Valsa com Bashir

Poucas vezes um filme de guerra consegue ter uma posição que o diferencie dos demais. São raros os casos de longas que consigam sair do lugar-comum, daquela batida narrativa, encadeamento dos fatos, fotografia, entre tantas coisas. Valsa com Bashir o conseguiu de uma forma simples que teve um resultado estonteante, por, primeiro, se colocar como um documentário em primeira pessoa, e, ainda, por ser uma animação. Extremamente psicológico, a opção por não haver sido feito com pessoas de carne e osso, não só é esteticamente belo, como torna possível nas telas toda a viagem do subconsciente do diretor Ari Folman.

Tudo começa quando o cineasta é acordado por um amigo, Boaz Rein, que não consegue dormir por causa de um sonho recorrente há mais de dois anos. O fato nada mais representa para o restante do filme, é apenas o pontapé inicial de uma grande viagem pela mente humana, no caso a mente de Ari Folman. No pesadelo, uma matilha de 26 cães raivosos correm pelas ruas com o objetivo de matar Boaz, e a única coisa que ele sabe é que este sonho remete a um acontecimento do passado comum deles, quando ambos serviram no exército israelense durante a Guerra do Líbano, há mais de 20 anos.

Folman, então, se dá conta de não ter qualquer lembrança daquela época. Naquela noite, porém, ele se lembra de uma cena, em que ele está na praia diante de uma cidade em ruínas. Quando caminha pelas ruas desertas desse local, é surpreendido por dezenas de mulheres gritando em desespero. A imagem faz com que ele passe a investigar, entre amigos e outras pessoas que fizeram parte daquele momento, o que de tão terrível aconteceu ali, que fez com que seu cérebro simplesmente descartasse toda informação sobre aquele período. Ele vai entrevistando várias pessoas, inclusive um analista, para entender melhor sua mente.

Este é um ponto que causa ao mesmo tempo o estranhamento e a curiosidade do espectador. Valsa com Bashir não é um simples filme de guerra, mas um filme sobre as consequências da guerra na cabeça do cineasta. Folman vai aos poucos percebendo o que tentou esconder de si próprio durante toda a vida. Seu povo, sua origem, sua cultura é colocada em cheque por aquele momento marcante que ele, inconscientemente, decidiu esquecer. Ele percebe que de nada adianta eleger um inimigo, considerá-lo um monstro e fazer o mundo acreditar nisso, se quando se olha no espelho, você percebe que entre você e o monstro não há diferenças, que você pode cometer os mesmos erros que ele.

Por ir tão profundamente dentro de si, Ari Folman deixa escapar facilmente entre os traços dos desenhos uma carga forte de emoção que nunca chegaria se optasse por um filme de ficção ou se filmasse as cenas. Em Valsa com Bashir, ele coloca apenas o que ele vê, e assim o espectador vai fazendo suas descobertas e se surpreendendo junto a ele. Mesmo sendo uma animação, não é um filme fácil. O alto contraste e as cores vibrantes embelezam, mas não escondem o sentimento. A cena final, uma das mais chocantes do cinema, sozinha poderia ser julgada de diversas formas ruins, mas todo o encadeamento que é construído faz com que a obra desemboque naquilo de maneira natural, mas não menos chocante, tornando o filme ao mesmo tempo forte e magistral.

Valsa com Bashir (Vals Im Bashir, 2008, Israel)
Direção:
Ari Folman
Roteiro: Ari Folman
90 Minutos.

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