Arquivo para novembro \27\UTC 2009

Verdade Alternativa Podcast #2

Estreias de 27 de Novembro de 2009:

– A Trilha (A Perfect Getaway, EUA, 2009), de David Twohy;
Cidadão Boilesen (Brasil, 2009), de Chaim Litewski;
– Do Começo ao Fim (Brasil, 2009), de Aluízio Abranches;
– Eliezer Batista: O Engenheiro do Brasil (Brasil, 2009), Victor Lopes;
– Entre a Luz e a Sombra (Brasil, 2009), de Luciana Burlamaqui;
– Julie & Julia (EUA, 2009), de Nora Ephron;
– Planeta 51 (Planet 51, Espanha/Reino Unido, 2009), de Jorge Blanco;
– Tokyo! (França/Japão/Coreia do Sul, 2008), de Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho.

Música de fundo:

– 8º Anjo – 509-E (Entre a Luz e a Sombra)

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Cidadão Boilesen

Quando foi lançado no Brasil o filme Coco Antes de Chanel, biografia de uma das mais influentes estilistas do mundo, muito se falou sobre a omissão de seu envolvimento com o nazismo. Da mesma forma, se questionou o fato de, após o fim da guerra, alemães, franceses e gente de todo o mundo se tornasse, de repente, opositor ao sistema. Assim como na Europa, no Brasil aconteceu caso parecido. No início da década de 60, muitos empresários e instituições pediam o Golpe de Estado ao governo João Goulart e, mesmo durante a ditadura militar, foram financiadores dos golpistas. Com o retorno da democracia, no entanto, muitos deles comemoraram com o outro lado, sem sujar seus nomes, ou de suas empresas com a ligação anterior.

Mesmo mais de duas décadas após o fim do regime, apenas os militares são responsabilizados por atos contra a liberdade. Um passo para abrir a discussão é o lançamento do documentário de Chaim Litewski, Cidadão Boilesen. O filme conta a controversa ligação entre o dinamarquês Henning Boilesen, presidente da Ultragaz, e os militares da Operação Bandeirante, responsável pelo temido DOI-CODI. Membro ativo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a FIESP, o empresário não apenas financiava a tortura, como convencia outros industriários a fazer o mesmo. Além disso, Boilesen tinha a mórbida mania de estar presente quando revolucionários eram torturados, o que resultou em seu assassinato, em 1971.

Mais do que fazer um filme que demonize o personagem, ou mesmo apenas uma denúncia aos civis que financiaram a Oban, Chaim mergulhou durante dezesseis anos em um minucioso trabalho de pesquisa, que deu voz a todos os lados da história. Tomando o distanciamento necessário da história, o cineasta recolheu depoimentos desde funcionários da escola em que o personagem estudou na Europa ao filho de Boilesen, do coronel Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI, ao líder da ação que resultou na morte do empresário, Carlos Eugênio da Paz, sempre dando espaço para cada lado expor suas verdades, e quase sempre ouvindo o mesmo discurso, de que não foram apenas os militares os responsáveis pelo terror da ditadura, mas muitos civis.

Abusando de recursos audiovisuais, como músicas e filmes que retratam a época, e com a ajuda do produtor e montador Pedro Asbeg, Chaim criou um filme leve, didático e bastante emocionante, com uma edição lúdica e ágil que prende a atenção do espectador do início ao fim. A estrutura narrativa do filme já fascina o espectador. Aliando à riqueza de detalhes conquistada pelos anos de pesquisa, o filme alcança lugar de destaque entre os melhores documentários brasileiros lançados nos últimos anos, o que lhe rendeu, inclusive, o prêmio de melhor filme na edição de 2009 do festival É Tudo Verdade.

Seja pela estrutura, pelo apurado trabalho de pesquisa, ou pela força da história, o filme já merece ser visto. Porém, mais do que uma obra cinematográfica, Cidadão Boilesen é o instrumento para a mudança no pensamento do brasileiro. Em entrevistas, Chaim deixa clara a sua intenção de usar o filme para questionar tantos Boilesens que ainda estão vivos hoje, e que posam de defensores da democracia e da liberdade. Mais do que investigar o lado negro do empresário de origem dinamarquesa, o cineasta quer, com este polêmico filme e com os debates que ele pode suscitar, expor o lado negro da sociedade civil brasileira. Porém, este já não é um trabalho tão simples, já que a mesma elite que lutou às escondidas para apoiar a ditadura, ainda continua na surdina impedindo que este envolvimento venha a tona.

Cidadão Boilesen (2009, Brasil)
Direção:
Chaim Litewski
Roteiro: Chaim Litewski
93 Minutos

Verdade Alternativa Podcast #1 (teste)

Aqui está a novidade para o feriado, uma versão teste de um podcast que já há algum tempo pensava em fazer. O trabalho ainda está bem cru e não sei bem como (e se) ele vai se desenvolver no futuro. A ideia seria de algo mais completo, mas aos poucos vou estudando isto. De qualquer forma, espero que apreciem o esforço e me retornem com dicas, sugestões, críticas, etc, no meu email ravisantana@gmail.com.

Obrigado!

Deixa Ela Entrar

Muito foi falado sobre a sensação sueca Deixa Ela Entrar, dirigido por Tomas Alfredson a partir do livro de John Ajvide Lindqvist. Tido como um dos melhores filmes do ano, e um dos melhores filmes sobre vampiro de todos os tempos, o terror sueco choca por seu realismo, apesar do tema. Não se trata, então, de um filme de vampiros. Deixa Ela Entrar vai além e consegue ser um dos melhores retratos de um fenômeno que está se tornando morbidamente comum hoje em dia, o nascimento de um sociopata.

Frágil e inseguro, o jovem Oskar, de 12 anos, causa empatia imediata ao espectador por seu drama. Filho de pais separados, sem encontrar seu lugar em sua casa ou na escola, o menino sente-se sempre deslocado, o que facilita que seus colegas se aproveitem da situação. Alvo constante de bullying, Oskar está constantemente sozinho, com seus pensamentos, e só consegue se encontrar com a presença de sua nova vizinha, Eli. Saindo raramente de casa, também sem amigos, a menina se torna aquele complemento que faltava na vida de Oskar, apesar de ela ter algumas idiossincrasias que logo mostram que a garota não é tão frágil como ele.

Eli não tem 12 anos como ele, mas é uma eterna criança. Uma vampira que vive de cidade em cidade tentando se esconder enquanto se alimenta de vitimas de assassinatos cometidos por seu acompanhante, um suposto pai que é tratado quase como um escravo por ela. A garota logo percebe o sofrimento de Oskar e tenta criar nele uma coragem de colocar em ação seus pensamentos. Apesar de frágil, as constantes humilhações que o garoto sofre já surtem efeito em sua mente, que é cada vez mais sórdida. Aos poucos, a improvável amizade entre os dois faz com que ele comece a tomar coragem para mostrar quem é verdadeiramente.

O filme foi bastante comparado a outros longas de vampiros, sendo inclusive eleito o melhor filme do gênero desde Nosferatu, de 1922. Há outros gêneros no entanto, que Deixa Ela Entrar se encaixaria, conseguindo um resultado ainda melhor, como o de filmes que procuram explicar os constantes massacres em instituições, ou mesmo o de obras que tentam mostrar a origem de um assassino. Mesmo o tão comentado – e já quase esquecido – Elefante, de Gus Van Sant, é superado de forma brilhante pelo longa sueco.

Do meio para o fim do filme, um dialogo entre Eli e seu suposto pai deixam a pista para o espectador sobre o que está acontecendo de verdade ali. Mesmo não havendo qualquer fantasia desde o início da projeção – fora o detalhe de que vampiros, aparentemente, não existem –, aquele pequeno diálogo mostra que a realidade é ainda mais dura do que vimos até então. Não importa que sejam apenas duas crianças tentando encontrar seu lugar e sentindo o que presenciam em um mundo cruel. E até mesmo estas belas e frágeis crianças também fazem parte desta sórdida sociedade.

Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in, 2008, Suécia)
Direção:
Tomas Alfredson
Roteiro: John Ajvide Lindqvist
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar
115 Minutos

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