À Deriva

Apenas três cenas já são suficientes para resumir a profundidade das relações dentro da narrativa de À Deriva, novo filme de Heitor Dhália, que vai em um caminho inverso aos seus anteriores, O Cheiro do Ralo e Nina. Semelhantes, a primeira e a última imagem do drama mostram a personagem Filipa, vivida pela atriz iniciante Laura Neiva, flutuando no mar de Angra dos Reis. Na abertura do filme, a câmera fechada e por vezes sufocante de Dhália deixam a impressão de que a garota está só, até sermos surpreendidos pela presença de seu pai, Matias, papel de Vincent Cassel.

Algumas cenas depois, quando o conflito da personagem já está bastante desenvolvido, ele fala do livro que está escrevendo, que não se trata de uma história de separação, mas sim de confiança. Não é sobre a obra do personagem, escritor existencialista francês dos anos 80, que aquele texto remete, mas ao próprio À Deriva. A relação conturbada e de quebra de confiança entre o pai adultero e a filha que descobre a vida a dois, e também entre a mãe alcoólatra e a garota perdida nos conflitos da adolescência, são muito mais densos dentro da narrativa do que simplesmente a possibilidade da separação entre os personagens de Cassel e Debora Bloch.

Na praia, durante as férias, Filipa descobre que seu pai está traindo a mãe com uma vizinha norte-americana. No mesmo momento em que ela se vê em um período em que os hormônios começam a dominar os sentimentos, que passa a iniciar uma descoberta sexual com um garoto da turma de amigos, a menina sofre por não saber qual sua posição em relação à traição do pai, se deve ou não contar à mãe. No decorrer das férias, a família entra em um processo acelerado de degradação, observado de camarote pela filha mais velha.

Junto às descobertas dos prazeres da vida adulta, Filipa leva o pacote completo que a faz perceber que o mundo do faz-de-conta fica restrito ao universo infantil, e que ela não tem mais acesso a isto. As possibilidades do amor e a dureza da realidade aparecem juntos para a menina de apenas catorze anos, que pensava apenas passar mais umas férias tranquilas com seus pais e irmãos na praia. É um momento de descoberta, a separação talvez seja necessária, e sem uma percepção do universo não se pode ter a confiança necessária para seguir em frente, para superar os conflitos com sucesso. Não apenas no caso de Filipa, mas principalmente se tratando do próprio Heitor Dhália.

Depois de dois filmes em que passou para as telas uma história adaptada, fruto da parceria com Lourenço Mutarelli e Marçal Aquino, o cineasta sente a confiança para um trabalho mais pessoal. Nina, personagem do filme homônimo e Lourenço, de O Cheiro do Ralo, tinham uma visão restrita do mundo, estavam presos em seus mundos, como a infância de Filipa, inspirada na adolescência do próprio Heitor. Talvez a separação de Mutarelli e Aquino fossem necessárias para o diretor encarar no cinema a separação de seus próprios pais. Esta psicanálise nas telas, a tomada de consciência de um mundo mais amplo do que o de seus personagens anteriores, trouxeram a confiança para Dhália realizar uma obra que enterra de vez o passado mais infantil. Resta agora, conferir os belos frutos que esta maturidade profissional trará ao nosso cinema.

À Deriva (2009, Brasil)
Direção:
Heitor Dhália
Roteiro: Heitor Dhália
Elenco: Laura Neiva, Vincent Cassel, Debora Bloch
97 Minutos.

    • cyntiacalhado
    • 3 agosto, 2009

    Excelente crítica.
    A minha acabou de sair do forno, publico no Guia sexta.
    Bjos

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