maior sucesso do cinema no país, explicitando alguns dos grandes problemas da sociedade, ela consegue enxergá-los. Pelo visto, não vai ser tão simples diminuir a violência do Rio de Janeiro.

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