Arquivo para agosto \20\UTC 2009

A Teta Assustada

Apenas o título do filme A Teta Assustada já causa um misto de repulsa e curiosidade na maioria dos espectadores. Apesar de adequado, o nome não consegue fazer prever em quem irá assistir à obra vencedora do Urso de Ouro em Berlim toda a agonia e incômodo causados pela história de Fausta, uma jovem peruana descendente de índios Quechua. No Brasil, o longa de Claudia Llosa foi apresentado, a princípio, como O Leite da Amargura. Em uma atitude rara, a Paris Filmes optou por manter a tradução literal, o que pode afastar alguns espectadores desavisados, mas só faz bem à obra.

O filme fala sobre o medo a partir do drama da jovem Fausta, e os conflitos que ela passa entre a vida em uma grande cidade e a manutenção de suas tradições. Em sua família, apenas ela e a mãe têm o devido respeito pela cultura de seu povo. Por exemplo, entre elas, ou em momentos de maior intimidade, preferem um falar cantado, no dialeto de seus antepassados, assim como estes faziam. Com a morte da mãe, porém, o tio da garota deixa claro que o modo de viver dela pode atrapalhar seus negócios. A moça, então, tem poucos dias para conseguir transportar o corpo para o local onde a mãe deve ser enterrada, ou o enterro não honrará o resto da vida da mulher.

Não bastasse, Fausta sofre de uma doença psicológica chamada de Teta Assustada. Quando sua mãe estava grávida, foi estuprada por guerrilheiros durante um conturbado período no Peru. O ato transmitiu ao feto um medo imensurável, que impede a jovem de ter uma vida normal. Em uma atitude desesperada, ela chega a manter uma batata dentro de sua vagina, imaginando ser a única forma que pode evitar sofrer a mesma violência que sua mãe. Apesar da repulsa, ou estranhamento, que pode se ter, não passa de um filme de amor, um amor pela vida que não se consegue ter.

Mais do que falar do drama de uma só mulher, Claudia Llosa revela o medo de seu país, um sentimento que pode ser ampliado para grande parte da América Latina. Não é apenas Fausta, mas toda uma geração de jovens apáticos, em diversos países, que herdam apenas um enorme e absurdo medo, mesmo que as causas deste ocorreram antes mesmo de seu nascimento. Além deste temor, este povo é diariamente provado a desistir de suas raízes, adotando um modo de vida que vai contra tudo o que seus antepassados acreditavam.

Em determinado episódio do longa, quando Fausta deixa escapar uma canção para mantê-la mais calma, sua patroa aproveita a música para tirar proveito próprio. A cultura é, sim, interessante, mas este mesmo que se interessa por ela, tenta vender uma imagem de que o importante é abandonar suas raízes e seguir o trilho mais fácil, mais comum. O brasileiro, apesar da proximidade física do Peru, pode se ver distante das questões tratadas no longa de Llosa. Não que não o diga respeito, mas por desprezar toda esta cultura. Mesmo abrindo mão disto, no entanto, a doença continua. Muitos ainda sofrem pela Teta Assustada, e a única cura é enfrentar o problema.

A Teta Assustada (La Teta Asustada, 2009, Peru)
Direção:
Claudia Llosa
Roteiro: Claudia Llosa
Elenco: Magaly Solier, Susi Sánchez, Efraín Solís
95 Minutos

Arraste-me Para o Inferno

Não há mais inocência no mundo. Depois de 11 de setembro, da guerra de Bush contra o terror e da crise mundial financeira que assola grande parte dos países nos últimos meses, o Planeta Terra está cada vez mais cru e sórdido. Nos cinemas é possível ver bem isto. Mesmo a Disney, que alimentou ilusões em todo o globo com seus contos de fadas, veio com Encantada, a história da princesa que literalmente cai na real e percebe que a vida não é tão perfeita assim. Depois do cinema infantil, só restava a inocência acabar nos filmes de terror. E é justamente o que acontece em Arraste-me Para o Inferno, a volta de Sam Raimi ao gênero depois de atingir o sucesso com Homem Aranha.

Com uma estética anos 80, remetendo ao seu sucesso Evil Dead, o diretor conta a história de Christine Brown, uma jovem recém-chegada do interior que almeja uma carreira de sucesso no sistema financeiro dos EUA. Trabalhando no setor de empréstimos de um banco, prestes a se tornar assistente da gerência, ela recebe a visita de uma velha senhora que lhe pede mais prazo para o pagamento da hipoteca. Para não perder a chance de conseguir a promoção, ela nega o pedido. A mulher, no entanto, é uma cigana, que amaldiçoa Christine. Agora, sua alma está na mão de um espírito do mal, que aterrorizará sua vida e a levará ao inferno em três dias.

Pelo menos isto é o que se percebe à primeira vista. Mas as coisas não são tão simples assim. Existem muitas nuances por trás deste novo filme de Raimi, coisas que passariam despercebidas facilmente, mesmo numa época como esta, mas que um olhar mais atento revela. Já é fácil perceber que existe algo bem diferente na obra. Ao contrário da maioria dos longas do gênero, principalmente estes dos anos 80, a protagonista não é uma moça boazinha, incapaz de qualquer tipo de maldade. Christine poderia ter sido assim em um passado remoto, mas a vida lhe ensinou a deixar de sentimentalismos e pensar no lado prático das coisas.

Uma protagonista que comete crueldades, como assassinar seu próprio gato de estimação, talvez mereça ser arrastada para o inferno através desta maldição que caiu sobre ela. Mas pode ser que não seja bem isso que o diretor quis dizer quando deu este título à obra. Christine era uma boa moça do interior, mas ao chegar à cidade grande foi fuzilada pelo “american way of life”. Gordinha, ela precisou emagrecer e se adaptar aos padrões de beleza vigentes. Na vida profissional, precisa ter sangue frio para lidar com a vida das pessoas, sem se preocupar com o caos que sua ação pode desencadear para famílias simples. No amor, tem um relacionamento com um jovem de boa índole, mas precisa provar aos pais dele que é a mulher ideal, aquela que vai fazê-lo crescer pessoal e profissionalmente, e não uma moça qualquer da fazenda.

Não é por culpa da velha cigana que Christine se torna uma pessoa vil, ela já era antes da mulher aparecer em sua vida. Esta, apenas foi o gatilho que definiu o futuro da jovem a curto prazo: ser arrastada para o inferno. A executiva ainda resiste em cometer estes atos cruéis, a princípio, mas a pressão que sofre no banco, na família de seu namorado, na sociedade, dá forças para que ela perca seu coração. Não existe uma maldição cigana nesta história. Os demônios que a garota enfrenta, são bem mais reais do que fantasmas de filmes de terror. É o modo de vida das capitais, o sistema financeiro norte-americano, que está arrastando a todos, cada vez mais, para o inferno.

Arraste-me Para o Inferno (Drag Me to Hell, 2009, EUA)
Direção:
Sam Raimi
Roteiro: Sam Raimi e Ivan Raimi
Elenco:
Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver
99 Minutos

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