Arquivo para fevereiro \19\UTC 2009

Rio Congelado

Há em Rio Congelado, filme de estréia de Courtney Hunt, uma grande semelhança com o nacional Linha de Passe, último filme de Walter Salles Jr.. Em ambos, uma mãe solteira têm que ser forte para cuidar da família apesar do ambiente ríspido e das adversidades financeiras. Se no brasileiro, parte das dificuldades vinham do fato de Cleuza viver com seus quatro filhos na periferia paulistana, no estadunidense é frio próximo à fronteira com o Canadá que atrapalha ainda mais a sobrevivência de Ray e seus dois filhos.

Abandonada recentemente pelo marido, Ray precisa urgentemente de uma grande quantidade de dinheiro para pagar a prestação da casa que compraram juntos, sob o risco de perder a propriedade. O valor, que já estava guardado, foi roubado pelo pai de seus filhos, que sumiu sem dizer para onde. Em uma tentativa de encontrar o ex-companheiro, ela conhece Lila, uma índia Mohawk que trabalha como coiote, ajudando estrangeiros a entrarem ilegalmente no país através de terras da reserva. Desesperada para dar sustento aos filhos, Ray aceita ajudá-la.

Em ambos os filmes, as dificuldades fazem com que a família caminhe em uma corda bamba entre o legal e o ilegal, pendendo ora para cada lado. Não apenas a mãe de Rio Congelado flerta com a criminalidade, mas também o filho mais velho, TJ, na ingênua tentativa de dar ao irmão um simples presente de natal. Enquanto isso, as duas mães, Ray e Lila, complementam seus salários atravessando o rio do título, com o porta-malas ocupados por chineses ou paquistaneses. Não há a má intenção em nenhum dos casos, de qualquer filme, apenas uma questão de necessidade, de sobrevivência.

Nas duas histórias, o que há de sobra é a garra da mãe, que precisa enfrentar os problemas sem deixar o peso da maternidade derrubá-las. Cleuza rendeu à Sandra Corveloni o prêmio de melhor atriz em Cannes, Ray teve como resultado uma indicação ao Oscar para Melissa Leo. Ambas desconhecidas pelo grande público, mas merecidamente reconhecidas pelo grande trabalho. A impressionante atuação da mãe que só quer criar seus filhos é de uma pungência que chega a apertar o peito na simples lembrança da história.

Courtney Hunt escreve e dirige seu filme de estréia com tanta emoção que não é de se admirar que já conquiste uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original. E, ao contrário de outros casos, desta vez se pode garantir que seu nome na lista é mérito próprio, e não por ter trabalhado antes em clubes de stripper ou algo do tipo. O filme está longe da perfeição. A projeção digital chega a incomodar por vezes, e certos clichês quebram momentos de profunda emoção. Mas, esses momentos existem e batem forte, o que fazem de Rio Congelado um pequeno grande filme.

Rio Congelado (Frozen River, 2008, EUA)
Direção:
Courtney Hunt
Roteiro: Courtney Hunt
Elenco: Melissa Leo, Misty Upham, Charlie McDermott
97 Minutos

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Milk – A Voz da Liberdade

Há certos cineastas que eu realmente não consigo entender todo um endeusamento em cima deles. São diretores bons, reconheço, mas que me parecem superestimados pelos motivos errados. É o caso por exemplo de David Lynch, que tem ótimos filmes, mas que ultimamente tem sido cultuado por bobagens sem sentido – pelo menos ao meu ver. Outro caso é o de Gus Van Sant, que ficou famoso principalmente por um equivocado Elefante. Voltando a um cinema mais tradicional, o diretor aparece agora com Milk – A Voz da Liberdade.

Conhecido defensor de minorias, Harvey Milk foi o primeiro político estadunidense eleito apesar de ser homossexual assumido, ainda nos anos 70. Pouco depois, no entanto, é assassinado por um adversário. Quem dá corpo ao personagem é Sean Penn, que também entra com a alma no filme e muitas vezes se esquece de quem é que está na tela. Macho daqueles que bate na esposa, como já foi divulgado, o ator se entrega ao papel chegando quase a ultrapassar a barreira para um esteriótipo. Mesmo concorrendo com Mickey ‘Volta por Cima’ Rourke, Penn tem toda chance de levar o Oscar para casa.

Ao contrário dos últimos trabalhos de Van Sant, Milk até experimenta, mas não deixa que isto seja maior que a própria história do filme. A maior dessas ousadias, na verdade, nem é tão inovadora. Se tratando de um fato real, o diretor abusa de imagens de arquivo da época e mesmo de fatos retratados na história. Porém, neste caso, a fotografia granulada e opaca consegue deixar estas cenas documentais mais próximas do filme, sem ser apenas meras ilustrações e fazendo parte da narrativa.

A principal vantagem do filme sobre os últimos é que ele conta algo, seu roteiro é concreto, não apenas mostrando fatos. Além disso, também ao contrário deles, Milk não tenta justificar os atos de seus personagens – todos reais – por uma homossexualidade reprimida, como já havia acontecido em Elefante e em Últimos Dias, sob o pretexto de não assumir a responsabilidade de contar a vida dos assassinos de Columbine ou de Kurt Cobain.

Acredito que muitos dos fãs de Gus Van Sant vão sair decepcionados da sala de cinema, talvez até acusando seu ídolo de ter se vendido a um tal sistema careta. Não vejo, no entanto, qualquer traço careta em Milk, que defende não apenas os homossexuais, como qualquer minoria, e defende a “saída do armário” para que o mundo perceba que não há como tentar fugir de um problema que está apenas na cabeça de muitos. A união de um bom diretor, um grande ator e um roteiro coeso, permite ao mundo tentar entender melhor as razões de Harvey Milk.

Milk – A Voz da Liberdade (Milk, 2008, EUA)
Direção:
Gus Van Sant
Roteiro: Dustin Lance Black
Elenco: Sean Penn, Emile Hirsch, James Franco.
128 Minutos

O Lutador

Famoso durante os anos 80, Phillip Andre passou a ter uma série de problemas a partir dos anos 90. Além dos maus-tratos à sua própria família, sua carreira na luta livre consumiu seu corpo. Nos ringues, conquistava marcas e cicatrizes. Fora deles, o uso de drogas e esteróides para melhorar seu desempenho. Desta forma seu declínio foi visível tanto fisicamente quanto profissionalmente, até que se desse conta disso e, em uma tentativa de retomar sua vida social, conseguiu uma excêntrica volta por cima. Apesar de esta não ser a história do filme O Lutador, de Darren Aronofsky, as semelhanças são grandes.

Assim como Phillip, que prefere atender por Mickey Rourke, o personagem do filme também não gosta de ser chamado pelo seu nome de batismo, Robin Ramsinski, mas de Randy Robinson. E é a questão da identidade que carrega todo o filme que rendeu o prêmio de melhor ator em Cannes para Rourke. Da mesma forma que muito é falso na vida de um ator, que precisa lidar com sentimentos que não são próprios, os lutadores de luta livre também fazem suas encenações e cultuam um corpo artificial, que empolgue mais o público.

Randy, que era famoso nos anos 80, ainda é um nome conhecido no mundo da luta, mas sua vida não passa de uma grande ilusão. Morando em um trailer, ele mal tem dinheiro para se sustentar, gastando quase tudo com as drogas ou roupas de luta e tinta para os cabelos. Após abandonar sua filha pequena, a única pessoa com quem ele tem uma relação mais próxima é com Cassidy, nome também falso da stripper vivida por Marisa Tomei. A amizade, porém, é restrita ao clube e mediante pagamento. Apenas quando percebe que está próximo da morte que ele tenta voltar a ser um pouco mais Robin Ramsinski.

As semelhanças entre as duas histórias podem facilitar a atuação de Mickey, que segundo alguns dizem apenas interpretou a si mesmo. Porém, é difícil assumir erros, ainda mais alguns tão antigos, diante de uma câmera para todo o mundo. E foi enfrentando suas dificuldades e assumindo o desafio de interpretar a si próprio que Rourke fez notar sua capacidade cênica. A forma como o bruto tenta agir para mostrar que também ama impacta no peito do espectador. Seus medos, sua insegurança em dizer para Cassidy ou para sua filha que ele teme a solidão parecem doer mais do que qualquer golpe.

Nos ringues, Randy aguenta qualquer coisa. Em uma das lutas, ele sai com o corpo todo ferido, sangrando por toda parte, com cacos de vidro e grampos espalhados em si, mas com uma serenidade de que aquela dor vai passar, que aquelas feridas podem deixar alguma cicatriz, mas que vão deixar de incomodar em pouco tempo. Quando ele se assume como Robin, sabe que se se machucar, não há curativo que resolva. Sabe que qualquer cicatriz, por menor que seja, machuca por toda a vida. Assim como deveria saber o ator de 9 e ½ Semanas de Amor quando optou largar a fama pelos ringues.

O Lutador (The Wrestler, 2008, EUA/França)
Direção:
Darren Aronofski
Roteiro: Robert D. Siegel
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood
115 Minutos

Operação Valquíria

Cada vez mais, o Nazismo ou a Segunda Guerra Mundial é um tema recorrente no cinema. Este ano, diversas produções abordaram o assunto, com Um Homem Bom, com Viggo Mortensen, ou O Leitor, com Ralph Fiennes, cada um sob um ponto de vista diferente. Mesmo Quentin Tarantino, atualmente está rodando sua própria visão da época em Inglorious Bastards, com Brad Pitt e Leonardo diCaprio, em um misto de comédia e trash, como costuma fazer. Tom Cruise, não querendo ficar para trás, também tratou de conceber sua própria versão, com Operação Valquíria.

Polêmico, o longa logo chamou atenção por diversos fatores, na maioria ligados mais ao ator do que ao filme propriamente dito. Segundo boatos, o exército alemão demorou a permitir as gravações nas locações escolhidas por não quererem se envolver com alguém da cientologia. Cruise logo se prontificou a desmentir, afirmando que as filmagens correram bem, apesar de inúmeras vezes em que foi adiada a data de estréia. Mais do que fechado na questão de que há muitos filmes sobre o tema, ou de que este teve divergências durante a produção, o problema neste caso é bem mais amplo.

Operação Valquíria, estrelado e produzido por Tom Cruise, e dirigido por Bryan Singer, conta a história real do coronel nazista Claus von Stauffenberg. Apesar de estar no exército de Hitler, o oficial ficou conhecido por ter arquitetado uma das tentativas de assassinato sofridas pelo Führer. O coronel é um dos poucos dentro do sistema a perceber que estar a favor do nazismo é estar contra a Alemanha, por isso não se preocupa em trair seus juramentos se for pra salvar seu próprio povo. Quando encontra um grupo do alto escalão com o mesmo pensamento, surge o plano para eliminar o líder.

O grande mérito do personagem, então, foi ter tentado matar Hitler. Como todos sabem, mesmo a maioria que nunca tinha ouvido em falar em Stauffenberg, o coronel não teve sucesso em seu objetivo. O filme, então, é como que uma homenagem póstuma a um fracassado pela sua boa intenção. A história pode ser interessante, mas qual o estimulo de uma obra que endeusa alguém que não conseguiu realizar a única coisa pela qual ela poderia obter prestígio? Talvez, se o roteiro não se focasse apenas naquele personagem, mas falasse sobre o grupo, com um ponto de vista diferente, poderia não ser tão cansativo.

O maior problema de Operação Valquíria, então, é o próprio Tom Cruise. O ator e produtor parecia querer algo que o endeusasse também no tema tão em moda. E, apesar de não ter intenções tão boas, fracassou assim como seu personagem. A opção por Bryan Singer torna tudo ainda mais constrangedor. Diretor de X-Men e Superman – O Retorno, ficou claro que ele deveria transformar o coronel alemão em um quase super-herói. Só esqueceram que, neste tipo de história, o bem sempre vence o mal. E se Adolf Hitler derrotou Claus von Stauffenberg, subentende-se que ele seja o herói.

Operação Valquíria (Valkyrie, 2008, EUA/Alemanha)
Direção:
Bryan Singer
Roteiro: Christopher McQuarrie, Nathan Alexander
Elenco:Tom Cruise, Kenneth Branagh, Tom Wilkinson
121 Minutos

O Leitor (filme)

Quando Michael Berg, personagem vivido na fase adulta por Ralph Fiennes em O Leitor, adoece na porta de uma casa e é ajudado por uma estranha, ele não sabe que aquele momento será decisivo para mudar toda a sua vida, para causar uma dor e culpa imensa, da qual ele jamais irá se livrar. É por essa dor, que Berg já não consegue mais se relacionar com as mulheres que conhece, ou mesmo com sua filha, que sempre sentiu sua falta, mesmo quando ele ainda estava presente.

É Hanna Schmitz quem o ajuda. Interpretada por Kate Winslet, em um papel que lhe rendeu um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar, a personagem acaba atraindo o rapaz de apenas 15 anos, até que eles iniciam um relacionamento que alterna entre sexo e leituras de clássicos. Mais tarde, ele descobre ser ela, na verdade, uma criminosa de guerra, nazista. Todo o filme é uma reflexão de Berg, já adulto, sobre a relação intensa dele com essa mulher 20 anos mais velha. Apesar de ficarem juntos por pouco tempo, ele nunca conseguiu se livrar dessa relação.

Diretor de As Horas, Stephen Daldry segue, muitas vezes milimetricamente, outras com algumas liberdades poéticas, o livro de Bernhard Schlink, no qual o filme O Leitor se baseia. Porém, nos momentos em que a história ganha mais intensidade, Daldry, ou o roteirista David Hare, preferem se ausentar. A amargura de Berg, muito mais presente na versão cinematográfica, não tem tantos motivos quanto na versão impressa. Mesmo o grande segredo da obra, a grande vergonha de Hanna, é percebida facilmente nos trailers, enquanto camuflada no livro.

Impossível seria transcrever toda a história do papel para a película, mesmo com pouco menos de 250 páginas. Mas há momentos incisivos que foram cortados, assim como muitas passagens dispensáveis, que mesmo atrapalham o fluir da trama, mas estão lá. Cenas postas de uma forma muitas vezes didática para que o público se lembre delas quando surgir a grande revelação de Hanna, mas que, de tão didáticas deixam claro este segredo.

É belíssima a história de Michael e Hanna nas telas, com grande vantagem para a primeira parte, quando ele ainda está com seus 15 anos. A interpretação de Kate Winslet é realmente merecedora de prêmios. Se ela vai bem em Foi Apenas um Sonho, em O Leitor ela vai além como a ex-nazista dura e sofrida, que aos poucos revela seus traços de humanidade e feminilidade. Por tantas coisas, o filme realmente vale a pena. Porém, com um pouco mais de tempo, é melhor ler o livro e contemplar a história por inteiro.

O Leitor (The Reader, 2008, EUA)
Direção:
Stephen Daldry
Roteiro: David Hare
Elenco: Kate Winslet, Ralph Fiennes, David Kross
124 Minutos

O Leitor (livro)

Será que quando a pessoa nasce, ela é responsável por tudo o que seus antepassados fizeram até então? Quando alguém se apaixona, ela deve carregar nas costas todo o peso da vida do outro, independente de ainda não fazer parte daquilo quando aconteceu? Como se pode questionar quem você ama e lhe demonstrar afeto quando sabe que o fardo dessa pessoa é maior do que você pode carregar? Esse drama de consciências pesadas e amores mal realizados é o centro do livro O Leitor, de Bernhard Schlink, que a editora Record lança na carona do filme de Stephen Daldry.

Michael Berg é um homem fechado, amargurado, que não consegue se resolver sentimentalmente por ficar preso ao seu passado. Aos 15 anos, ele se envolve com Hanna Schmitz, 20 anos mais velha, com quem aprende muito sobre a vida e a sexualidade. Na cama, um ritual. Ele lia para ela, depois tomavam banho e faziam sexo, antes que ele tivesse que voltar para casa. Meses depois, após ela tê-lo deixado, sem explicações, ele a descobre em um julgamento de um crime nazista, como a principal acusada.

O conflito do personagem se dá em dois momentos, primeiro por ele ainda se perceber amando uma mulher que foi cúmplice de um dos crimes mais bárbaros do século XX. Depois, que ele nota que há nela um segredo, uma vergonha, pela qual ela prefere ser condenada como assassina em vez de revelar. Berg, estudante de direito, procura saber qual o certo: dizer a todos o que sabe e trair a mulher que ama, ou deixar que ela se afunde por algo que não pode ser responsabilizada.

Em um momento do livro, logo após a decisão de Berg, ele diz não sentir mais frio, mesmo estando em uma nevasca. A ausência de sentimento é o resultado de seu medo de amar alguém maculado por um crime brutal, além da culpa eterna por acreditar que podia ter feito a diferença mas errou. Michael é frio, seus relacionamentos não funcionam. Seus pais sentem a sua distância, assim como a esposa e a filha. A única pessoa a quem ele quer se dar é Hanna, mas a Hanna de quando ele ainda não sabia quem ela era.

Setenta anos após o início da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha começa a se livrar dessa dor, dessa culpa que Michael Berg sentiu. Bernhard Schlink nasceu em 1944, não chegou a conviver com a guerra, mas acompanhou de perto o pós-guerra, o momento em que as gerações seguintes sofriam por ter em seus pais cúmplices de tamanha atrocidade. Talvez um fardo difícil demais para todo um povo carregar, mas que é impossível de se deixar de lado, de se esquecer e tocar a vida para frente.

Dúvida

Dentre os filmes bons que surgem, há uma pequena minoria que possui um diferencial. São aqueles que falam com o espectador, se contextualizando em sua história, independente de quando ele seja visto. São os filmes atemporais, na maioria sobre a natureza humana, que se tornam clássicos. Há também os bons filmes que acabam se perdendo no tempo, que falam com a época em que foram lançados, mas poucos anos depois ainda valem pela história ou pelas belas cenas, mas não dizem nada além disso. Dúvida, de John Patrick Shanley, poderia se enquadrar ao menos neste segundo caso, mas não consegue.

Em um colégio católico, em 1964, chega um novo aluno que demanda uma atenção especial dos superiores. Donald Miller é negro. O primeiro estudante negro aceito naquela instituição, comandada pela Irmã Aloysious, interpretada com louvor por Meryl Streep. Philip Seymour Hoffman é o Padre Flynn, que parece próximo demais do garoto. Os atos do religioso e do menino fazem com que a freira suspeite da existência de algum tipo de abuso sexual na relação, principalmente quando consegue informações pela personagem de Amy Adams, Irmã James, professora do menino.

A dúvida do título causa um forte embate psicológico entre Streep e Hoffman, dois atores que já provaram suas capacidades de segurar fortes personagens. A tensão que ronda o filme do início ao fim, com cada vez mais provas ou suposições do que pode ou não ter acontecido entre o padre e o aluno, prende a atenção e envolve o espectador, mostrando que Shanley mereceu quando ganhou o Pulitzer pela peça de 2004, que agora adapta para os cinemas, com roteiro e direção seus.

O dramaturgo, porém, pecou por deixar o tempo passar. Se lançado, assim como a peça, durante o governo Bush, um governo cheio de incertezas políticas e morais, o filme seria certamente um daqueles que representam uma época fazendo com que cada um possa refletir melhor sobre o tempo em que vivem. O erro foi ter lançado Dúvida apenas no final de 2008 – ou no começo de 2009, em países como o Brasil. Mesmo que a era das incertezas retorne, a eleição de Obama representa a era da renovação, da esperança, o que esvazia ideologicamente o filme neste momento.

Não que seja um mal filme, por ter sido lançado na época errada. Mesmo filmes datados, que dizem muito apenas quando são lançados, possuem certo valor com o passar do tempo, ainda que não tragam aquele impacto do momento com que dialoga. A desvantagem é que Dúvida não chegou a ter tempo de causar esse impacto. O filme veio tarde, chegou quando aquilo a que veio falar já tinha passado. Não precisava mais de novas reflexões. Mesmo com os problemas, com a crise, o tempo das dúvidas passou, tirando de Shanley, no cinema, a oportunidade que ele pôde ter no teatro.

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