Nossa Vida Não Cabe Num Opala

O cinema brasileiro não vai nada bem. Tropa de Elite, no ano passado, conseguiu fazer uma boa bilheteria, alavancando Meu Nome Não É Johnny, que continua como um dos mais vistos de 2008. Porém, depois disso, nada do que surgiu conseguiu convencer o público a pagar o ingresso e arriscar ver uma obra nacional. Produtores comemoram quando o filme chega ao patamar de 150 mil espectadores, e ainda culpam o público, os exibidores, os filmes americanos, entre outros, pelo seu fracasso anunciado.

Nossa Vida Não Cabe Num Opala é um bom filme que mereceria ser visto por um público maior do que estes 150 mil. Baseado na peça Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet, de Mário Bortolotto, o longa conta a história da família Castilho. Quatro decadentes irmãos que não conseguem evitar o fracasso depois da morte do pai. Os três homens tentam seguir a figura paterna, e levam a vida roubando carros, principalmente os opalas. Magali, a única mulher, tenta se manter longe deste abismo, sonhando ser pianista clássica, mas não obtêm muito sucesso. Enquanto isso, eles são observados pelo mau-caráter Gomes e pelo próprio pai. Ou o espírito dele.

A grande polêmica sobre o filme, e que mais chamou a atenção para ele quando foi exibido em festivais, foi quando Mário Bortolotto declarou que o roteiro era ruim, e que ele e o diretor Reinaldo Pinheiro tiveram um grande trabalho na montagem para desfazer os erros do renomado Di Moretti. Independente dos exageros do dramaturgo, que já tinha fama de ser ciumento com seus textos, quem assistiu ao filme e à peça, percebe bem o que ele quer dizer. Em busca de um sucesso comercial, Moretti descaracterizou o texto, mudou características essenciais de personagens, além de juntar dois em um só e desmembrar um em dois.

Bortolotto é um artista; Moretti é um técnico. Bortolotto escreve pela inspiração; Moretti, pensando no resultado final. Bortolotto não faz nenhuma concessão; Moretti faz todas as necessárias. Não é tão surpreendente então que o resultado tenha ficado tão aquém do que foi no teatro. Há qualidades no texto, que não havia na peça, mas as mudanças negativas são bem mais comuns que as positivas. Mário e até mesmo Reinaldo revelam que haviam muitas piadinhas colocadas pelo roteirista que foram limadas na edição. O filme, então, ficou bem menos engraçado, e muito mais superficial que a peça.

O filme pode ter a chance de conseguir uma bilheteria razoável. Porém, se tivesse sido corajoso de manter o texto original, ou ao menos grande parte dele, as chances seriam bem maiores. Pensar pelo viés comercial, nem sempre representa um resultado mais favorável, muitas vezes é exatamente o contrário. Mário Bortolotto, um artista marginal, difícil, que não faz concessões, ganha diversos prêmios, inclusive o prêmio Shell pela própria Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet. E lota os seus espetáculos. Talvez aí esteja o grande erro do cinema nacional. Por pensar demais no público, ele faz um cinema que não traz uma ousadia. Um cinema que não vale tanto a pena assistir.

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