Deixa Ela Entrar

Muito foi falado sobre a sensação sueca Deixa Ela Entrar, dirigido por Tomas Alfredson a partir do livro de John Ajvide Lindqvist. Tido como um dos melhores filmes do ano, e um dos melhores filmes sobre vampiro de todos os tempos, o terror sueco choca por seu realismo, apesar do tema. Não se trata, então, de um filme de vampiros. Deixa Ela Entrar vai além e consegue ser um dos melhores retratos de um fenômeno que está se tornando morbidamente comum hoje em dia, o nascimento de um sociopata.

Frágil e inseguro, o jovem Oskar, de 12 anos, causa empatia imediata ao espectador por seu drama. Filho de pais separados, sem encontrar seu lugar em sua casa ou na escola, o menino sente-se sempre deslocado, o que facilita que seus colegas se aproveitem da situação. Alvo constante de bullying, Oskar está constantemente sozinho, com seus pensamentos, e só consegue se encontrar com a presença de sua nova vizinha, Eli. Saindo raramente de casa, também sem amigos, a menina se torna aquele complemento que faltava na vida de Oskar, apesar de ela ter algumas idiossincrasias que logo mostram que a garota não é tão frágil como ele.

Eli não tem 12 anos como ele, mas é uma eterna criança. Uma vampira que vive de cidade em cidade tentando se esconder enquanto se alimenta de vitimas de assassinatos cometidos por seu acompanhante, um suposto pai que é tratado quase como um escravo por ela. A garota logo percebe o sofrimento de Oskar e tenta criar nele uma coragem de colocar em ação seus pensamentos. Apesar de frágil, as constantes humilhações que o garoto sofre já surtem efeito em sua mente, que é cada vez mais sórdida. Aos poucos, a improvável amizade entre os dois faz com que ele comece a tomar coragem para mostrar quem é verdadeiramente.

O filme foi bastante comparado a outros longas de vampiros, sendo inclusive eleito o melhor filme do gênero desde Nosferatu, de 1922. Há outros gêneros no entanto, que Deixa Ela Entrar se encaixaria, conseguindo um resultado ainda melhor, como o de filmes que procuram explicar os constantes massacres em instituições, ou mesmo o de obras que tentam mostrar a origem de um assassino. Mesmo o tão comentado – e já quase esquecido – Elefante, de Gus Van Sant, é superado de forma brilhante pelo longa sueco.

Do meio para o fim do filme, um dialogo entre Eli e seu suposto pai deixam a pista para o espectador sobre o que está acontecendo de verdade ali. Mesmo não havendo qualquer fantasia desde o início da projeção – fora o detalhe de que vampiros, aparentemente, não existem –, aquele pequeno diálogo mostra que a realidade é ainda mais dura do que vimos até então. Não importa que sejam apenas duas crianças tentando encontrar seu lugar e sentindo o que presenciam em um mundo cruel. E até mesmo estas belas e frágeis crianças também fazem parte desta sórdida sociedade.

Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in, 2008, Suécia)
Direção:
Tomas Alfredson
Roteiro: John Ajvide Lindqvist
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar
115 Minutos

    • Thereza
    • 11 abril, 2010

    Olá, muito interessantes seus comentários.

    Sobre “Deixa ela entrar”, acho que Eli conversa não com o suposto pai mas com um ex-amante, alguém que, como Oskar, a acompanhou por algumas décadas até ficar velho demais para manter o interesse da garota ou levar comida para casa.
    Exatamente o que vai acontecer com Oskar um dia (e com as pessoas que mantêm relacionamentos com “vampiros”). Como piada, dá para dizer que é um filme sobre a importância de planejar a alimentação!

    • Thereza
    • 11 abril, 2010

    Ops… esqueci de ticar as notificações!

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