Arquivo para março \18\UTC 2009

Gran Torino

Basta assistir ao novo filme de Clint Eastwood, Gran Torino, para entender porque neste longa o cineasta passou completamente despercebido pela Academia, dentre os indicados ao Oscar. Não que o filme seja ruim, pelo contrário, mas ele foge bastante do que se costuma ver nestas listas, como é o caso de A Troca, do mesmo diretor. Mesmo sendo um drama muitas vezes pesado, o filme tem momentos cômicos em todo o seu decorrer, chegando em cenas que a platéia desaba em gargalhadas pela atuação propositalmente forçada de Clint.

Dá para se fazer um paralelo do filme com o clássico Karatê Kid, por mais estranho que isto possa parecer a princípio, mas a história dos dois filmes muitas vezes se encontra. A grande diferença é que, desta vez, o mestre é um veterano de guerra estadunidense e o aprendiz é um imigrante chinês. Walt Kowalski é um viúvo recente extremamente preconceituoso e xenófobo. Mesmo com as tentativas do padre de socialização, o homem que lutou na guerra da coréia prefere ficar sozinho em casa, bebendo cerveja apenas com a companhia de sua cadela Daisy. Enquanto isso, reclama do aumento de chineses na vizinhança.

Os problemas com os vizinhos aumentam quando Thao, um garoto confuso da casa ao lado, tenta roubar o Ford Gran Torino de Walt, a mando de uma gangue local. Sem querer, no entanto, Kowalski acaba salvando a vida do garoto, o que o torna um herói no bairro. Aos poucos, contando principalmente com a ajuda de Sue, irmã do jovem, os dois vão aprendendo a conviver e ensinando muito sobre a vida um para o outro. Tal qual Karatê Kid, o menino aprende a se tornar um homem e a se defender, e o senhor ganha companhia e um objetivo a mais na vida.

A atuação de Eastwood, apesar de muito boa, não é nem um pouco convincente aqui. Walt Kowalski é um sujeito amargurado, recluso, esperando apenas o momento de sua morte, para pagar seus muitos pecados e se juntar à sua amada esposa que acaba de falecer. Porém, o eterno caubói cria a partir disto um personagem extremamente envolvente, daqueles que o espectador irá querer como seu avô ou ainda vizinho. As caras e bocas que o ator faz, ainda, o coloca junto ao antigo Jim Carrey no hall dos grandes careteiros de Hollywood, o que deixa o filme mais leve e divertido.

Apesar de tudo isso, o tema é bastante pesado. Dentro de Walt, que se assemelha a Frankie de Menina de Ouro, há uma culpa difícil de ser esquecida. Thao, juntamente com Sue, está ameaçado por um grupo de criminosos, que querem tentar de tudo para destruir suas esperanças. O preconceito e o conservadorismo fala alto no longa, fugindo do discurso dos filmes anteriores do diretor. Assim, diante de tantos poréns, é fácil notar como, mesmo sendo bom, Gran Torino não foi indicado a nenhuma categoria no Oscar.

Gran Torino (2008, EUA)
Direção:
Clint Eastwood
Roteiro: Nick Schenk
Elenco: Clint Eastwood, Bee Vang, Ahney Her
116 Minutos

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Watchmen – O Filme

Allan Moore bem que avisou. Já na década de 80, quando Watchmen foi lançado em graphic novel, o autor convenceu o cineasta Terry Gilliam a desistir da idéia de adaptar a série para os cinemas, afirmando que seria impossível. Que o longa não conseguiria pegar as nuances e ficaria superficial. Dave Gibbons, o ilustrador, nunca teve problemas com isso, tanto que entrou no projeto da Warner para a adaptação realizada por Zack Snyder, o mesmo que já havia levado para as telas a HQ 300, de Frank Miller.

A história não é mesmo algo tão simples para caber em quase três horas de filme. Watchmen é um grupo já separado de super-heróis em um universo paralelo, onde não existiu o escândalo do Watergate e onde Nixon foi capaz de fazer os EUA saírem vitoriosos na guerra do Vietnã, com a ajuda do Dr. Manhattan, o único deste grupo a ter superpoderes reais, após ser exposto a energia nuclear. Os outros, meros mortais com uniformes, acabaram sendo hostilizados pela população, que os achavam acima da lei.

Quem mais ajudava nesta visão das pessoas era o Comediante, um mascarado das antigas, ultradireitista, que não se importava em matar mulheres e crianças quando achava conveniente. Além dele e de Manhattan, havia Rorschach, Ozymandias, Coruja, e a bela Jupiter. Quando um destes heróis é misteriosamente assassinado, os outros passam a acreditar que podem estar em risco, e que a melhor forma de se salvarem é se reunirem e lutarem contra este mal desconhecido.

A história é interessantíssima. Uma completa desconstrução do super-herói americano. O iconoclasta Allan Moore, no entanto, estava certo de não querer sequer ter seu nome vinculado ao longa, ou mesmo assistir ao filme ou ao trailer. A superficialidade nas telas é imensa e a história acaba se tornando boba, hollywoodiana no pior sentido do termo. Já nos primeiros minutos, uma introdução de pouco menos de cinco minutos ao som de Bob Dylan, contando a origem dos heróis, já renderia um filme próprio.

A edição, para tentar melhorar esta questão do pouco tempo para muita informação, acaba fazendo um vai e vem que só deve confundir a maioria dos espectadores. Sem se atentar ao máximo na trama, é fácil acabar se perdendo sem perceber se aquela cena se passa no presente, 1985, no passado recente, ou mesmo em um passado distante. O elenco de quase desconhecidos consegue segurar bem seus papeis, com destaque para Jackie Earle Haley, de Pecados Íntimos, na pele de Rorschach. Mas, com tantos problemas, a falta de um nome mais conhecido só fará com que poucos se interessem pela obra.

Watchmen – O Filme (Watchmen, 2009, EUA)
Direção:
Zack Snyder
Roteiro: David Hayter, Alex Tse
Elenco: Patrick Wilson, Malin Akerman, Jackie Earle Haley
160 Minutos

O Menino da Porteira

Em 2005, muitos torceram o nariz para Dois Filhos de Francisco por ser a cinebiografia da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. Lançado o filme, o público foi avassalador, fazendo com que grande parte dos chamados formadores de opinião repensassem sua conduta e fossem ao cinema conferir. A maioria acabou confessando a qualidade da obra, que é hoje uma das mais importantes do cinema nacional atual. Em 2009, o caso parece se repetir, tomadas as devidas proporções, com O Menino da Porteira, de Jeremias Moreira.

Ao contrário do que muitos imaginam, não se trata de uma cinebiografia do cantor Daniel, seguindo os passos do filme anterior. Apenas é mais um filme sertanejo que surge, timidamente, tentando conquistar espaço em um país que teima em não se assumir como de maioria sertaneja. Jeremias não é um oportunista, tentando ganhar com o sucesso do colega Breno Silveira. Em 1977, o diretor já havia dirigido um filme de mesmo nome. Daquela vez, o protagonista também era músico e gravou a canção-tema. Agora, Sérgio Reis é substituído por Daniel no papel do peão Diogo.

O boiadeiro acaba de chegar em um vilarejo com o gado do Major Batista, o grande fazendeiro da região. Lá, ele conhece o pequeno Rodrigo, que deseja ser peão como ele, e sempre está disposto a abrir a porteira para o gado passar. Assim como é apresentado ao pai do menino, Otacílio, inimigo político de Batista e líder de um grupo de sitiantes que querem promover a justiça social naquela região. Diogo não toma partido de ninguém, quer apenas ser um homem livre, independente. A forma como os fatos se sucedem, fazem com que tenha que se colocar, mudando a sorte de toda a cidade.

Em outros tempos, o sucesso da primeira versão foi grade, levando mais de 4 milhões de pessoas aos cinemas. Hoje, o público do filme nacional é bem mais modesto. Lançado em um fim de semana que concorre com um filme de super-heróis (Watchmen) e o grande ganhador do Oscar (Quem Quer Ser um Milionário?), O Menino da Porteira pode ser ainda mais prejudicado. Porém, o espectador de um filme como estes tende a ser justamente aquele que não costuma ir ao cinema. São as pessoas do interior, que querem se ver, em vez de só ver o eixo Rio-São Paulo ou enlatados americanos.

E não é apenas a presença de Daniel que pode chamar este público. Talvez por ter mais de 30 anos, o roteiro tem muitas qualidades. Sem deixar de ser popular e sem ser panfletário, ele passa por diversas questões políticas e sociais, que são bem amarradas com a narrativa. Inspirado na música de Teddy Vieira e Luizinho, o longa abusa de elementos típicos das histórias caipiras, com alguns personagens bastante caricatos, dando leveza à história. Mesmo que Daniel não seja um primor da atuação, seu personagem se encaixa aos seus limites, dando a impressão de que a falta de naturalidade seja problema de Diogo, não dele. Com uma história de amor para completar, O Menino da Porteira tem grandes chances de ajudar a ser este o grande ano do cinema nacional, se passar por cima do preconceito.

O Menino da Porteira (2009, Brasil)
Direção:
Jeremias Moreira
Roteiro: Jeremias Moreira, Carlos Nascimbeni
Elenco: Daniel, José de Abreu, Vanessa Giácomo
90 Minutos

Quem Quer Ser um Milionário?

Cores, belas imagens, ritmo alucinante, um sofrimento agudo e a busca pelo amor verdadeiro. Elementos que, juntos, com uma direção eficiente de alguém como o inglês Danny Boyle, de Trainspotting, e em forma de um conto de fadas pós-moderno, dificilmente pode não arrebatar os corações daqueles que assistem. Assim se explicam as oito estatuetas que Quem Quer Ser um Milionário? recebeu no Oscar 2009, ao ser indicado a 10 prêmios. Campeão absoluto, o melhor filme do ano segundo a academia hollywoodiana é do tipo de filme que agrada sem muita restrição.

Na Índia, Jamal Malik se torna uma celebridade ao chegar à última pergunta do programa de televisão Quem Quer Ser um Milionário?, uma espécie de Show do Milhão. Com a chance de receber o prêmio máximo, o jovem de 18 anos é preso por suspeita de fraude. Nunca na história do programa alguém tinha chegado tão longe, e um favelado, analfabeto, não era a pessoa que eles esperavam que atingisse esse posto. Na delegacia, o garoto precisa explicar, através de sua própria história de vida, como conseguiu acertar a todas as questões.

De alguém pobre, espera que seja apenas um malandro, que descobriu uma forma de forjar as respostas e levar um dinheiro fácil. Jamal, no entanto, revela que não se interessa pelo prêmio, só está lá para tentar reencontrar sua amada Latika. Assim, é o amor que conduz e amarra o roteiro de Simon Beaufoy, baseado na obra do escritor indiano Vikas Swarup. A história pode ser um tanto simplista, mas todo conto de fadas o é. Talvez seja exatamente isso que faça o sucesso do filme. Que cause tanto encanto.

Durante a produção, e após o resultado, Quem Quer Ser um Milionário? sempre foi comparado ao brasileiro Cidade de Deus. A fotografia, a edição, questões do personagem se assemelham nos dois filmes. O nacional se consolidou como uma obra de grande importância, uma referência mundial. O inglês, atingiu um sucesso mais imediato. A direção de um estrangeiro ajudou a fazer do filme muito mais do que uma análise social, como é o caso do Cidade de Deus. A Índia pobre e problemática aparece no longa, mas isto serve apenas como elemento narrativo, e não fica em primeiro plano.

Não apenas o Oscar. Quem Quer Ser um Milionário? ganhou a maioria dos prêmios ao qual concorreu, se consolidando como realmente o melhor filme de 2009, mesmo que em alguns anos sua importância acabe sendo bem menor do que a de uma obra como Cidade de Deus, que não alcançou tantos méritos. Mas, em uma época de crise, o filme cai perfeitamente. Ele se torna uma celebração da vida, uma prova, mesmo que na ficção, de que é vivendo que se aprende e de que é bobagem correr atrás dos bens materiais, o importante é a felicidade e o amor.

Quem Quer Ser um Milionário?
(Slumdog Millionaire, 2008, Inglaterra/França)

Direção:
Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy
Elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Irrfan Khan
120 Minutos

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