Milk – A Voz da Liberdade

Há certos cineastas que eu realmente não consigo entender todo um endeusamento em cima deles. São diretores bons, reconheço, mas que me parecem superestimados pelos motivos errados. É o caso por exemplo de David Lynch, que tem ótimos filmes, mas que ultimamente tem sido cultuado por bobagens sem sentido – pelo menos ao meu ver. Outro caso é o de Gus Van Sant, que ficou famoso principalmente por um equivocado Elefante. Voltando a um cinema mais tradicional, o diretor aparece agora com Milk – A Voz da Liberdade.

Conhecido defensor de minorias, Harvey Milk foi o primeiro político estadunidense eleito apesar de ser homossexual assumido, ainda nos anos 70. Pouco depois, no entanto, é assassinado por um adversário. Quem dá corpo ao personagem é Sean Penn, que também entra com a alma no filme e muitas vezes se esquece de quem é que está na tela. Macho daqueles que bate na esposa, como já foi divulgado, o ator se entrega ao papel chegando quase a ultrapassar a barreira para um esteriótipo. Mesmo concorrendo com Mickey ‘Volta por Cima’ Rourke, Penn tem toda chance de levar o Oscar para casa.

Ao contrário dos últimos trabalhos de Van Sant, Milk até experimenta, mas não deixa que isto seja maior que a própria história do filme. A maior dessas ousadias, na verdade, nem é tão inovadora. Se tratando de um fato real, o diretor abusa de imagens de arquivo da época e mesmo de fatos retratados na história. Porém, neste caso, a fotografia granulada e opaca consegue deixar estas cenas documentais mais próximas do filme, sem ser apenas meras ilustrações e fazendo parte da narrativa.

A principal vantagem do filme sobre os últimos é que ele conta algo, seu roteiro é concreto, não apenas mostrando fatos. Além disso, também ao contrário deles, Milk não tenta justificar os atos de seus personagens – todos reais – por uma homossexualidade reprimida, como já havia acontecido em Elefante e em Últimos Dias, sob o pretexto de não assumir a responsabilidade de contar a vida dos assassinos de Columbine ou de Kurt Cobain.

Acredito que muitos dos fãs de Gus Van Sant vão sair decepcionados da sala de cinema, talvez até acusando seu ídolo de ter se vendido a um tal sistema careta. Não vejo, no entanto, qualquer traço careta em Milk, que defende não apenas os homossexuais, como qualquer minoria, e defende a “saída do armário” para que o mundo perceba que não há como tentar fugir de um problema que está apenas na cabeça de muitos. A união de um bom diretor, um grande ator e um roteiro coeso, permite ao mundo tentar entender melhor as razões de Harvey Milk.

Milk – A Voz da Liberdade (Milk, 2008, EUA)
Direção:
Gus Van Sant
Roteiro: Dustin Lance Black
Elenco: Sean Penn, Emile Hirsch, James Franco.
128 Minutos

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