Arquivo para dezembro \24\UTC 2009

Ervas Daninhas (Les Herbes Folles)

O francês Alain Resnais nunca pode ser considerado um cineasta convencional. Na década de 60, mesmo do movimento da Nouvelle Vague, que se identificava com seus filmes, ele não chegou a participar. Aos 87 anos, Resnais continua ativo, produzindo filmes como Ervas Daninhas, que chega aos cinemas brasileiros neste Natal. A produção, mais do que demonstrar esta característica independente e vanguardista do diretor, revela que ele sabe bem usar a maturidade e a falta de pudores que se ganha com ela.

No filme, seguimos a cômica e, muitas vezes, dramática relação entre Georges e Marguerite depois que ela é assaltada e ele encontra sua carteira no estacionamento de um Shopping Center. Ao ver a fotografia daquela solitária dentista, o homem alimenta uma obsessão. Mesmo casado, pai de dois filhos, ele sabe que só irá sossegar quando se aproximar da mulher, mesmo que seus objetivos não estejam tão claros para ele. Esta complicada relação vai afetar Marguerite, que também fica sem saber se toma uma atitude para se livrar de Georges ou se entra no jogo.

O nonsense toma conta da película durante quase todo o tempo. Em um filme usual, esta história poderia render um suspense digno de exibição em um sábado a noite em algum canal de TV aberta. Quando se trata de Resnais, é diferente. Sua narrativa é solta, o filme não tem as amarras que teria se realizado por um jovem diretor. O francês foge do comum, a começar pelo visual de sua heroína. Apaixonada por aviação, Marguerite nada mais é do que uma versão feminina e melancólica do Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupery.

O fascínio, a fantasia, não ficam apenas nos trajes da personagem. O filme segue o tom. Que importa para a esposa de Georges, se ele está obcecado por outra mulher, se deseja ter um caso com ela. Não é este o conflito que o diretor explora em Ervas Daninhas, ele prefere deixar isto para os diretores prisioneiros do comum. Resnais quer ir além, quer explorar esta doentia relação. Ele quer mostrar até onde podem ir estas ervas daninhas que crescem em nossas mentes, nos chamando a cometer atos contra nossa própria natureza.

Georges é apaixonado por cinema, e é principalmente o cinema que o diretor quer atingir. Mais do que uma metalinguagem, Ervas Daninhas é uma sátira a sua própria natureza, à sétima arte. Mesmo quem ainda insistir em levar a sério esta obra, desiste no momento em que, após um beijo apaixonado, surge na tela um hollywoodiano The End, para depois o filme seguir em frente como se nada houvesse acontecido. Mesmo nos trailers já se percebe o caráter subversivo e satírico do diretor, que abole os métodos de seu próprio ofício. Em um cenário de ode às grandes produções, Ervas Daninhas é a prova de que a genialidade do cinema vai além de fórmulas prontas.

Ervas Daninhas (Les Herbes Folles, 2009, França)
Direção:
Alain Resnais.
Roteiro: Alex Reval e Laurent Herbiet.
Elenco: André Dussollier, Sabine Azéma e Emmanuelle Devos.
104 Minutos

A Princesa e o Sapo

O mais surpreendente no novo filme da Disney, A Princesa e o Sapo, não é o fato dele ser 2D, depois de tantas produções feitas em computação gráfica, nem mesmo por sua protagonista ser uma negra. A maior surpresa da animação infantil é ela ter sido feita para crianças. Depois de anos, é a primeira vez que um grande estúdio se lembra quem é seu público alvo. Hoje, preocupados mais com bilheteria, os roteiristas se ocupam em encher o filme de piadas para adultos, restando para os pequenos apenas personagens bonitinhos com bordões fáceis.

Depois de obras como Wall-E e Up, da parceria com a Pixar, a Disney optou por voltar aos seus tempos áureos em que retratava o mundo encantado das princesas – bem longe, aliás, da desconstrução que faz em Encantada. O nobre universo, assim, volta junto com os traços feitos a mão, que tinham sido deixados para trás desde Nem Que a Vaca Tussa, de 2004, e com a pretensa inocência que tinham os filmes infantis antes de descobrirem que jovens casais também poderiam se divertir – e consumir – esse tipo de obra.

Apesar do título, A Princesa e o Sapo não conta a história de uma princesa. Tiana, protagonista do longa está mais para uma vassala. Moradora da periferia de Nova Orleans, a heroína tem como ambição montar um restaurante, como era o sonho de seu esforçado pai. Para isso, ela dedica quase 24 horas de seus dias para o trabalho, não sobrando tempo para a diversão. O contrário é o príncipe Naveen, que tem uma vida boêmia sem responsabilidades, a ponto de seus pais tirarem tudo o que ele tem. Quando o falido nobre vai à Nova Orleans, conhece um feiticeiro vodu que o transforma em sapo. Pensando que Tiana é uma princesa, o malandro a convence a beijá-lo, transformando-a também.

Como não poderia deixar de ser, como se trata de um filme Disney, a moral é o ponto forte da obra. Durante boa parte da trama, os dois anfíbios estão em uma jornada para voltarem a ser humanos. Neste caminho, vão percebendo que para isso precisam se preocupar mais com aquilo que deixaram para trás durante suas vidas: a diversão, no caso dela, e a responsabilidade para ele. A história ainda resgata algo de Mágico de Oz, quando os personagens cruzam com um crocodilo músico, que sonha se tornar humano para não assustar ninguém ao tocar, e um vagalume sonhador, apaixonado por uma brilhante estrela.

Longe de ser um sinal de fracasso de bilheteria, a ousadia da Disney de honrar suas origens pode pegar de surpresa algumas pessoas já desacostumadas aos filmes infantis para crianças. Independente das polêmicas já causadas antes mesmo de seu lançamento – e há muitas passagens que ainda podem ser questionadas pelo caráter racista –, o longa ainda tem qualidades para agradar e emocionar o público. Mesmo que para isso, não seja preciso apelar para aquelas piadas em que adultos riem muito mais do que as próprias crianças.

A Princesa e o Sapo (The Princess and the Frog, 2009, EUA)
Direção:
Ron Clements e John Musker.
Roteiro: Ron Clements
97 Minutos

Verdade Alternativa Podcast #3

Estreias de 4 de Dezembro de 2009:

– Abraços Partidos (Abrazos Rotos, Espanha, 2009), de Pedro Almodóvar;
– Atividade Paranormal (Paranormal Activity, EUA, 2007), de Oren Peli;
É Proibido Fumar (Brasil, 2009), de Anna Muylaert;
– O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox, EUA, 2009), Wes Anderson.

Música de fundo:

– Werewolf – Cat Power (Trilha sonora de Abraços Partidos)

É Proibido Fumar

Sete anos depois de Durval Discos, a cineasta paulistana Anna Muylaert volta às telas com seu novo filme, É Proibido Fumar, estrelado por Glória Pires e Paulo Miklos. Com sua narrativa simples, por vezes pueril, e mais uma vez cercada pelo inusitado, a diretora consegue conquistar o público com a história de amor entre dois vizinhos. O filme chega às telas poucos dias após o Festival de Brasília, no qual recebeu um total de oito prêmios, sendo o grande vencedor do ano. O prêmio, no entanto, pode ser preocupante. A obra vale a pena, mas ser escolhida como a melhor do ano representa de duas uma: ou o festival está com problemas, ou a produção audiovisual do país que está.

No longa, Glória Pires vive Baby, uma solitária professora de violão que não tem grandes emoções em sua vida, a não ser brigar com suas irmãs pela herança de uma tia falecida. Romântica e sonhadora, ela percebe a esperança de um novo amor quando o músico Max, interpretado por Miklos, se muda para o apartamento ao lado. A possibilidade vira um tormento quando a alucinada fumante descobre que o novo namorado não suporta cigarro, e pede que ela pare de fumar. Disposta a tudo pelo amor de sua vida, que acaba de conhecer, ela decide parar. Aos poucos, conhecendo mais o vizinho, ela passa a questionar se vale a pena abrir mão de seu companheiro.

Ao contrário do que pode parecer, principalmente depois da lei idealizada pelo governador de São Paulo, José Serra, que proíbe o fumo em locais fechados, o filme não toma partido contra o temido cigarro. Na história, o fato apenas serve como pretexto para a mudança na personalidade de Baby, que se torna muito mais ansiosa e neurótica após a tentativa. Bem amarrada, a história vai acompanhando as alegrias e tristezas enfrentadas pela solitária Baby em busca de um relacionamento estável. Pontuando, a diretora aproveita para colocar diversas aparições especiais, que vai desde sua família, como o ex-sogro, Antonio Abujamra, o ex-marido André Abujamra, e o filho José, até estreantes nas telas, como a cantora Pitty.

No geral, o longa se sai bem, mas deixa a desejar. Quando surgem os letreiros finais, em vez de vir uma sensação de realização – ou de quero mais – o que surge no espectador é um sentimento de que algo ainda está faltando. As emoções em É Proibido Fumar são muitas, mas não chegam a transpassar a tela para atingir o público. O que fica é apenas aquele sentimento bom, de contentamento, mas que passa logo que as luzes acendem. Apesar de muitas semelhanças com Durval Discos, o filme perde por ficar aquém dele, fazendo com que a expectativa atrapalhe ainda mais o resultado final.

Por melhor que seja a trilha sonora, mesmo que Glória Pires e Paulo Miklos tenham se encaixado bem em seus personagens, por mais que as participações especiais deem uma levantada no tom do filme ou que as metáforas deem um encanto especial para a história, apesar de tantas qualidades, nada justifica no filme que ele seja o grande vencedor de um festival nacional tão tradicional, levando sete prêmios. Felizmente o país produz obras bem melhores que esta, e cada vem mais vemos estes filmes chegando nas telas e, aos poucos, conquistando o público. Merecendo ou não seus sete troféus Candango, É Proibido Fumar é mais um que merece a apreciação pública.

É Proibido Fumar (2009, Brasil)
Direção:
Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Glória Pires, Paulo Miklos, Marisa Orth
90 Minutos

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