Arquivo para dezembro \31\UTC 2010

Top 10 Cinema Mundial – 2001/2010

Difícil fazer uma lista dos dez melhores filmes feitos em todo o mundo – exceto Brasil – nos últimos dez anos. Não apenas por serem muitos os que são deixados de lado pelo simples fato de que sequer consegui assistir. Mas a quantidade de filme bom e diferente faz com que seja sofrido o momento de selecionar apenas os dez e os colocar em uma ordem de preferência.

São filmes de ficção e documentários, com atores ou em animações, feitos em diversos países do mundo, da Coréia do Sul aos Estados Unidos, passando por França, Austria, Dinamarca e até Israel. Muitas vezes em co-produções que englobam outras localidades, como é o caso de A Fita Branca, feito entre Áustria, Alemanha, França e Itália. Já o filme Valsa Com Bashir, de Israel, França, Alemanha, EUA, Finlândia, Suíça, Bélgica e Austrália também é o que traz a maior diversidade por ser um documentário realizado em animação.

Importantes nomes também não poderiam ficar de fora da lista. Apesar de ausências sentidas de cineastas que tiveram grande importância na década, a lista conta com alguns dos mais importantes diretores do mundo, como Richard Linklater (Waking Life), Michel Gondry (Sonhando Acordado), Gaspar Noé (Enter The Void), os irmãos Coen (Onde os Fracos Não Têm Vez), entre outros.

Veja quais os melhores filmes da década na opinião do VerdadeAlternativa:

10. Casa Vazia (2004, Coreia do Sul)
Direção: Kim Ki-duk
Elenco: Seung-yeon Lee e Hyun-kyoon Lee
A poesia e a originalidade do cinema sul-coreano está presente no longa de Kim Ki-Duk, um dos maiores cineastas do país. No filme, um jovem aproveita a ausência das pessoas para viver em suas casas, realizando pequenos concertos. Em uma dessas residências, se apaixona pela dona.

9. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001, França)
Direção: Jean-Pierre Jeunet
Elenco: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz e Maurice Bénichou
Uma das melhores comédias romanticas já feitas em todo o mundo não veio dos Estados Unidos, onde o gênero faz tanto sucesso, mas da França. É a atenção que a personagem, sob o olhar de Jean-Pierre Jeunet, dá às pequenas coisas que dá o encanto a este filme do começo da década.

8. Onde Os Fracos Não Têm Vez (2005, EUA)
Direção: Ethan Coen e Joel Coen
Elenco: Javier Bardem, Josh Brolin e Tommy Lee Jones
Apesar da violência da obra dos irmãos Coen, o filme conseguiu uma incrível projeção, sendo premiada com o Oscar de melhor filme, diretor e roteiro adaptado, além do de ator coadjuvante para Javier Bardem. Na história, um homem encontra uma mala cheia de dinheiro e passa a ser perseguido por um assassino psicótico.

7. Valsa Com Bashir (2008, Israel)
Direção: Ari Folman
Para se lembrar de um fato obscuro de seu passado, que andava lhe atormentando durante um sono, o cineasta Ari Folman prefere não recorrer à psicanálise, mas ao cinema. Ele realiza um documentário em busca de um episódio da Guerra do Líbano, que presenciou. A opção por exibir como animação não deixa o filme menos impactante, apenas ainda mais interessante.

6. A Fita Branca (2009, Austria)
Direção: Michael Haneke
Elenco: Christian Friedel, Leonie Benesch e Ulrich Tukur
O renomado diretor Michael Haneke, autor de obras-primas como Cachè, Violência Gratuita e A Professora de Piano cria sua obra mais densa contando a história de uma comunidade que é tomada por misteriosos acidentes. Mais do que quem é o responsável pelos atos, a própria reação da população já demonstra uma sociedade problemática.

5. OldBoy (2003, Coréia do Sul)
Direção: Park Chan-wook
Elenco: Choi Min-sik, Yu Ji-tae e Kang Hye-jeong
Um homem é trancado durante 15 anos em um quarto. Depois de solto, ele tenta descobrir os motivos que o levaram para aquele local. Esta busca por seu próprio pasado traz alguns dos momentos mais duros e violentos do cinema atual. Mesmo crueis, as cenas mostram uma poesia que elevaram o nome de Park Chan-wook para um dos grandes cineastas mundiais.

4. Enter The Void (2010, França)
Direção: Gaspar Noé
Elenco: Nathaniel Brown, Paz de la Huerta e Cyril Roy
Se em 2002 Gaspar Noé chamou a atenção em todo o mundo com seu Irreversível, em 2010 ele chocou seus fãs ao revelar que o filme era apenas um teste pra realizar sua grande obra. Em Enter The Void, ele filma em primeira pessoa uma viagem psicotrópica que culmina em uma experiencia de pós-morte baseada no Livro Tibetano dos Mortos, tudo na colorida Tóquio.

3. Dogville (2003, Dinamarca)
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Nicole Kidman, Paul Bettany e Lauren Bacall
O dinamarquês Lars Von Trier inovou mais uma vez com o primeiro filme da sua trilogia sobre o modo de vida norte-americano. Sem cenários, apenas desenhos no chão, ele mostra a forma de vida de uma pequena comunidade depois da chegada de uma estranha. Apesar do sucesso, o diretor nunca conseguiu concluir a trilogia.

2. Sonhando Acordado (2006, França)
Direção: Michel Gondry
Elenco: Gael García Bernal, Charlotte Gainsbourg e Alain Chabat
Toda a inventividade que o diretor Michel Gondry usa em seus videoclipes e em filmes como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança estão em Sonhando Acordado, que conta a história de um jovem recém-chegado à França que não consegue distinguir o que é sonho daquilo que é real.

1. Waking Life (2001, EUA)
Direção: Richard Linklater
Um dos maiores cineastas norte-americanos da atualidade, Richard Linklater cria sua obra-prima sob a forma de animação neste filme que viaja entre sonhos e discussões filosóficas. Uma obra que merece ser revista com frequência, para nos lembrarmos de nossa humanidade.

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Top 10 Cinema Nacional – 2001/2010

Entre 2001 e 2010, o cinema brasileiro teve muitos momentos ruins, mas foi um período de renascimento. Se durante a década de 90, os filmes nacionais tentavam, de forma muitas vezes ainda apelativas, buscar o público que o nossas obras tinham até os anos 70, a partir de 2001, muitos filmes conseguiram espaço por sua qualidade.

Um dos primeiros a fazer isso foi Cidade de Deus, que conquistou lugar de destaque em listas de melhores filmes de todo o mundo, não apenas no Brasil. Com enfoque na violência urbana carioca, usando cenas quase documentais, o filme chamou a atenção de muitos para o cinema nacional em 2002. Poucos anos depois, seguindo a mesma técnica, foi Tropa de Elite 2 que alcançou um lugar de destaque, conquistando o posto de filme mais visto de todos os tempos nos cinemas do país, em 2010.

Entre um e outro, muitas obras chamaram a atenção dentro da cinematografia tupiniquim. Fugindo apenas do mesmo estilo de filmes, outras obras se destacaram e mostram ao público que em breve o Brasil estará produzindo um tipo de cinema que será bastante elogiado não apenas em festivais de todo o mundo, o que já acontece, mas dentre o próprio povo brasileiro, uma missão bem mais difícil.

Veja quais os melhores filmes da década na opinião do VerdadeAlternativa:

10. Apenas o Fim (2008)
Direção: Matheus Souza
Elenco: Gregório Duvivier e Erika Mader
Simples, o filme conta a separação de um casal de universitários, que discute sobre como foi o relacionamento. Filmado todo dentro da PUC do Rio de Janeiro, o longa é dirigido pelo jovem Matheus Souza, que na época ainda estudava na mesma faculdade.

9. O Signo do Caos (2003)Direção: Rogério Sganzerla
Elenco: Camila Pitanga, Helena Ignez e Otávio Terceiro
Pouco antes de sua morte, em janeiro de 2004, o cineasta Rogério Sganzerla criou esta obra-prima pouco vista. No filme, que segue a estética de seus longas anteriores, ele conta a dificuldade de um filme de passar na alfândega brasieira durante um período de ditadura.

8. Edifício Master (2002)Direção: Eduardo Coutinho
Bem antes de se tornar famoso em conversas de bares, por filmes como Jogo de Cena, o cineasta Eduardo Coutinho já criava grandes obras para as telas. Neste documentário, ele traça uma biografia de um conjunto residencial carioca através de conversas com alguns de seus moradores.

7. Madame Satã (2002)Direção: Karim Aïnouz
Elenco: Lázaro Ramos, Marcélia Cartaxo e Flávio Bauraqui
Com um trabalho estético invejável, o arquiteto de formação Karim Aïnouz conta parte da história do transformista João Francisco dos Santos na Lapa carioca do início do século XX. Além do visual, a trilha sonora também chama a atenção.

6. Linha de Passe (2008)
Direção: Walter Salles
Elenco: Sandra Corveloni, Vinícius de Oliveira e João Baldasserini
Uma família moradora da periferia de São Paulo é o centro da emocionante história contada por Walter Salles. A mãe e os quatro filhos lutam para ter um futuro apensar das inúmeras dificuldades que encontram. Dentre as esperanças, está o sonho de um deles em se tornar jogador de futebol.

5. Cão Sem Dono (2007)
Direção: Beto Brant e Renato Ciasca
Elenco: Júlio Andrade e Tainá Müller
Baseado no livro Até o Dia em que o Cão Morreu, de Daniel Galera, o filme conta a história de um homem sem muitos objetivos. Tradutor do russo, ele tem pouco trabalho e ainda menos bens. Dentre suas companhias, uma modelo apaixonada por ele e um cachorro, que o seguiu até em casa.

4. Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009)
Direção: Marcelo Gomes e Karim Aïnouz
A partir de cenas filmadas para outros longas-metragens, os cineastas nordestinos Marcelo Gomes e Karim Aïnouz criaram a história de um geólogo que sofre a distância da amada durante uma viagem a trabalho. Sem sequer mostrar seu protagonista, o filme emociona como poucos.

3. Bicho de Sete Cabeças (2001)
Direção: Laís Bodanzky
Elenco: Rodrigo Santoro, Cássia Kiss e Othon Bastos
A história real do adolescente que é internado em um hospício pelo próprio pai depois de ter sido flagrado com maconha se tornou um dos mais duros e melhores filmes nacionais dos últimos anos, consolidando os nomes de Laís Bodanzky, como cineasta, e Rodrigo Santoro, como ator.

2. Tropa de Elite 2 (2010)
Direção: José Padilha
Elenco: Wagner Moura, Irandhir Santos e Maria Ribeiro
Em um caso raro nos cinemas, José Padilha conseguiu fazer com que a continuação de seu sucesso de 2007 fosse ainda melhor. O segundo Tropa de Elite não apenas supera o anterior tecnicamente e na profundidade do roteiro, mas se tornou o maior sucesso de público do cinema no Brasil.

1. Cidade de Deus (2002)
Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Alexandre Rodrigues, Alice Braga e Douglas Silva
O primeiro filme a chamar a atenção do público ao cinema brasileiro ainda se conserva como uma das melhores obras já realizadas no Brasil. A partir de relatos contados no livro de Paulo Lins, o longa conta como foi criada uma das maiores favelas cariocas e como funciona o crime no local.

Trabalho Sujo (Sunshine Cleaning)

Depois de viver uma princesa bastante fora dos padrões em Encantada, da Disney, a atriz Amy Adams volta a mostrar que contos de fadas da vida real dificilmente têm finais felizes no filme Trabalho Sujo, de 2008, que estreia no Brasil neste fim de ano. Não que Amy volte a viver uma princesa iconoclasta neste drama, mas sua personagem, Rose Lorkowski, começa o filme um pouco depois do que muitos filmes colocariam como o final ideal para a personagem. E isto não é nada bom.

Rose sempre foi desejada pelos homens e invejada pelas mulheres. Durante o colégio, ela era líder de torcida e namorava o esportista mais cobiçado do local. Porém, as coisas não deram muito certo para ela. Mac (Steve Zahn) não chegou a largá-la, apenas preferiu que ela fosse apenas sua amante, enquanto se casou com outra mulher. Com um filho pequeno e sem marido, Rose teve que se contentar com o emprego de faxineira. Enquanto limpa mansões que poderiam ser dela em seus antigos sonhos, ela tem um novo desejo, de conseguir se tornar corretora de imóveis.

Em uma família desestruturada, Rose parece ser a mais normal. O pai, Joe (Alan Arkin), é ainda mais sonhador, e vive de pequenas ideias que, mesmo que deem certo a princípio, só lhe trazem problemas futuros. Norah (Emily Blunt), a irmã, não faz qualquer questão de se manter no emprego e passa longe das responsabilidades. Mas, quando Mac diz a Rose que ela pode ganhar dinheiro montando uma empresa para limpar cenas de mortes violentas, ela não tem dúvidas e chama a caçula para ser sua sócia.

Mesmo com uma ideia interessante, Trabalho Sujo peca por um roteiro mal desenvolvido. O carisma dos personagens não consegue esconder suas fraquezas. Alan Arkin, por exemplo, em muitos momentos apenas repete a sua interpretação de Pequena Miss Sunshine – e não tenho dúvidas de que este não é um problema do ator. Enquanto isso, a Norah de Emily Blunt traz um drama pessoal que, por mais esforço que faça, o espectador não consegue embarcar com profundidade.

Mesmo a razão que levou Rose a ter sua vida transformada, indo de líder de torcida a faxineira amante de um policial casado, não é bem explicada na trama. Quem sabe o fato de ter ficado grávida. Mas isto fica apenas na imaginação do espectador. Talvez os problemas no texto possam ser por conta da inexperiência de Megan Holley, que assina seu primeiro roteiro. Mesmo assim, em muitos momentos no filme, o que parece é que foi mais consequência de um calendário apertado ou mesmo por pura preguiça de aprofundar as histórias.

Não que Trabalho Sujo seja um filme ruim, mas desagrada perceber que poderia ter sido bem melhor elaborado. Dois personagens menores, que poderiam ter um melhor espaço, chegam mesmo a ficar deslocados na trama, aparecendo timidamente em histórias paralelas de Rose e de Norah. Talvez, desta vez, Amy Adams também esteja mostrando que mesmo o trabalho nos cinemas está longe de ser um conto de fadas, e que precisa de um pouco mais do que apenas uma boa ideia.

Trabalho Sujo (Sunshine Cleaning, 2008, EUA)
Direção:
Christine Jeffs
Roteiro: Megan Holley
Elenco: Amy Adams, Emily Blunt e Alan Arkin
91 Minutos

O Concerto (Le Concert)

Muitos filmes sobre superação já foram feitos e ainda estão por vir. Desta vez foi o diretor romeno Radu Mihaileanu quem decidiu contar a história de um homem que passa por cima de seus problemas do passado para atingir um grande objetivo. A trama, contada em O Concerto – que foi indicado ao Globo de Ouro de melhor filme em língua não-inglesa –, segue com a marca registrada do diretor, que chamou a atenção com o seu Trem da Vida, em 1998.

Se dez anos antes ele contou a história de uma aldeia judia da Alemanha nazista que simula estarem sendo levados por soldados para um campo de concentração, desta vez a trama é mais leve. Andrey Filipov é um simples faxineiro da orquestra Bolshoi, na Rússia, que sonha um dia poder conduzir os músicos. Seu desejo, no entanto, não é tão inverossímil, já que ele ocupava o posto de maestro 30 anos antes e foi destituído pelos comunistas por permitir artistas judeus e ciganos no conjunto, além de realizar um concerto tocando Tchaikovsky, o que não foi bem visto pelo sistema naquela ocasião.

Trabalhando na limpeza do local, ele tem acesso a um fax de um empresário francês que quer contratar a orquestra para um grande concerto em Paris. Andrey então vê o convite como a oportunidade de reunir seus músicos e voltar a brilhar à frente do Bolshoi, que já não tem mais tanto prestígio. Sem conhecimento dos verdadeiros responsáveis, ele batalha para realizar seu sonho e, com isso, faz um mergulho no passado que vai afetar não apenas a sua vida, como a de outras pessoas.

Se a história não é tão original, o destaque vem pela leveza cômica aliada ao forte teor emocional empregados por Radu. O humor judeu que o diretor já havia mencionado em seu filme de 1998, está aqui bastante presente. Enquanto busca a disciplina de uma orquestra, o maestro apenas encontra músicos atrapalhados, que estão mais interessados na chance de conhecer Paris, ou nos negócios que poderão fazer por lá. Como o exemplo do pai e filho que, em vez de irem à apresentação que estão convocados, preferem sair pela cidade vendendo bugigangas que trouxeram nas bagagens.

O Concerto pode não ser um primor de originalidade, mas a leveza do filme compensa os momentos em que o espectador passa no escuro do cinema. Se já não bastasse o humor da trama, ainda há um elemento que pode chamar bastante a atenção, a presença da atriz Mélanie Laurent, conhecida principalmente como a Shossana de Bastardos Inglórios. Desta vez, ela não participa de nenhum ato heroico, mas ajuda que sejam vencidos os obstáculos para se ter um bom longa metragem.

O Concerto (Le Concert, 2009, França, Romenia, Russia)
Direção:
Radu Mihaileanu
Roteiro: Radu Mihaileanu
Elenco: Mélanie Laurent, Aleksey Guskov e Dmitri Nazarov
119 Minutos

Enterrado Vivo (Buried)

Para um filme de suspense dar certo não é preciso muito mais do que um cenário mínimo, um ator em frente às câmeras e efeitos sonoros. Pelo menos é a mensagem que Enterrado Vivo, do espanhol Rodrigo Cortés, tenta passar nas telas. O filme mostra o drama de Paul (Ryan Reynolds), que acorda em um caixão sem ideia de como pode sair dali. Além de Reynolds, apenas mais uma atriz, Ivana Miño aparece em cena, e toda ação acontece apenas entre o ator e seu telefone celular.

Paul Conroy é motorista de caminhão em uma das empresas americanas responsáveis pela reconstrução do Iraque. Durante um serviço, o comboio em que ele estava é atacado por cidadãos do país, que sem outra alternativa após a invasão dos EUA, se tornam terroristas e passam a sequestrar cidadãos do ocidente. Quando acorda, ele está preso dentro de um caixão e enterrado. Junto com ele, apenas um telefone celular, para que ele peça seu próprio resgate.

É difícil entender quem é o verdadeiro foco de ataque do filme, se os iraquianos, o governo americano que promoveu as invasões, ou o serviço telefônico atual, que, terceirizado na maioria das empresas, obriga seus usuários a falarem com máquinas e pessoas pouco preparadas. Em muitos momentos, tirando a o fato de que Paul realmente morrerá se não conseguir completar a ligação, o espectador do filme se sente totalmente identificado com o sofrimento do motorista, que tem que enfrentar este grande problema da modernidade.

Se a ideia do filme é boa, tanto que foi o roteiro vencedor do National Board of Review, que costuma acertar nas previsões para o Oscar, a realização deixou um pouco a desejar. Enterrado Vivo tem tudo para ser considerado um filme alternativo. Com cenário reduzido e ideia simples, o orçamento foi de apenas US$ 3 milhões. Um filme deste nível, no entanto, funciona melhor com um rosto desconhecido, ou acostumado a pequenas produções.

Mais do que fazer papel de Paul Conroy, o ator Ryan Reynolds interpreta o astro de cinema Ryan Reynolds. Ele não se encaixa no personagem e muitas vezes soa falso seu trabalho. Talvez por ter alguém que está tão acostumado a participar apenas de sucessos comerciais com pouca profundidade, o filme se arrasta em muitos momentos. Mesmo assim, grande parte dos 90 minutos em que acompanhamos Paul dentro do caixão já mostram que é sim possível criar um filme de suspense apenas com um ator e com um cenário mínimo.

Enterrado Vivo (Buried, 2010, EUA/Espanha)
Direção:
Rodrigo Cortés
Roteiro: Chris Sparling
Elenco: Ryan Reynolds
95 Minutos

Amor por Acaso (Bed & Breakfast)

Existem grandes atores que se tornaram grandes diretores. Há também os considerados medianos, que detrás das câmeras conseguem feitos extraordinários. Mas, também, tem aqueles que dirigem e o resultado passa despercebido, como pode ser o caso de Marcio Garcia em seu primeiro longa-metragem, Amor Por Acaso, que estreia em 26 de novembro.

Co-produção entre Brasil e EUA, o filme também se divide entre os dois países. Logo no início do longa, a passagem entre as cenas de um cenário para o outro, no entanto, acontece de uma forma tão mecânica que já indica que não se pode esperar muito do resultado final.

Ainda, o que se poderia ter de melhor no filme, que é a boa apresentação do país de Garcia em uma produção dos EUA, é bastante decepcionante. Garcia, em vez de sair do clichê e mostrar o Brasil dos brasileiros, faz o mesmo de tantas produções: mostra belas mulheres de biquíni na praia, ao som de um berimbau.

A trilha sonora também é outro ponto que decepciona em Amor Por Acaso. Apesar de ter um ou outro momento em que a música casa bem com as imagens, em grande parte do filme o que se ouve são canções desinteressantes e sem qualquer personalidade em relação àquilo que se vê.

Há, claro, o que se salve no filme. A história de Ana (Juliana Paes), uma brasileira que precisa ir para a California para tentar reaver uma propriedade que foi de sua avó e agora é de Jake (Dean Cain), consegue envolver mesmo com um roteiro fraco.

Juliana não se compromete e tem uma interpretação convincente, o que em muitos momentos também acontece com Cain. Uma ou outra participação também ajuda a criar o tom envolvente que deve ter uma comédia romântica.

Se o casal se sai bem na tela, o mesmo não pode ser dito do diretor. Em uma decisão infeliz, Marcio Garcia surge em uma cena totalmente fora do contexto após o final do filme, criando um certo constrangimento nos espectadores que ainda continuam na sala.

Este é apenas o primeiro longa-metragem de Marcio, filmado às pressas pela gravidez de Juliana Paes e feito em um idioma que não é o seu. Mesmo assim, os erros são mais visíveis do que os acertos. Assim, mesmo com a presença do astro internacional e a grande estrela brasileira, o filme corre o risco de ser logo esquecido.

Originalmente publicado no Portal Terra.

Amor Por Acaso (Bed & Breakfast, 2010, Brasil/EUA)
Direção:
Márcio Garcia
Roteiro: Leland Douglas
Elenco: Juliana Paes, Dean Cain e Eric Roberts

Megamente (Megamind)

O cinema de animação reservou para 2010 dois malvados que encontram o seu lado bom, mas o favorito deve ser o astro de Megamente. No filme, dirigido por Tom McGrath, um dos responsáveis pelos dois Madagascar, o protagonista é o atrapalhado vilão extraterrestre que conta a sua jornada até se tornar o grande herói da cidade de Metro City. A trama se assemelha à Meu Malvado Favorito em mostrar o outro lado do malfeitor, mas leva vantagem pelo maior carisma de seu astro.

Nascido pouco antes de seu planeta explodir, Megamente foi mandado pelo espaço em uma capsula com seu servo, Criado, e juntos vieram parar na Terra. Tudo estaria bem não fosse a infelicidade de, no mesmo momento, outro planeta ter o mesmo fim, o que fez com que os pais de Metro Man também o mandassem para cá. Enquanto o herói caiu em uma mansão e foi criado com todo o carinho de uma família rica, o pobre bebê azul aprendeu desde cedo os caminhos do mal, ao cair com sua capsula em uma prisão.

Com a certeza de que seu destino é de ser o vilão, Megamente luta contra Metro Man e amarga grandes fracassos, até conseguir, milagrosamente, matar o herói. Depois de atingir seu objetivo, no entanto, ele percebe que sua vida não tem mais sentido e decide que encontrará outro arqui-inimigo. O problema é que o escolhido está mais interessado em ser o novo vilão da história. Aos poucos, Megamente percebe que fazer o bem ou o mal é apenas uma questão de escolha, não de destino.

O filme consegue algo raro nas animações atuais, que é ter uma narrativa que engloba todas as idades. Após a descoberta dos estúdios de que adultos poderiam ser boas fontes de renda para este tipo de filme, a apelação tomou conta das obras, sobrando para as crianças apenas se divertir com as imagens engraçadas enquanto pouco ou nada entendem da trama. Já aqui, as piadas não perdem seu lado pueril e, mesmo assim, agrada também aos mais crescidos.

E mesmo se o carisma do vilão/herói não fosse suficiente para encantar todos os públicos, o filme ainda conta com personagens tão atraentes quanto ele. Criado, um peixe alienígena que vive em um corpo de robô ciborgue é uma dessas surpresas e, provavelmente o que tem mais apelo infantil, chegando a lembrar o Mike Wazowski, de Monstros S.A. (2001). A repórter Rosane Rocha, interesse amoroso de vários personagens do filme também tem grande charme. E até mesmo o herói Metro Man guarda um certo mistério que enriquece a trama, colocando-a acima de muitos filmes de super-heroi.

Se o cinema em geral perdeu esta visão maniqueista do mundo, as animações também não ficam de fora. O próprio Monstros S.A. já ensaiava de forma disfarçada colocar um provável vilão como centro das atenções, mostrando que nem todo mundo o que parece ruim é de fato.Megamente, assim como Meu Malvado Favorito, no entanto, usa isto de uma forma bem mais clara, mostrando para as crianças desde cedo que há muito mais entre o bem e o mal do que julgava nossos antigos filmes.

Megamente (Megamind, 2010, EUA)
Direção:
Tom McGrath
Roteiro: Alan J. Schoolcraft e Brent Simons
95 Minutos

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