A Função Onírica da Sétima Arte

Quando se diz que a imagem vale mais do que mil palavras, talvez não esteja sendo levada em conta a opinião do cineasta polaco Jean Epstein. No entanto, o que o intelectual revela em seu texto O Cinema do Diabo, um apanhado de quatro de seus escritos que pode ser encontrado no livro A Experiência do Cinema, do teórico paulista Ismail Xavier, não somente reafirma o dito popular, como o leva a uma leitura da vida muito mais profunda do que a imaginada pela maioria dos que o usam.

Mais do que apenas uma indústria do entretenimento, o cinema é, segundo o texto, uma maneira de subverter a ordem vigente, mais do que qualquer texto escrito, pela impossibilidade deste de atingir as emoções irracionais. Isto principalmente depois do sistema proposto pelas teorias de René Descartes, fazendo com que a arte seja uma das poucas formas de sobreviver a um mundo que leva estes conceitos ao limite.

É muito comum se ouvir dizer que este ou aquele filme, como Tropa de Elite, ou mesmo que algum jogo de videogame, é prejudicial à cabeça daqueles que o assistem, já que induzem à violência. Nestes pré-julgamentos, leva-se em conta um dos pontos levantados por Epstein, o de que o cinema, a imagem em movimento, tem sobre a mente humana uma influência maior do que qualquer outro instrumento, levando as emoções para onde quiser.

Na verdade não seria maior do que qualquer instrumento. Apenas um conseguiria ser maior ou igual: o sonho. É sabido por aqueles que estudam o aspecto psíquico dos homens, que o sonho é uma forma da mente expurgar alguns tipos de comportamento que não podem ser mostrados na realidade, ou seja, um tipo de higienizador mental sem o qual o equilíbrio psíquico não é possível. Assim, existem as teorias de que os loucos ou psicopatas não sonham, ou sonham pouco, o que faz com que eles tenham que exprimir estas suas vontades no mundo exterior.

O cinema, como uma forma do homem fabricar sonhos, consegue funcionar desta mesma forma, diria o polaco. Desta forma, um filme que fala sobre os aspectos mais vis e baixos da sociedade são muito mais úteis e corretos do que algum que só demonstre qualidades e emoções boas. A obra audiovisual serve também como um exorcista do homem, assim como o sonho, ou mesmo como toda forma de arte, mas de uma forma mais abrangente.

A arte tem uma função muito mais importante do que a simples questão estética ou histórica. O homem pode usar a sua sensibilidade para criar obras em que seus pensamentos mais primitivos podem vir à tona e se tornar algo bom. Não raro é uma ONG se instalar em alguma favela ensinando crianças sobre música, pintura, artes cênicas ou circo. Ultimamente, até mesmo o cinema tem entrado em pauta nestas escolas voluntárias. Talvez fosse mais fácil ensinar aos jovens alguma profissão, algo que lhes dê sustento no futuro, o que isto não trará, porém, o que está em jogo não é a felicidade, mas a evolução das mentes.

É possível que este tipo de atitude dos mais abastados não tenha este objetivo. Pode ser apenas uma forma de tirar o jovem da marginalidade, fazendo com que se tenha um pouco mais de paz e sossego nos bairros mais ricos no futuro. Mesmo assim, além de colocar para fora a violência que poderia nascer destes alunos, esta medida pode chegar a alcançar um objetivo ainda maior, elevando intelectualmente estas cabeças, trazendo indiretamente o futuro melhor que se buscaria com as oficinas profissionalizantes.

Mais do que a arte comum, a que usa meios audiovisuais, como o cinema, consegue ir além. A imagem em movimento tem uma grande influência sobre as pessoas, seja para o bem ou para o mal. Quando um filme como Cidade de Deus ou Tropa de Elite se torna um sucesso, expondo a violência de uma forma bem produzida, faz o espectador ter a sensação de que foi ele quem matou os bandidos cariocas. Com o tempo, esta banalização da violência, que é criticada pela maior parte das pessoas, faz com que se apague nestes espectadores uma reprimida vontade de matar.

Para Jean Epstein, o cinema é como um imitador da psicanálise, o que explica que ambos nasceram com pouco tempo de diferença, em uma época em que eram muito necessários. O cineasta chega a chamá-lo de “arte-medicamento” ou de “prazer-válvula de escape”, para indicar sua certeza de que este pode servir com a função dos sonhos. Mais do que isto, ele revela que este é um instrumento transcartesiano.

Depois que Descartes decretou seu cogito, a racionalização tomou conta do pensamento humano, chegando a uma situação insuportável no século passado, o que só foi aliviado pela psicanálise e pelo cinema. Estes, ao mesmo tempo, puderam dar aos que os procuram, a dúvida existencial. Se “Penso, logo, sou”, quem eu sou? O que pode indicar que o mais certo pode ser “Penso, logo, não sou”, já que se descobre a imperfeição e o que está em falta. Se o pensamento cartesiano pode levar a humanidade à loucura, cabe ao cinema, este paladino da poesia, a salvação do planeta. Ou, ao menos, encontrar uma forma de se suportar as restrições cada vez mais presentes na civilização moderna.

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