Ervas Daninhas (Les Herbes Folles)

O francês Alain Resnais nunca pode ser considerado um cineasta convencional. Na década de 60, mesmo do movimento da Nouvelle Vague, que se identificava com seus filmes, ele não chegou a participar. Aos 87 anos, Resnais continua ativo, produzindo filmes como Ervas Daninhas, que chega aos cinemas brasileiros neste Natal. A produção, mais do que demonstrar esta característica independente e vanguardista do diretor, revela que ele sabe bem usar a maturidade e a falta de pudores que se ganha com ela.

No filme, seguimos a cômica e, muitas vezes, dramática relação entre Georges e Marguerite depois que ela é assaltada e ele encontra sua carteira no estacionamento de um Shopping Center. Ao ver a fotografia daquela solitária dentista, o homem alimenta uma obsessão. Mesmo casado, pai de dois filhos, ele sabe que só irá sossegar quando se aproximar da mulher, mesmo que seus objetivos não estejam tão claros para ele. Esta complicada relação vai afetar Marguerite, que também fica sem saber se toma uma atitude para se livrar de Georges ou se entra no jogo.

O nonsense toma conta da película durante quase todo o tempo. Em um filme usual, esta história poderia render um suspense digno de exibição em um sábado a noite em algum canal de TV aberta. Quando se trata de Resnais, é diferente. Sua narrativa é solta, o filme não tem as amarras que teria se realizado por um jovem diretor. O francês foge do comum, a começar pelo visual de sua heroína. Apaixonada por aviação, Marguerite nada mais é do que uma versão feminina e melancólica do Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupery.

O fascínio, a fantasia, não ficam apenas nos trajes da personagem. O filme segue o tom. Que importa para a esposa de Georges, se ele está obcecado por outra mulher, se deseja ter um caso com ela. Não é este o conflito que o diretor explora em Ervas Daninhas, ele prefere deixar isto para os diretores prisioneiros do comum. Resnais quer ir além, quer explorar esta doentia relação. Ele quer mostrar até onde podem ir estas ervas daninhas que crescem em nossas mentes, nos chamando a cometer atos contra nossa própria natureza.

Georges é apaixonado por cinema, e é principalmente o cinema que o diretor quer atingir. Mais do que uma metalinguagem, Ervas Daninhas é uma sátira a sua própria natureza, à sétima arte. Mesmo quem ainda insistir em levar a sério esta obra, desiste no momento em que, após um beijo apaixonado, surge na tela um hollywoodiano The End, para depois o filme seguir em frente como se nada houvesse acontecido. Mesmo nos trailers já se percebe o caráter subversivo e satírico do diretor, que abole os métodos de seu próprio ofício. Em um cenário de ode às grandes produções, Ervas Daninhas é a prova de que a genialidade do cinema vai além de fórmulas prontas.

Ervas Daninhas (Les Herbes Folles, 2009, França)
Direção:
Alain Resnais.
Roteiro: Alex Reval e Laurent Herbiet.
Elenco: André Dussollier, Sabine Azéma e Emmanuelle Devos.
104 Minutos

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