Arquivo para fevereiro \11\UTC 2010

A Fita Branca (Das Weisse Band)

Logo no começo de A Fita Branca, o narrador avisa que os acontecimentos que se verá a seguir podem não ter uma explicação, mas que ajudam a entender o que aconteceria com seu país, a Alemanha, nos anos seguintes, época do nascimento do nazismo. Talvez pretensioso demais da parte de Michael Haneke querer dar a palavra final sobre a origem de um dos momentos mais odiados da história. A suposta pretensão, no entanto,  logo é desculpada por se tratar de uma verdadeira obra-prima do cinema, certamento a melhor produção realizada em 2009. Semelhante a Dogville, de Lars Von Trier, o longa do alemão não precisa recorrer a artifícios como a falta de cenários do dinamarquês, seu filme é muito bem estruturado.

Em um pequeno vilarejo germânico, uma série de estranhos acontecimentos chocam a população. Apesar de nada indicar que eles tenham alguma relação entre si, os moradores não deixam de tentar encontrar o culpado por todos aqueles problemas. Em uma sociedade opressora, baseada no autoritarismo e no castigo, a todo momento se insinua a possibilidade de os incidentes serem atos de vingança contra os poderosos. Apenas se insinua, ninguém chega a mencionar a possibilidade. Da mesma forma, sempre um grupo parece estar um passo a frente quando descobertos os crimes, mas nunca são tidos como suspeitos. As crianças, filhos destes mesmos poderosos, são apenas versões ainda mais puras e inocentes de seus pais, nunca poderiam fazer nada de mal, pode-se alegar.

A punição, quem recebe, é os irmãos Klara e Martin, mas por outro motivo. Filhos do pastor local, eles são castigados por um terrível ato: chegam em casa mais tarde do que o de costume. Para aprender a manter a pureza, ambos terão que carregar consigo a fita do título, além de levar uma surra. Haneke, que já declarou sua preferência por deixar o melhor para a mente de seu espectador, filma o castigo de forma magistral, com uma incrível violência sem a necessidade de mostrar nada. Na cena, Martin pega a vara que seu pai usará, entra na sala e a câmera fica fixa, focando a porta fechada enquanto se ouvem os gritos das crianças. Essa mesma opção de não mostrar, já havia chocado muitos dos que viram seu Caché.

Mesmo fugindo do aspecto de Dogville e sua falta de cenário, a presença do narrador não nega que também se trate apenas de uma espécie de fábula cinematográfica para explicar as mazelas do século XX. Este tom fabular fica ainda mais gritante no filme de Haneke por uma característica peculiar, apenas seus personagens infantis tem nomes. Klara e Martin, são filhos do pastor, Sigi, uma das vítimas, filho do Barão, há ainda o médico, o administrador, o fazendeiro, e suas esposas. Nenhum deles tem nomes, apenas são suas funções. E apesar de todas as diferenças, todos têm algo em comum, oprimem as crianças. Meninos e meninas, todos com nomes, que vão crescer com o peso da derrota da Primeira Guerra Mundial, e que estarão sugestionáveis a aceitar os desmandos de Adolf Hitler e seus seguidores.

Mas quem conhece a obra do cineasta alemão sabe bem que não é a sua proposta responder perguntas. Não foi por dizer os motivos do nazismo que Haneke levou a Palma de Ouro em Cannes, mas justamente por não dizer. O diretor não busca fórmulas prontas, respostas para todas as questões, apenas ainda mais perguntas que também estão longe de serem respondidas. Quem prefere um roteiro convencional, em que tudo se encaixa bem e, no fim, tudo se resolve, não vai gostar de qualquer filme dele, seja A Fita Branca, Caché, Funny Games ou qualquer outro. Para os outros, as obras de Haneke começam de verdade quando os créditos sobem e as luzes se acendem.

A Fita Branca (Das Weisse Band, 2009, Alemanha)
Direção:
Michael Haneke.
Roteiro: Michael Haneke.
Elenco: Christian Friedel, Burghart Klaußner e Ulrich Tukur.
144 Minutos

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Guerra ao Terror (The Hurt Locker)

Filmes de guerra já foram feitos muitos, ainda mais pós-governo Bush, que instituiu que não há graça para os EUA se eles não estiverem protegendo a democracia de alguém. Com uma infinidade de títulos, é questionável que ainda possa aparecer algo de novo no gênero. Provavelmente, inclusive, foi este o pensamento que fez com que a Imagem Filmes lançasse Guerra ao Terror direto em DVD, em abril de 2009. O que faltou se atentar, porém, é que havia sim um grande diferencial já na ficha técnica. Este, ao contrário dos demais, foi dirigido por uma mulher, Kathryn Bigelow.

Mais do que apenas ser a ex-mulher de James Cameron, de Avatar, com quem disputa as atenções – e indicações – do ano, Kathryn foi a pessoa que conseguiu algo simples, mas impensável aos filmes de trincheira. A cineasta, junto com o roteirista Mark Boal, entraram na cabeça de seus personagens como não havia sido feito antes. Mais do que filhos que deixam seus pais, garotos que não esquecem de suas namoradas ou, até mesmo, pais que não podem acompanhar o crescimento de seus filhos, os heróis de Guerra ao Terror são seres humanos, em tudo o que a de bom e ruim disso. São homens que tem seus medos, desejos, emoções explorados de forma sutil, mas longe de ser imperceptível.

O detalhe faz do filme de Bigelow uma raridade dentre os demais, apenas o detalhe. A história bem poderia ser contada da forma tradicional. Uma companhia de remoção de bombas conta os dias para voltarem para casa, mas ainda falta mais de um mês até o fim da missão. Em uma chamada aparentemente tranquila, uma tragédia acontece, causando ainda mais estresse para os oficiais. Sem o líder do grupo, o Sargento Sanborn e o Especialista Eldridge são obrigados a seguirem as ordens do Sargento James, um desconhecido que, a princípio, está mais interessado em arriscar sua própria vida do que em salvar seus companheiros.

Em determinado momento da trama, o especialista parece relaxado jogando videogame. Aqueles minutos matando soldados virtuais logo se mostram apenas uma forma de esquecer sua realidade. Quando surge em cena o psicólogo do exército, ele revela alguns de seus dramas. Ele não quer morrer jovem, acha que ainda tem muito o que viver. Questionado se não estaria se deixando levar pelo problema, ele é enfático ao tirar o mérito de seu terapeuta, já que ele não esteve diante do perigo. E de nada adianta o outro viver o terror daquela guerra, Eldridge logo vai perceber, apenas ele mesmo pode se manter vivo ali, além da confiança em seus parceiros e, principalmente, a confiança em si mesmo.

Contando com estes momentos sutis, talvez em um ano mais inspirado do cinema, Guerra ao Terror fosse apenas mais um bom filme, e realmente não chamasse tanto a atenção. Sua sorte foi ter surgido em um momento de tão poucas grandes obras, o que o colocou nos principais prêmios do cinema no ano. Seu azar, porém, é que nestas premiações seu concorrente maior é justamente Avatar. Inferior em quase todos os sentidos, o filme de James Cameron tem duas qualidades que, infelizmente, o deixa em vantagem. Ele é um fenômeno de bilheteria e uma revolução tecnológica. Os sentimentos de humanos ou não, que emocionaram em Avatar, em Guerra ao Terror mais do que emocionam, chocam, porque não fazem parte apenas de uma fábula, eles são reais. Mas talvez a realidade não seja o que o cinema está precisando agora.

Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2008, EUA)
Direção:
Kathryn Bigelow.
Roteiro: Mark Boal.
Elenco: Jeremy Renner, Anthony Mackie e Brian Geraghty.
131 Minutos

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