A Teta Assustada

Apenas o título do filme A Teta Assustada já causa um misto de repulsa e curiosidade na maioria dos espectadores. Apesar de adequado, o nome não consegue fazer prever em quem irá assistir à obra vencedora do Urso de Ouro em Berlim toda a agonia e incômodo causados pela história de Fausta, uma jovem peruana descendente de índios Quechua. No Brasil, o longa de Claudia Llosa foi apresentado, a princípio, como O Leite da Amargura. Em uma atitude rara, a Paris Filmes optou por manter a tradução literal, o que pode afastar alguns espectadores desavisados, mas só faz bem à obra.

O filme fala sobre o medo a partir do drama da jovem Fausta, e os conflitos que ela passa entre a vida em uma grande cidade e a manutenção de suas tradições. Em sua família, apenas ela e a mãe têm o devido respeito pela cultura de seu povo. Por exemplo, entre elas, ou em momentos de maior intimidade, preferem um falar cantado, no dialeto de seus antepassados, assim como estes faziam. Com a morte da mãe, porém, o tio da garota deixa claro que o modo de viver dela pode atrapalhar seus negócios. A moça, então, tem poucos dias para conseguir transportar o corpo para o local onde a mãe deve ser enterrada, ou o enterro não honrará o resto da vida da mulher.

Não bastasse, Fausta sofre de uma doença psicológica chamada de Teta Assustada. Quando sua mãe estava grávida, foi estuprada por guerrilheiros durante um conturbado período no Peru. O ato transmitiu ao feto um medo imensurável, que impede a jovem de ter uma vida normal. Em uma atitude desesperada, ela chega a manter uma batata dentro de sua vagina, imaginando ser a única forma que pode evitar sofrer a mesma violência que sua mãe. Apesar da repulsa, ou estranhamento, que pode se ter, não passa de um filme de amor, um amor pela vida que não se consegue ter.

Mais do que falar do drama de uma só mulher, Claudia Llosa revela o medo de seu país, um sentimento que pode ser ampliado para grande parte da América Latina. Não é apenas Fausta, mas toda uma geração de jovens apáticos, em diversos países, que herdam apenas um enorme e absurdo medo, mesmo que as causas deste ocorreram antes mesmo de seu nascimento. Além deste temor, este povo é diariamente provado a desistir de suas raízes, adotando um modo de vida que vai contra tudo o que seus antepassados acreditavam.

Em determinado episódio do longa, quando Fausta deixa escapar uma canção para mantê-la mais calma, sua patroa aproveita a música para tirar proveito próprio. A cultura é, sim, interessante, mas este mesmo que se interessa por ela, tenta vender uma imagem de que o importante é abandonar suas raízes e seguir o trilho mais fácil, mais comum. O brasileiro, apesar da proximidade física do Peru, pode se ver distante das questões tratadas no longa de Llosa. Não que não o diga respeito, mas por desprezar toda esta cultura. Mesmo abrindo mão disto, no entanto, a doença continua. Muitos ainda sofrem pela Teta Assustada, e a única cura é enfrentar o problema.

A Teta Assustada (La Teta Asustada, 2009, Peru)
Direção:
Claudia Llosa
Roteiro: Claudia Llosa
Elenco: Magaly Solier, Susi Sánchez, Efraín Solís
95 Minutos

  1. O filme faz uma boa síntese de como a cultura indígena incorporou elementos dos colonizadores espanhóis. Tem uma crítica sobre isso em
    http://www.artigosdecinema.blogspot.com/2014/04/a-teta-assustada-la-teta-asustada.html

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