Arquivo para agosto \31\UTC 2008

Os Desafinados

Músicos fazendo o papel de atores, atores tentando ser músicos. Não há distinção dentro de Os Desafinados, filme que retoma o tema da Bossa Nova em tempos que o cinema nacional se preocupa tanto apenas com questões sociais. Muitas vezes não por motivos nobres, apenas por ser o que vende melhor. Walter Lima Jr., que apesar de não ser músico foi um elemento presente nos tempos de criação do movimento musical, rememora alguns dos episódios que viu ou ouviu para compor o filme, que é lançado coincidentemente no momento em que se comemora 50 anos do ritmo.

O filme é de 2006, mas apenas agora, em 2008, foi possível achar um espaço para distribuir nos cinemas nacionais. Melhor para a divulgação da obra que conta despretenciosamente a luta de quatro jovens para serem reconhecidos em Nova Iorque, com a música que estava levando o Brasil para o resto do mundo na época, a década de 60. Rodrigo Santoro e Ângelo Paes Leme tiveram que aprender ou aprimorar seus lados musicais para compôr o pianista Joaquim e o saxofonista Davi. Acostumados aos palcos, Jair Oliveira e André Moraes aprenderam a lidar melhor com as câmeras, para viverem o baixista Geraldo e o baterista PC.

Não que o filme seja uma obra-prima digna das composições de Tom Jobim, Vinícius de Moraes ou João Gilberto, longe disso. Mas a leveza que traz foge à maioria dos títulos que estreiam quase que semanalmente nas telas. Longe das favelas, dos dramas sociais, da ditadura, ou mesmo de cinebiografias, Os Desafinados mostra um brasileiro que raramente aparece nos cinemas. Talvez um brasileiro que esteja mais presente em novelas globais, mas sem a banalização e o desrespeito à inteligência do espectador comum no gênero.

Não que o filme esteja completamente alheio aos temas comuns no cinema nacional hoje. Existem dramas sociais; o filme pode se assemelhar a uma cinebiografia, apesar de não contar vidas reais, apenas se inspirar nelas; e há também o fantasma da ditadura, presente no momento em que a história é contada; mas o foco não fica em nenhuma dessas questões. O que a obra aborda é a amizade de quatro jovens que têm em comum a paixão pela música; a amizade deles com um jovem cineasta, que mesmo não gostando da Bossa Nova, apóia os amigos em seus sonhos; e o fascínio dos cinco pela musa interpretada por Cláudia Abreu.

Em 2000, quando estreava nos cinemas o filme Bossa Nova, muitos apoiavam a obra, apesar da estética televisiva, por fugir da temática em voga nos filmes nacionais. Sem ter muito em comum com o movimento musical, o filme pecava por um roteiro tão fraco quanto suas interpretações. Ao contrário, Os Desafinados, consegue ser o que o longa de Bruno Barreto não foi capaz. Com experiência mais longa do que a vida do outro diretor, Walter Lima Jr. faz exatamente o tipo de filme que pediam aqueles que defendiam Bossa Nova. Pena não ter hoje quem vá a público saudar um lançamento como este.

Nossa Vida Não Cabe Num Opala

O cinema brasileiro não vai nada bem. Tropa de Elite, no ano passado, conseguiu fazer uma boa bilheteria, alavancando Meu Nome Não É Johnny, que continua como um dos mais vistos de 2008. Porém, depois disso, nada do que surgiu conseguiu convencer o público a pagar o ingresso e arriscar ver uma obra nacional. Produtores comemoram quando o filme chega ao patamar de 150 mil espectadores, e ainda culpam o público, os exibidores, os filmes americanos, entre outros, pelo seu fracasso anunciado.

Nossa Vida Não Cabe Num Opala é um bom filme que mereceria ser visto por um público maior do que estes 150 mil. Baseado na peça Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet, de Mário Bortolotto, o longa conta a história da família Castilho. Quatro decadentes irmãos que não conseguem evitar o fracasso depois da morte do pai. Os três homens tentam seguir a figura paterna, e levam a vida roubando carros, principalmente os opalas. Magali, a única mulher, tenta se manter longe deste abismo, sonhando ser pianista clássica, mas não obtêm muito sucesso. Enquanto isso, eles são observados pelo mau-caráter Gomes e pelo próprio pai. Ou o espírito dele.

A grande polêmica sobre o filme, e que mais chamou a atenção para ele quando foi exibido em festivais, foi quando Mário Bortolotto declarou que o roteiro era ruim, e que ele e o diretor Reinaldo Pinheiro tiveram um grande trabalho na montagem para desfazer os erros do renomado Di Moretti. Independente dos exageros do dramaturgo, que já tinha fama de ser ciumento com seus textos, quem assistiu ao filme e à peça, percebe bem o que ele quer dizer. Em busca de um sucesso comercial, Moretti descaracterizou o texto, mudou características essenciais de personagens, além de juntar dois em um só e desmembrar um em dois.

Bortolotto é um artista; Moretti é um técnico. Bortolotto escreve pela inspiração; Moretti, pensando no resultado final. Bortolotto não faz nenhuma concessão; Moretti faz todas as necessárias. Não é tão surpreendente então que o resultado tenha ficado tão aquém do que foi no teatro. Há qualidades no texto, que não havia na peça, mas as mudanças negativas são bem mais comuns que as positivas. Mário e até mesmo Reinaldo revelam que haviam muitas piadinhas colocadas pelo roteirista que foram limadas na edição. O filme, então, ficou bem menos engraçado, e muito mais superficial que a peça.

O filme pode ter a chance de conseguir uma bilheteria razoável. Porém, se tivesse sido corajoso de manter o texto original, ou ao menos grande parte dele, as chances seriam bem maiores. Pensar pelo viés comercial, nem sempre representa um resultado mais favorável, muitas vezes é exatamente o contrário. Mário Bortolotto, um artista marginal, difícil, que não faz concessões, ganha diversos prêmios, inclusive o prêmio Shell pela própria Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet. E lota os seus espetáculos. Talvez aí esteja o grande erro do cinema nacional. Por pensar demais no público, ele faz um cinema que não traz uma ousadia. Um cinema que não vale tanto a pena assistir.

Encarnação do Demônio

Depois do acidente com Morgan Freeman, muitos estão falando sobre uma possível maldição do filme Batman – O Cavaleiro das Trevas, que já perdeu o ator Heath Ledger e um técnico de efeitos especiais. Comparando com o que já viveu o cineasta brasileiro José Mojica Marins, isto não é nada. Maldições são constantes nos filmes do diretor, que já chegou a ver morrer duas atrizes para o mesmo personagem de um longa que até hoje não foi completado. Não foi muito diferente para o novo, Encarnação do Demônio.

O roteiro, que foi escrito em 1966, antes do lançamento do segundo filme da trilogia, Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver, iria ser filmado logo em seguida, não fosse a intromissão do Regime Militar. A censura não permitiu a feitura da terceira parte, já que o personagem é categoricamente contra a Igreja Católica. Após o projeto ser engavetado por quase uma década, uma nova esperança. Um produtor americano se interessou por levar às telas a história. Como era americano, ele podia.

Antes que tudo tivesse decidido, o homem faleceu de um câncer, e o projeto voltou para a gaveta. Mais dez anos e um novo produtor, um espanhol, decide filmar Encarnação do Demônio. Desta vez foi o coração que levou as esperanças de Mojica. Nos anos 90 foi um produtor brasileiro quem convenceu o cineasta retomar seu roteiro maldito e já desacreditado. Tudo estava indo muito bem, mas, sem grandes surpresas, este também veio a perder sua vida, de emoção, segundo o próprio diretor. Apenas na última década que o filme conseguiu sair do projeto finalmente, em uma produção corajosa de Paulo Sacramento.

O resultado nas telas foge muito do que era o Zé do Caixão dos anteriores À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver. O que era apenas implícito nos filmes anteriores, neste se torna bastante sanguinolento. A influência de filmes como Jogos Mortais é óbvia, sem sair do universo do personagem, um cético que só acredita na continuidade do sangue. José Mojica Marins não teve grande dificuldade em conseguir adaptar o personagem, e a narrativa, aos novos tempos. Se não for vítima de preconceito, o filme tem grandes chances de ser bem sucedido, encerrando de vez a maldição.

O que mais incomoda nisto tudo, no entanto, é a possibilidade. A censura dos anos 60 não enxergou no Mojica o homem crente que é, nem no Zé do Caixão o vilão dos filmes, indicando uma limitação crítica incrível. Limitação maior, no entanto é o que isto surtiu na carreira do cineasta. Se após tantos anos sem filmar, Mojica conseguiu habilmente, e com poucos recursos, se apropriar do que mais faz sucesso no cinema do gênero em todo o mundo, quem pode imaginar o que seria de sua carreira se não tivesse sido podada por uma ditadura artisticamente ignóbil. Esta sim, foi a verdadeira maldição.

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