Arquivo para fevereiro \26\UTC 2008

Sicko – $.O.$. Saúde

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Os EUA estão doentes. O país que se considera o mais poderoso e importante do mundo tem a sua saúde frágil. E o que os fazem tão poderosos é exatamente o que torna essa saúde tão débil. Forte opositor do presidente George W. Bush, o cineasta Michael Moore decidiu investigar este problema. Porém, como é sabido que seu país não é nada saudável, em seu filme $.O.$. Saúde ele não se atém apenas em mostrar o caos do sistema, mas em provar também como o presidente está pouco se importando com o seu povo e como ele e a mídia mentem.

No início, Moore fala sobre personagens que não são cobertos por planos de saúde nos EUA, e deixa claro que o filme não é sobre eles, mas sim sobre aqueles 250 milhões que se sentem em paz por possuir o benefício. Mas na verdade o documentário não é bem sobre esses também, mas sobre como o governo estadunidense tem grande êxito ao tentar manipular o povo, com verdades inventadas por si, que dizem ser a favor do povo quando em muitos outros países seriam logo descartadas como grandes embustes. E Moore não quer apenas dizer que são meras mentiras, ele prova com fatos e imagens cada um de seus ataques.

É fato que o cineasta não é nenhum exemplo de confiança. Michael Moore foi bastante criticado à época de Tiros em Columbine por manipular as imagens ao seu favor. Mesmo mais cedo, em Roger e Eu, o diretor expôs apenas o que lhe era conveniente. Da mesma forma que não dá para negar o seu caráter picareta, não há também como desprezar a imensa qualidade que $.O.$. Saúde conseguiu atingir. Moore, desta vez, não usa apenas truques de câmera e edição para comprovar suas teorias – não que tenha deixado de usar –, mas cresce como cineasta e como investigador ao deixar o filme ser maior que seu próprio ego – fora uma das cenas finais, sobre um rival, que ao menos suaviza um assunto tão pesado.

Com carta branca do governo e apoio da mídia, os planos de saúde estadunidenses se esforçam, e muito, em apresentar motivos para que os seus associados não possam ter direito a este ou aquele tratamento. Chega ao ponto de uma mulher, que é levada inconsciente ao hospital, depois de um acidente, receber a conta da ambulância por não ter feito o pedido com antecedência. O esforço dos planos é tamanho que eles dão bônus aos médicos que conseguem deixar um doente sem o tratamento adequado. Tudo em nome do dinheiro, sem se importar com as vidas ao redor.

Para contrastar o sistema de saúde dos EUA e contradizer o governo e a mídia, Moore visita outros países e estuda como funciona em cada um deles, incluindo Cuba, o que causou problemas ao diretor. Em comparação aos outros, percebe-se como o “país mais poderoso do mundo” está afundado em corrupção, e como isto parece estar próximo de desmoronar. O grande problema em se assistir a este tipo de filme por aqui é o fato de o nosso sistema de saúde estar mais para EUA do que para Canadá, França ou Cuba. É uma pena que o Brasil esteja adoecendo tão rápido.

Juno

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Nunca entendi muito bem o motivo de tanto sucesso para Juno. A maioria insiste em dizer que é por se tratar de uma boa história, mas acredito que eu não consegui me entregar tanto ao filme, sendo capaz de considerar a história tão boa assim. Meu problema vai além, chega à questão moral. Não consigo engolir o fato de que os personagens tratem com tanta naturalidade assuntos que, para mim, não podem ser assim tratados.

Juno é uma típica adolescente estadunidense, de 16 anos, sem grandes responsabilidades. Até que um dia descobre estar grávida de um vizinho, com quem transou por não ter nada melhor para fazer, segundo ela. Com medo de um aborto, ela decide doar o filho para algum casal que não possa ter um de maneira natural. Encontra, então, um par perfeito para que a criança tenha uma vida tranqüila. Enquanto a criança não nasce, ela vai descobrindo que a perfeição não é algo assim tão fácil de encontrar.

Não tenho nada a ver com a vida da garota – até porque ela é uma personagem de ficção –, mas me incomoda essa facilidade que ela tem de buscar o aborto e, depois, doar o filho ao casal. Porém, isto não incomoda tanto quanto a cena em que ela conta aos pais e eles parecem lidar com o fato com ainda mais naturalidade. Não acredito que seja normal que um pai aceite tranquilamente o fato de sua filha de 16 anos estar grávida e ter decidido sozinha que vai doar a criança.

Vendo entrevistas sobre o filme, com a atriz Ellen Page e o diretor Jason Reitman, percebi que, para eles, o filme é sobre uma garota que amadurece rápido demais, então acredito que entendi melhor o sucesso do filme. Não, não concordo que ela amadureça, pelo contrário. Acho que ela se nega a amadurecer, assim como a maioria (todos) dos personagens do filme. O fato de o filme legitimar essa negação faz com que pessoas reais que também usam desse artifício se sintam acolhidas pela obra.

Posso estar errado. Até porque, não tenho também maturidade suficiente para analisar tantas pessoas de forma tão enfática. Porém, a partir do momento em que um filme assim faz tanto sucesso nos EUA, um país em crise, e principalmente entre os adolescentes, não acredito que seja um bom sinal. Espero não ser tachado careta ou moralista, apesar de ser um pouco este o tom do texto, mas não consigo exaltar um descaso tão grande com as responsabilidades quanto este filme faz.

Os Indomáveis

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Enquanto Ethan e Joel Coen criam sua obra-prima – Onde os Fracos Não Têm Vez – que tenta decretar o fim do gênero faroeste no cinema americano, como o fim de uma visão romântica do oeste, e Andrew Dominik tenta transformar este mesmo estilo em algo mais contemplativo e estético, porém vazio de conteúdo – O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford –, James Mangold acreditou que não havia o que mudar, e decidiu criar um faroeste aos moldes dos clássicos de meados do século passado.

Os Indomáveis é uma refilmagem de Galante e Sanguinário, filme de 1957. O filme é a saga de Daniel Evans, um pobre rancheiro que escolhe escoltar um perigoso bandido até uma cidade próxima, para colocá-lo no trem para a prisão de Yuma. Dan é um ex-combatente da Guerra da Secessão, que sobreviveu ao combate entre norte e sul, mas perdeu uma perna e o respeito de seu filho mais velho. Com o desenvolvimento da cidade, uma companhia quer passar o trem pelas terras de Dan, mas ele fará de tudo o que puder para continuar ali.

Não cheguei a conferir o original, assim como não tenho muito conhecimento em faroestes, mas este parece ser um típico filme do gênero, fora a presença de Russel Crowe que não convence muito como alguém fora da época atual. Christian Bale, que havia surpreendido em O Sobrevivente, não tem uma atuação brilhante, mas convence bem como o rancheiro angustiado e sem perspectivas que assume todos os riscos para cuidar de sua família.

Mais do que qualquer coisa, Os Indomáveis fala sobre a honra e a dignidade, ou a falta delas. Desde as primeiras cenas já chega a haver uma cumplicidade entre o vilão Ben Wade e Dan Evans. Mais do que admiração, há respeito estre eles, principalmente por serem ambos dignos e honrados, mesmo que o primeiro seja um fora-da-lei com dezenas de mortes nas costas. Os dois personagens encontram no outro seu oposto, sendo eles a versão do bem e do mal de um mesmo ideal de homem.

O filme não teve a mesma repercussão dos outros dois faroestes modernos. Talvez, principalmente, por não tentar subverter o gênero que há muito já havia ficado relegado às sessões de clássicos das videolocadoras mais abastecidas. Mas é justamente nessa tentativa de seguir os princípios do faroeste que a obra consegue exercer o seu maior fascínio. Em uma época dominada pela descrença refletida por Onde os Fracos Não Têm Vez, e pela extrema superficialidade de O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford, o longa de Mangold acaba deixando ao espectador a sensação de um pequeno fio de esperança.

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