Lixo Extraordinário (Waste Land)

Há duas maneiras simples de um documentário chamar a atenção do público e ser considerado um bom filme. A primeira é optar por uma narrativa diferente, como bem fizeram Chaim Litewski, com Cidadão Boilesen, ou Pedro César, em Fábio Fabuloso. Outra é saber escolher bem os seus personagens. Foi desta segunda forma, involuntariamente, que Lixo Extraordinário, da britânica Lucy Walker e dos brasileiros João Jardim e Karen Harley, conquistou espaço e está cotado inclusive para representar o Brasil no Oscar, como melhor documentário.

A opção original da equipe era ter como personagem o artista plástico Vik Muniz, mas quem roubou a cena foram os catadores de lixo no maior aterro sanitário da América Latina, no Jardim Gramacho, região metropolitana do Rio de Janeiro. Vik, conhecido por fazer trabalhos a partir de materiais considerados lixo, como geleia e manteiga de amendoim, foi acompanhado pelas câmeras em seu projeto de transformar o que encontrasse no aterro em arte. Uma das obras ainda seria leiloada com a renda revertida para a associação de catadores da região.

Logo quando decide ir para o Jardim Gramacho, Vik mostra um preconceito a respeito do que vai encontrar. Com a certeza de que conhecerá o mais baixo nível da sociedade, e que poderá ser acometido por doenças, o artista é surpreendido no melhor sentido quando chega no aterro. Não existem os viciados ou criminosos, como muitos imaginam, apenas pessoas que por algum motivo não teve uma chance melhor de sobreviver com um trabalho digno, seja por algum drama pessoal ou porque não conhecem uma outra realidade.

A riqueza dos personagens escolhidos por Vik para estrelar suas obras é o que diferencia Lixo Extraordinário de um documentário comum. Tião, presidente da associação dos catadores, trabalha desde criança no local. Mesmo assim, leu e discute sobre importantes obras de Maquiavel, Nietzsche, entre outros, tudo encontrado no lixo. Isis, outra catadora, escolheu a profissão depois de um momento de depressão, após ver o filho morrer. Eles, entre outros colegas, além de estrelar o ensaio fotográfico, também ajudam a construir as obras de Muniz, a partir daquele lixo, conhecendo assim um novo universo.

É emocionante presenciar a reconstrução da auto-estima dos catadores, ao mesmo tempo em que Vik Muniz vai percebendo as diferenças e semelhanças com seus modelos. O artista, que no começo do filme afirma com orgulho a sua origem em um bairro bastante pobre de São Paulo, revê seus conceitos ao conhecer o modo de vida daqueles catadores. Em um ponto já no final do documentário, ele já diz que nasceu em um bairro de classe média baixa. Ao mesmo tempo, os catadores percebem que existem mais possibilidades e procuram formas de sair daquele lugar, de ter outra vida, sem vergonha de ser quem é.

Se Vik Muniz leva o público curioso para o cinema, na expectativa de conhecer um pouco mais sobre o badalado artista, são os catadores que arrebatam os espectadores. Em uma exibição de pré-estreia na Avenida Paulista, em São Paulo, um fato inusitado após o filme. Poucos foram aqueles que saíram da sala e o cinema lotado acompanhou um debate com o catador Tião, que era aplaudido intensamente. Se em um evento assim, são poucos os que ficam para o debate, desta vez o público quis saber mais sobre aquelas pessoas incríveis, que geralmente são deixadas de lado pela sociedade.

Lixo Extraordinário (Waste Land, 2010, Inglaterra/Brasil)
Direção:
Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim
90 Minutos

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