Arquivo para abril \17\UTC 2008

Falsa Loura

É muito fácil perceber, logo de cara, que Falsa Loura é um filme ruim. Já pelo elenco não é difícil imaginar o que se pode esperar para a sessão. Apesar de ser protagonizado pela bela e valorizada Rosanne Mulholland, o longa conta com as estranhas presenças de Cauã Reymond, Mauricio Mattar, Suzana Alves, Léo Áquila e a participação especial de Luiz Henrique, mais conhecido pelo seu personagem na TV Gazeta, Mamma Bruschetta. Nem mesmo Djin Sganzerla, filha do grande cineasta Rogério Sganzerla e de sua musa, Helena Ignez parece conseguir salvar a obra.

No filme, parece que todos os personagens penam por uma superficialidade inexplicável para um cineasta experiente como Carlos Reichenbach. Mais inexplicável ainda é saber que Falsa Loura já foi considerado por alguns como o melhor filme do diretor. Que dirá os outros, imagina o leitor. Grande parte dessa superficialidade se explica logo pela opção pelo brega, que já se percebe na escolha do elenco, de bastante apelo popular. A música, um de seus temas, também torna constrangedora a sessão da maioria daqueles que vêem o filme. Principalmente por ser executada pelos astros Maurício Mattar e Cauã Reymond. Este, naturalmente, canta apesar dos apelos contra do diretor musical.

Rosanne é Silmara, uma jovem operária, bastante descolada, que causa inveja de grande parte de suas colegas, chegando a despertar comentários maldosos sobre seus costumes noturnos. Seus grandes ídolos da música são o roqueiro Bruno de André, representado por Cauã, e Luís Ronaldo, vivido por Mattar. Enquanto tenta tornar a caipira Briducha sua pupila, apesar da ingenuidade da garota que esconde seu belo corpo em trajes de senhoras, ela acaba tendo a oportunidade de viver a paixão com os dois músicos. Em ambas as histórias, ela aprende uma grande lição de vida.

Logo no caso da Briducha, já se vê que o tema principal do filme é que nem tudo é o que parece. É o que é uma Falsa Loura. No decorrer do longa, várias situações vão deixando claro esta máxima, como o irmão travesti da protagonista, suas histórias, e mesmo sua relação com o pai. Ele, aliás, tem um coincidente paralelo com a vida real. O pai de Silmara é acusado de um crime, que ninguém consegue provar sua culpa, apesar de fortes evidências. Rosanne, é filha de Timothy Mulholland, que acaba de deixar a reitoria da UnB por suspeitas de desvio de verba.

Mas, apesar do grande constrangimento que é assistir ao filme, fica fácil ir sacando que tudo nele gira em torno deste ponto em comum. Silmara, em diferentes momentos, repete que “se a lenda é melhor que o fato, divulgue a lenda”. É o que acontece sempre, toda a obra é uma grande enganação, tudo aparenta ser uma coisa e logo se vê que não é bem assim. Inclusive o próprio filme. Falsa Loura consegue ser genial em dissolver uma grande profundidade narrativa em uma história que parece não ter nada além da superficialidade. Falsa Loura é um ótimo filme, que prova que, mesmo no cinema, as aparências enganam.

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Um Beijo Roubado

Existe alguma dor pior do que a de perceber que, não importa o que você faça, aquela pessoa com quem você imaginou viver pelo resto de seus dias nunca mais voltará a falar com você? Talvez, pior do que isso, apenas a angústia de acreditar, a cada dia, que aquela situação ficará bem e que tudo voltará como antes. Elizabeth, personagem de Norah Jones no novo filme de Wong Kar Wai, Um Beijo Roubado, passa por isso, mas logo percebe que não é a única que sofre por conta de um coração abandonado.

Para tentar reatar, ela passa a freqüentar um bar que o namorado costumava ir, mas que nunca mais apareceu. Lá, conhece Jeremy, o solitário dono do local, que fincou sua vida naquele estabelecimento e não tem mais intenção de sair de lá, uma vez que também foi abandonado e quer estar ali quando sua amada decidir voltar atrás e procurar por ele. Mas ele mesmo sabe que não vai, assim como Elizabeth sabe que o ex já está vivendo uma outra vida. Ambos sabem que devem esquecer, mas querem a comodidade daquele fio de esperança. Até que ela decide mudar, e ele vê sua segunda chance sumir.

O chinês Wong Kar Wai tem uma marca bastante profunda em seu cinema, o coração partido. O Amor à Flor da Pele não é apenas o nome de um de seus principais filmes, mas um sentimento presente em grande parte de seus personagens, que geralmente amam sem reservas, e por isso, acabam na solidão. Kar Wai aponta os males da pós-modernidade, onde, mesmo em gigantescas cidades, como Hong Kong, Nova Iorque, ou qualquer outra, no meio de multidões, as pessoas se sentem sós.

Apesar de ser o primeiro filme ocidental do diretor, ele consegue se manter na mesma linha que fazia com sucesso em sua terra. Além das emoções latentes, as cores, que tanto chamam atenção em sua obra continuam com tanta intensidade, mesmo sem a presença do fotógrafo de grande parte de seus filmes, Christopher Doyle. Os verdes e vermelhos intensos também dividem a tela com o violeta, emprestado das tortas de mirtilo, o blueberry do nome original, My Blueberry Nights.

O título em português, aliás, perde muito ao tentar algo mais comercial ao invés de seguir os caminhos do diretor. Jeremy vende tortas em seu bar. Toda noite joga fora os pedaços que não foram consumidos. Toda noite percebe que a de mirtilo sequer foi tocada. Há escolhas na vida, e algumas tortas acabam sendo rejeitadas em lugar de outras, mais saborosas. É assim que se sentem algumas pessoas, alguns personagens, como uma torta de mirtilo, abandonada e prestes a ser jogadas no lixo. Porém, as noites de mirtilo podem reservar surpresas. Talvez alguém escolha aquela torta, e a livre de ser descartada.

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