Dúvida

Dentre os filmes bons que surgem, há uma pequena minoria que possui um diferencial. São aqueles que falam com o espectador, se contextualizando em sua história, independente de quando ele seja visto. São os filmes atemporais, na maioria sobre a natureza humana, que se tornam clássicos. Há também os bons filmes que acabam se perdendo no tempo, que falam com a época em que foram lançados, mas poucos anos depois ainda valem pela história ou pelas belas cenas, mas não dizem nada além disso. Dúvida, de John Patrick Shanley, poderia se enquadrar ao menos neste segundo caso, mas não consegue.

Em um colégio católico, em 1964, chega um novo aluno que demanda uma atenção especial dos superiores. Donald Miller é negro. O primeiro estudante negro aceito naquela instituição, comandada pela Irmã Aloysious, interpretada com louvor por Meryl Streep. Philip Seymour Hoffman é o Padre Flynn, que parece próximo demais do garoto. Os atos do religioso e do menino fazem com que a freira suspeite da existência de algum tipo de abuso sexual na relação, principalmente quando consegue informações pela personagem de Amy Adams, Irmã James, professora do menino.

A dúvida do título causa um forte embate psicológico entre Streep e Hoffman, dois atores que já provaram suas capacidades de segurar fortes personagens. A tensão que ronda o filme do início ao fim, com cada vez mais provas ou suposições do que pode ou não ter acontecido entre o padre e o aluno, prende a atenção e envolve o espectador, mostrando que Shanley mereceu quando ganhou o Pulitzer pela peça de 2004, que agora adapta para os cinemas, com roteiro e direção seus.

O dramaturgo, porém, pecou por deixar o tempo passar. Se lançado, assim como a peça, durante o governo Bush, um governo cheio de incertezas políticas e morais, o filme seria certamente um daqueles que representam uma época fazendo com que cada um possa refletir melhor sobre o tempo em que vivem. O erro foi ter lançado Dúvida apenas no final de 2008 – ou no começo de 2009, em países como o Brasil. Mesmo que a era das incertezas retorne, a eleição de Obama representa a era da renovação, da esperança, o que esvazia ideologicamente o filme neste momento.

Não que seja um mal filme, por ter sido lançado na época errada. Mesmo filmes datados, que dizem muito apenas quando são lançados, possuem certo valor com o passar do tempo, ainda que não tragam aquele impacto do momento com que dialoga. A desvantagem é que Dúvida não chegou a ter tempo de causar esse impacto. O filme veio tarde, chegou quando aquilo a que veio falar já tinha passado. Não precisava mais de novas reflexões. Mesmo com os problemas, com a crise, o tempo das dúvidas passou, tirando de Shanley, no cinema, a oportunidade que ele pôde ter no teatro.

  1. Me surpreendi com “A Dúvida”.
    Não estava dando o mínimo crédito para o filme, mas achei que a ambiguidade que o diretor conseguiu criar é o ponto alto do longa, fora as atuações. Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman não decepcionam e dão brilho extra à história. Achei o diálogo com a mãe do menino especialmente tocante também. Um belo filme.

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