Os Desafinados

Músicos fazendo o papel de atores, atores tentando ser músicos. Não há distinção dentro de Os Desafinados, filme que retoma o tema da Bossa Nova em tempos que o cinema nacional se preocupa tanto apenas com questões sociais. Muitas vezes não por motivos nobres, apenas por ser o que vende melhor. Walter Lima Jr., que apesar de não ser músico foi um elemento presente nos tempos de criação do movimento musical, rememora alguns dos episódios que viu ou ouviu para compor o filme, que é lançado coincidentemente no momento em que se comemora 50 anos do ritmo.

O filme é de 2006, mas apenas agora, em 2008, foi possível achar um espaço para distribuir nos cinemas nacionais. Melhor para a divulgação da obra que conta despretenciosamente a luta de quatro jovens para serem reconhecidos em Nova Iorque, com a música que estava levando o Brasil para o resto do mundo na época, a década de 60. Rodrigo Santoro e Ângelo Paes Leme tiveram que aprender ou aprimorar seus lados musicais para compôr o pianista Joaquim e o saxofonista Davi. Acostumados aos palcos, Jair Oliveira e André Moraes aprenderam a lidar melhor com as câmeras, para viverem o baixista Geraldo e o baterista PC.

Não que o filme seja uma obra-prima digna das composições de Tom Jobim, Vinícius de Moraes ou João Gilberto, longe disso. Mas a leveza que traz foge à maioria dos títulos que estreiam quase que semanalmente nas telas. Longe das favelas, dos dramas sociais, da ditadura, ou mesmo de cinebiografias, Os Desafinados mostra um brasileiro que raramente aparece nos cinemas. Talvez um brasileiro que esteja mais presente em novelas globais, mas sem a banalização e o desrespeito à inteligência do espectador comum no gênero.

Não que o filme esteja completamente alheio aos temas comuns no cinema nacional hoje. Existem dramas sociais; o filme pode se assemelhar a uma cinebiografia, apesar de não contar vidas reais, apenas se inspirar nelas; e há também o fantasma da ditadura, presente no momento em que a história é contada; mas o foco não fica em nenhuma dessas questões. O que a obra aborda é a amizade de quatro jovens que têm em comum a paixão pela música; a amizade deles com um jovem cineasta, que mesmo não gostando da Bossa Nova, apóia os amigos em seus sonhos; e o fascínio dos cinco pela musa interpretada por Cláudia Abreu.

Em 2000, quando estreava nos cinemas o filme Bossa Nova, muitos apoiavam a obra, apesar da estética televisiva, por fugir da temática em voga nos filmes nacionais. Sem ter muito em comum com o movimento musical, o filme pecava por um roteiro tão fraco quanto suas interpretações. Ao contrário, Os Desafinados, consegue ser o que o longa de Bruno Barreto não foi capaz. Com experiência mais longa do que a vida do outro diretor, Walter Lima Jr. faz exatamente o tipo de filme que pediam aqueles que defendiam Bossa Nova. Pena não ter hoje quem vá a público saudar um lançamento como este.

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