Um Beijo Roubado

Existe alguma dor pior do que a de perceber que, não importa o que você faça, aquela pessoa com quem você imaginou viver pelo resto de seus dias nunca mais voltará a falar com você? Talvez, pior do que isso, apenas a angústia de acreditar, a cada dia, que aquela situação ficará bem e que tudo voltará como antes. Elizabeth, personagem de Norah Jones no novo filme de Wong Kar Wai, Um Beijo Roubado, passa por isso, mas logo percebe que não é a única que sofre por conta de um coração abandonado.

Para tentar reatar, ela passa a freqüentar um bar que o namorado costumava ir, mas que nunca mais apareceu. Lá, conhece Jeremy, o solitário dono do local, que fincou sua vida naquele estabelecimento e não tem mais intenção de sair de lá, uma vez que também foi abandonado e quer estar ali quando sua amada decidir voltar atrás e procurar por ele. Mas ele mesmo sabe que não vai, assim como Elizabeth sabe que o ex já está vivendo uma outra vida. Ambos sabem que devem esquecer, mas querem a comodidade daquele fio de esperança. Até que ela decide mudar, e ele vê sua segunda chance sumir.

O chinês Wong Kar Wai tem uma marca bastante profunda em seu cinema, o coração partido. O Amor à Flor da Pele não é apenas o nome de um de seus principais filmes, mas um sentimento presente em grande parte de seus personagens, que geralmente amam sem reservas, e por isso, acabam na solidão. Kar Wai aponta os males da pós-modernidade, onde, mesmo em gigantescas cidades, como Hong Kong, Nova Iorque, ou qualquer outra, no meio de multidões, as pessoas se sentem sós.

Apesar de ser o primeiro filme ocidental do diretor, ele consegue se manter na mesma linha que fazia com sucesso em sua terra. Além das emoções latentes, as cores, que tanto chamam atenção em sua obra continuam com tanta intensidade, mesmo sem a presença do fotógrafo de grande parte de seus filmes, Christopher Doyle. Os verdes e vermelhos intensos também dividem a tela com o violeta, emprestado das tortas de mirtilo, o blueberry do nome original, My Blueberry Nights.

O título em português, aliás, perde muito ao tentar algo mais comercial ao invés de seguir os caminhos do diretor. Jeremy vende tortas em seu bar. Toda noite joga fora os pedaços que não foram consumidos. Toda noite percebe que a de mirtilo sequer foi tocada. Há escolhas na vida, e algumas tortas acabam sendo rejeitadas em lugar de outras, mais saborosas. É assim que se sentem algumas pessoas, alguns personagens, como uma torta de mirtilo, abandonada e prestes a ser jogadas no lixo. Porém, as noites de mirtilo podem reservar surpresas. Talvez alguém escolha aquela torta, e a livre de ser descartada.

  1. Gostei da crítica, citei no meu blog! http://www.pimentanapipoca.blogspot.com
    Visite!!
    Bju

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