Arquivo para janeiro \28\UTC 2010

O Limite do Cinema Brasileiro

Em 2009, nosso cinema viveu um de seus melhores momentos. Apesar de o Brasil ter poucas salas, a maioria concentrada em grandes cidades, a popularização do filme brasileiro é cada vez maior, e esse cinema que há muito vem engatinhando pode sonhar em andar com pernas próprias em pouco tempo. Pouco se sabe, porém, que o cinema chegou aqui pouco depois de sua invenção, ainda em 1896. Trinta e cinco anos depois, era produzido no Rio de Janeiro um filme que até hoje é tido como um grande marco a ser batido em nossa cinematografia: Limite, de Mário Peixoto.

De 1931, Limite nunca foi um sucesso popular. Lançado para poucas exibições, chamou a atenção daqueles que já apreciavam aquela nova arte. Ainda hoje, o filme de Mário Peixoto é considerado pela maioria dos especialistas como o melhor brasileiro de todos os tempos e um dos melhores do mundo. Glauber Rocha, um dos nossos maiores cineastas, chegou a declarar que o filme foi um “acontecimento trágico na história do cinema brasileiro”, já que depois dele, ninguém seria capaz de fazer nada tão bom. Glauber, a principio, criticou sem ver a obra, depois que assistiu reconheceu seus méritos e lutou para, se não superar a obra, superar ao menos o peso dela.

Peixoto tinha pouco mais de vinte anos quando fez Limite. Na França, passando em frente a uma banca de jornais, viu uma foto que não conseguiu mais esquecer: uma mulher, com mãos masculinas algemadas à sua frente. A partir desta imagem, elaborou o argumento sobre três pessoas perdidas em um barco. Duas mulheres e um homem desesperançados, náufragos não apenas no mar, mas em suas próprias vidas. Enquanto ficam quase inertes naquela situação, lembram acontecimentos que os levaram a chegar ali e todos os seus limites.

Mesmo comparando com filmes atuais, o de Mário Peixoto ainda é muito ousado, principalmente pela fotografia de Edgar Brazil. O longa tem enquadramentos que mesmo hoje, com filmadoras leves, não é comum encontrar. Peixoto e Brazil abusam de closes, passeiam com a câmera, repetem imagens e trazem ângulos incomuns sem medo. Antes de contar uma história, a narrativa é poética, uma reflexão sobre o tempo e tudo o que ele pode acarretar, sobre os limites de cada um.

Nem Mário foi poupado dessa limitação. Morto em 1992, aos 84 anos, o cineasta nunca foi capaz de realizar seu segundo filme, mesmo tendo buscado durante toda a sua vida. O peso da obra, que não deixou herdeiros, era grande demais, tanto que depois dele o cinema se encaminhou para a chanchada, despretensiosa e de pouco valor artístico, em uma tentativa de esquecer a sombra deste sucesso. Talvez isto esteja mudando, mas poucos percebem que não é preciso esquecer Limite, não é preciso superá-lo, basta saber que o Brasil já foi capaz de uma obra tão grande. Quem percebe seu próprio limite pode ir muito mais longe.

Assista a um trecho do filme:

O Homem Que Engarrafava Nuvens

Mesmo mais de 50 anos após o auge de seu sucesso, muitos hoje continuam sabendo quem é o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, lembrado quase como uma figura mitológica com seu traje sertanejo, todo de couro, como um legítimo vaqueiro nordestino. Poucos, porém, são aqueles que ainda se recordam do Doutor do Baião. Maior parceiro de Gonzaga, o advogado Humberto Teixeira foi figura fundamental para que o ritmo se tornasse, na década de 40, sucesso absoluto no Brasil, e conhecido em todo o mundo. Seu prazer, no entanto, era apenas disseminar a cultura nordestina no resto do país, sem preocupação com fama ou qualquer outro tipo de mérito. Apenas hoje, três décadas após sua morte, o compositor tem sua vida exposta no documentário O Homem que Engarrafava Nuvens.

O título, retirado de uma auto-descrição de Teixeira, já revela que a poesia vai permear mais este trabalho de Lírio Ferreira, que já havia filmado Cartola – Música Para os Olhos e Baile Perfumado. A emoção deste novo filme, porém, se faz mais intensa, uma vez que a produção é da atriz Denise Dumont, filha de Humberto. Mesmo tendo vivido com o pai por boa parte de sua vida, Denise alega não o conhecer. Nordestino rígido, Teixeira sempre tratou a filha com frieza e distância, não aceitando sequer sua opção por se tornar atriz. Para conhecer realmente quem foi seu pai, ela recorreu ao cineasta pernambucano, e juntos recolheram depoimentos intensos sobre o compositor, advogado e deputado, que criou obras primas como Asa Branca, Assum Preto, entre outras, totalizando mais de 400 composições.

Como no documentário sobre o sambista carioca, Lírio começa pela morte. O cemitério como cenário, em uma visita de Denise ao pai, como que para avisá-lo que, mesmo contra a sua vontade, chegou a hora dela e do Brasil descobrir quem é ele, destoa do resto do filme. Pouco a pouco, a obra toma força e arrebata o coração da plateia, que não raro interage com as cenas como dificilmente acontece dentro de uma sala de cinema. São cenas de drama, humor, romance, suspense e, claro, muito musical, que desvendam esse grande personagem, mas que também desvendam muito da história de um país.

Consolidando a importância de Teixeira, Lírio e Denise trazem depoentes tão grandes quanto ele. Há Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia de um lado. Otto, Lenine, Lirinha e seu Cordel do Fogo Encantado de outro. Além de toques de Chico Buarque, Fagner, Belchior, Alceu Valença e tantos outros. Não só nos depoimentos, mas também em intervenções musicais. Um dos momentos mais tocantes é quando o mestre Sivuca, morto em 2006, em decorrência de um câncer, faz um dueto com Gal Costa, em uma imagem de êxtase dos dois músicos, que se entregam de corpo e alma para a canção. Não é sem motivos, já que o filme defende, não sem argumentos, que quase toda música criada no país após a década de 40, bebeu na fonte do Baião, principalmente movimentos como a Bossa Nova e a Tropicália. Lirinha ainda vai mais longe, revelando uma teoria de que até mesmo o Reggae foi criado sob influência de um disco da dupla Gonzaga-Teixeira.

Mas O Homem Que Engarrafava Nuvens não foi feito para saudar o grande compositor. Mesmo com diversas imagens que comprovam sua importância, como uma cena de filme italiano com uma apresentação de Baião, um show de uma cantora japonesa com músicas de Teixeira no repertório, ou mesmo o depoimento do americano David Byrne, do Talking Heads. Mesmo com imagens e sons de arquivo de Humberto, Luiz Gonzaga e todo o mundo conquistado pelos dois através da música, o filme é sobre uma filha que deseja encontrar seu pai. Sob as lentes de Walter Carvalho e comando de Lírio Ferreira, esta busca se torna ainda mais poética e sincera, e é quase indiscreta a presença do público quando ela questiona sua mãe sobre sua difícil relação com o ex-marido. Enquanto Denise vai encontrando o que procura, o público vai descobrindo Humberto Teixeira, a ponto de, mesmo sem o conhecer, sentir pelo compositor uma saudade amarga Qui Nem Jiló ao final da projeção.

O Homem Que Engarrafava Nuvens (2009, Brasil)
Direção:
Lírio Ferreira.
100 Minutos

Vício Frenético (The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans)

Para certos cineastas, antes mesmo de suas obras se tornarem conhecidas já se prevê que algo fora da normalidade está por vir. O alemão Werner Herzog, cercado de um universo polêmico e controverso, certamente é um destes diretores. Ele é do tipo de artista que, por exemplo, surpreenderia a poucos se fosse baleado com um tiro de pressão durante uma entrevista ao vivo para a televisão, fato que realmente aconteceu em 2006. Quando Herzog diz, então, que irá refilmar Vício Frenético, clássico de 1992, de Abel Ferrara, sem ao menos ter visto a obra original, é de se esperar duas coisas: genialidade e estranhamento.

Do primeiro filme, este só tem o nome e a ideia de um protagonista policial viciado em drogas. De resto, o longa estrelado por Harvey Keitel nada tem de semelhante deste novo, protagonizado por Nicolas Cage. O ator, aliás, foi definitivamente a melhor escolha que Werner poderia ter feito para o seu Vício Frenético. Seu aspecto natural de um sujeito frustrado, aliado aos inúmeros problemas pessoais que o ator vem enfrentando, certamente foi fator decisivo para a sua excelente atuação como o homem centrado que perde o controle de sua própria vida após ser obrigado a viver refém do anestésico Vicodin, o mesmo que matou recentemente o cantor Michael Jackson.

Na história, Cage é o Tenente Terence, que após salvar um criminoso de uma enchence causada pelo Katrina fica com um grave problema na coluna. Em pouco tempo, a necessidade de se medicar constantemente, junto com sua estressante rotina de policial e o acesso fácil a traficantes, faz com que ele se vicie não apenas no remédio, mas também em cocaína. Policial exemplar, seu novo habito faz com que ele tome atitudes extremas para conseguir cumprir suas missões, como chegar perto de torturar duas idosas inocentes para descobrir o paradeiro de uma testemunha, neto de uma delas.

A redenção, para Terence, virá se ele conseguir solucionar determinado crime e punir seus culpados. Na periferia de Nova Orleans, uma família de haitianos foi assassinada, e tudo indica que o responsável foi o chefe do tráfico local, Big Fate. A resolução seria muito mais simples, claramente, se não fosse o vício do policial, e o fato de que, para proteger sua namorada, uma garota de programa, ele humilhou o filho de um poderoso homem. Nas mãos de Herzog, ainda, toda a história toma ares muito mais surreais, com direito a uma hilária cena em que, no meio da investigação, Terence é confrontado por iguanas imaginárias.

Não se pode esperar o comum de um diretor que já deu ao cinema obras como O Enigma de Kasper Hauser ou O Homem Urso, e o comum passa mesmo longe de Vício Frenético. O drama do personagem é muitas vezes atropelado pela excentricidade do diretor, que, neste caso, acaba tornando tudo mais leve e cômico. Ver o filme vai além de acompanhar uma simples história com começo, meio e fim, mas embarcar nesta história sob lentes que subvertem o esperado. Herzog sabe bem fazer filmes para um público médio, hollywoodiano, mas dando a ele a margem para o imprevisto, para o improvável.

Vício Frenético (The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans, 2009, EUA)
Direção:
Werner Herzog.
Roteiro: William M. Finkelstein.
Elenco: Nicolas Cage, Eva Mendes e Val Kilmer.
122 Minutos

Onde Vivem os Monstros

Não apenas de brincadeiras vive uma criança. Os primeiros anos de alguém são os que formam sua personalidade. Assim, qualquer adulto teve em sua tenra idade pensamentos sombrios, assustadores se não estivessem ainda relacionados com um resto de ingenuidade que os pequenos ainda conservam. São esses pensamentos que o diretor Spike Jonze explora em seu novo filme, Onde Vivem os Monstros. Se em 1999 ele surpreendeu ao entrar na mente de um conhecido ator, em Quero Ser John Malkovich, agora ele penetra no imaginário infantil, com o que ele pode ter de bom ou ruim.

Inspirado no livro homônimo de Maurice Sendak, Jonze conta a história de Max, um garoto de oito anos com dificuldades de relacionamento que foge constantemente para um mundo imaginário. Mesmo com a mãe aceitando este seu perfil, sempre tentando incentivá-lo a contar mais uma de suas histórias, ele não consegue se encaixar naquela vida em família. Depois de uma grande discussão com a mãe, que recebia o namorado em casa, Max foge novamente em sua imaginação, desta vez indo parar em uma ilha habitada por monstros que, como ele, não querem respeitar qualquer tipo de regra.

O que parecia ser o lugar ideal para Max, logo traz problemas ao menino. Mesmo ele se tornando o rei do lugar, depois de contar mentiras sobre quem é e sobre sua origem, o garoto percebe que não tem total controle sobre as situações, e que mesmo sem querer pode machucar àqueles que ama. Estas descobertas trazem um novo problema para Max, o fato de que sua mãe estava certa, e de que ele ainda não têm condições de viver longe dela. De uma forma bastante dura, ele nota que não deve ser o rei de sua própria vida, e que regras e responsabilidade não são apenas coisas inventadas pelos adultos para tornar a vida mais chata.

Com uma estética anos 80, que talvez remeta à sua própria infância, Spike entra no universo criado por Max, tornando ainda mais mágica a história para o imaginário infantil. Se para um adulto fica claro que o garoto apenas criou aquele universo, não há qualquer elemento que impeça as crianças de embarcar naquela fantasia. A opção por usar atores fantasiados, não se rendendo totalmente às inovações tecnológicas, certamente ajudou a dar maior realismo e a vida aos personagens. Quando utilizadas, com moderação, estas tecnologias só ajudaram a engrandecer o nível de fantasia da obra.

Escrito em 1963, o livro original não tem mais do que algumas poucas frases ilustradas com desenhos realizados pelo próprio autor. Leitor assíduo da obra quando pequeno, Jonze não teve dificuldade em compreendê-la o suficiente para ampliá-la em um filme de 100 minutos. Em suas mãos, os monstros que sequer falavam ganharam a característica de emoções, em uma metáfora do que estava se passando na mente de Max naquele momento. Com momentos de alegria plena e angustiante tristeza, Spike Jonze demonstra que os monstros vivem em nossas próprias cabeças, mas que, com discernimento, é possível conviver, e bem, com cada um deles.

Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are, 2009, EUA)
Direção:
Spike Jonze.
Roteiro: Spike Jonze e Dave Eggers.
Elenco: Max Records, Catherine Keener e Mark Ruffalo.
101 Minutos

%d blogueiros gostam disto: