Rio Congelado

Há em Rio Congelado, filme de estréia de Courtney Hunt, uma grande semelhança com o nacional Linha de Passe, último filme de Walter Salles Jr.. Em ambos, uma mãe solteira têm que ser forte para cuidar da família apesar do ambiente ríspido e das adversidades financeiras. Se no brasileiro, parte das dificuldades vinham do fato de Cleuza viver com seus quatro filhos na periferia paulistana, no estadunidense é frio próximo à fronteira com o Canadá que atrapalha ainda mais a sobrevivência de Ray e seus dois filhos.

Abandonada recentemente pelo marido, Ray precisa urgentemente de uma grande quantidade de dinheiro para pagar a prestação da casa que compraram juntos, sob o risco de perder a propriedade. O valor, que já estava guardado, foi roubado pelo pai de seus filhos, que sumiu sem dizer para onde. Em uma tentativa de encontrar o ex-companheiro, ela conhece Lila, uma índia Mohawk que trabalha como coiote, ajudando estrangeiros a entrarem ilegalmente no país através de terras da reserva. Desesperada para dar sustento aos filhos, Ray aceita ajudá-la.

Em ambos os filmes, as dificuldades fazem com que a família caminhe em uma corda bamba entre o legal e o ilegal, pendendo ora para cada lado. Não apenas a mãe de Rio Congelado flerta com a criminalidade, mas também o filho mais velho, TJ, na ingênua tentativa de dar ao irmão um simples presente de natal. Enquanto isso, as duas mães, Ray e Lila, complementam seus salários atravessando o rio do título, com o porta-malas ocupados por chineses ou paquistaneses. Não há a má intenção em nenhum dos casos, de qualquer filme, apenas uma questão de necessidade, de sobrevivência.

Nas duas histórias, o que há de sobra é a garra da mãe, que precisa enfrentar os problemas sem deixar o peso da maternidade derrubá-las. Cleuza rendeu à Sandra Corveloni o prêmio de melhor atriz em Cannes, Ray teve como resultado uma indicação ao Oscar para Melissa Leo. Ambas desconhecidas pelo grande público, mas merecidamente reconhecidas pelo grande trabalho. A impressionante atuação da mãe que só quer criar seus filhos é de uma pungência que chega a apertar o peito na simples lembrança da história.

Courtney Hunt escreve e dirige seu filme de estréia com tanta emoção que não é de se admirar que já conquiste uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original. E, ao contrário de outros casos, desta vez se pode garantir que seu nome na lista é mérito próprio, e não por ter trabalhado antes em clubes de stripper ou algo do tipo. O filme está longe da perfeição. A projeção digital chega a incomodar por vezes, e certos clichês quebram momentos de profunda emoção. Mas, esses momentos existem e batem forte, o que fazem de Rio Congelado um pequeno grande filme.

Rio Congelado (Frozen River, 2008, EUA)
Direção:
Courtney Hunt
Roteiro: Courtney Hunt
Elenco: Melissa Leo, Misty Upham, Charlie McDermott
97 Minutos

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