Abutres (Carancho)

Aves de rapina que se alimentam da carcaça de outros animais, os abutres sobrevivem da morte alheia. Não é difícil achar semelhanças entre estes pássaros e seres humanos, como Sosa, personagem de Ricardo Darín em Abutres, novo filme de Pablo Trapero. Se o protagonista se aproveita dos restos de vítimas de acidentes de trânsito, processando companhias de seguros com a ajuda dos familiares, outros aves de rapina maiores têm muito menos escrúpulos.

Sosa trabalha para um escritório de advocacia especializado neste tipo de situação. Com a certeza de que conseguirão ganhar com facilidade os processos, a equipe aproveita para selecionar bem seus clientes, dentre pessoas fragilizadas e com pouca instrução, presas fáceis que não reclamarão o total dos ganhos, já que estarão felizes com a parte que os advogados lhes dá. Cabe a Sosa, então escolher estas vítimas, acompanhando de perto a rotina de viaturas policiais e ambulâncias e sendo esperto para chegar antes aos acidentes.

Por fazer parte deste esquema, Sosa é visto com repulsa pela médica Luján (Martina Gusman), recém-contratada por um hospital público que serve como fonte para o trabalho dele. A proximidade com o Abutre em questão, no entanto, faz com que ela perceba que de todos os lados vêm aves de rapina para tentar sugar ao máximo daqueles humanos, que sequer estão mortos. Ela mesma é vítima de um, o diretor do hospital, que a obriga a uma jornada exaustiva, cumprida apenas com a ajuda do uso de drogas.

Assim como em suas obras anteriores, Trapero segue desvendando um submundo, com personagens à margem da sociedade. Sosa não é um criminoso mau caráter, apenas um homem sem maiores oportunidades que teve que se agarrar à chance de sobreviver através de um ato inescrupuloso. O personagem de Darín sofre como poucos no cinema, apanhando desde a primeira cena, principalmente para manter sua dignidade e a daqueles que o cercam. Como um verdadeiro abutre, ele não quer comer a carne daqueles que ainda estão vivos. Isto, porém, lhe traz prejuízos, já que contradiz com o sistema em que ele se encontra.

Escolhido pela Argentina para representar o país na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro de 2011, o filme não chega perto de ser o melhor trabalho de Pablo Trapero, que fez recentemente Leonera, também encabeçado por sua esposa, Martina Gusman. Mesmo que, em muitos momentos, o filme mostre um resultado excepcional, em outros ele sofre do excesso de carga dramática. Se as situações do decorrer da trama já são difíceis de acreditar, o final põe tudo a perder com um desfecho inverosímel e anticlímax.

Coincidentemente, às vésperas de estrear no Brasil, o filme de Trapero foi anunciado como fonte de inspiração para mais uma produção de Hollywood. Se a intenção do diretor era apenas a de concorrer a uma estatueta na Academia de Cinema de Los Angeles, ele pode ir além, e ver um trabalho semelhante ao seu exibido ao redor do mundo, mas com outros atores e idioma, e criado de forma industrial. A notícia, no entanto, só prova a teoria do cineasta, de que os humanos são ainda piores do que os abutres.

Abutres (Carancho, 2010, Argentina)
Direção:
Pablo Trapero
Roteiro: Pablo Trapero e Alejandro Fadel
Elenco: Ricardo Darín, Martina Gusman e Carlos Weber
107 Minutos

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