Arquivo para maio \26\UTC 2011

O Poder e a Lei (The Lincoln Lawyer)

A princípio, o drama O Poder e a Lei, de Brad Furman parece ser mais um de muitos já realizados sobre advogados de porta de cadeia, que logo terminam encalhados em prateleiras de DVDs. No entanto, o filme estrelado por Matthew McConaughey logo se mostra uma boa surpresa pela condução que o diretor, ainda em seu segundo longa-metragem, dá à trama. O ritmo do filme, inspirado pela ginga do malandro norte-americano, aliado à grande interpretação do ator, acabam fazendo com que uma história que parecia banal tenha o seu valor.

Matthew é o advogado Mick Haller, que usa dos mais diversos métodos para conseguir seus clientes e fazer com que eles consigam a liberdade. Mesmo que pareça um homem descolado, tendo um ex-criminoso como seu motorista particular e falando de igual para igual com uma gangue inteira de motociclistas, Mick tem um grande medo. Ele teme defender um homem inocente e não conseguir provar isso. Para ele, a pior coisa que poderia acontecer seria ser o responsável pela punição de alguém que não merece.

Este medo passa a assombrá-lo ainda mais quando é chamado para defender o riquinho Louis Roulet, interpretado por Ryan Phillippe. Filho de uma corretora de imóveis bem sucedida, o garoto sempre teve tudo o que quis, tanto de bens materiais como de pessoas. Uma noite, quando decide sair com uma garota que conheceu em uma boate, ele é vítima de um golpe e é acusado de tentativa de estupro e assassinato, e tudo o indica como culpado. Mick terá que desvendar a verdade sobre o estranho crime, que vai afetar sua vida mais do que ele poderia supor.

O estilo de Furman neste filme lembra muito o de Nick Cassavetes em Alpha Dog. Apesar de as tramas não terem qualquer relação, são filmes muito próximos que conseguem manter ao mesmo tempo uma estética comercial, digerível ao público em geral, com uma pegada da marginalidade das ruas. Os cortes, as músicas e as atuações principalmente no início do longa jogam o espectador ao clima vivido pelo personagem, entre a sobriedade dos tribunais e o jogo de cintura fora deles.

A falha fica quando a história começa a deslanchar nas telas, que a conduta acaba deixando de lado um pouco desta ousadia e optando por um tom mais convencional. Sem dúvida os primeiros e os últimos minutos são o que de melhor O Poder e a Lei podem oferecer, mas não por isso o resto do filme seja dispensável. O espectador, que já foi fisgado pela introdução, não se incomoda em seguir a trama, que agrada em seus diversos momentos de tensão. Assim, o filme pode não ser nenhuma grande obra, mas é mais interessante do que faz parecer sua sinopse ou o cartaz.

O Poder e a Lei (The Lincoln Lawyer, 2011, EUA)
Direção:
Brad Furman
Roteiro: John Romano e Michael Connelly
Elenco: Matthew McConaughey, Marisa Tomei e Ryan Phillippe
118 Minutos

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Estrada Para Ythaca

Muitos dos filmes brasileiros exibidos em festivais pelo país já tem seu destino traçado, com uma curtíssima vida. Poucos são aqueles que conseguem alguma visibilidade e chegam a estrear em alguma sala de cinema. Estrada Para Ythaca, do coletivo de diretores cearenses Alumbramento, teve sorte diferente e chega nesta sexta-feira (27) aos cinemas de oito cidades graças à iniciativa da nova Vitrine Filmes, que pretende disponibilizar estas obras ao grande público, ao menos em um horário por dia durante uma semana, como se os longas estivessem realmente em uma vitrine.

A história fala sobre quatro jovens abalados com a morte precoce do amigo Julio. Após uma noite de bebedeira, eles decidem roubar um carro e partir em direção à Ythaca, um lugar que tem uma ligação especial com Julio, um lugar mítico, que representa mais do que uma região física, mas uma ideia buscada, não apenas pelos personagens, mas pelos próprios cineastas. Cada um dos quatro então prestam suas homenagens durante o percurso, e não se sabe bem se algum dia eles vão mesmo conseguir chegar a algum lugar.

Não há muito que aconteça na obra, que é encenada pelos próprios diretores, em um clima bastante mambembe, já que o longa foi realizado com apenas R$ 1.860,00. Ao mesmo tempo em que o filme nada diz, no entanto, ele pode revelar muito sobre uma geração. Os quatro rapazes, na faixa dos trinta anos, que tiveram suas infâncias na perdida década de 80, não diferem muito da maioria dos jovens dessa idade em grande parte do país. De uma forma simplista, é possível dizer que o filme é como uma versão de Sem Destino para os tempos atuais.

Se no filme norte-americano os heróis são motoqueiros hippies, cheios de dinheiro ganhos com venda de drogas, nessa versão brasileira feita 40 anos depois, temos sujeitos em um vazio existencial que se mostra de várias formas. Os personagens não têm passado, e mesmo o fato de roubarem um carro não os coloca como foras-da-lei revolucionários. São pseudo-hippies, que não dispensam a louça e os talheres para comer nem mesmo no meio do nada em uma viagem repentina. Tentam uma vida poética, mas a poesia que conseguem ainda parece tão vazia quanto o deserto dos cenários.

Há que se louvar a iniciativa da Vitrine Filmes de trazer filmes como Estrada Para Ythaca para o circuito, mas o longa deve frustrar a maioria do público acostumado com obras mais palatáveis. O filme talvez sirva apenas para saciar uma curiosidade de como estão se formando os jovens cineastas fora do eixo Rio-São Paulo. Para aqueles que se arriscam à sessão, ao menos a trilha sonora pode trazer algum prazer.

Estrada Para Ythaca (2010, Brasil)
Direção:
Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti
Roteiro: Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti
Elenco: Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti
70 Minutos

Caminho da Liberdade (The Way Back)

Acostumado a levar grandes dramas às telas de cinema, Peter Weir volta a apresentar uma jornada de superação com Caminho da Liberdade, que estreia nesta sexta-feira (13). Sempre com um elenco de peso, o diretor de Sociedade dos Poetas Mortos e de Show de Truman traz neste longa-metragem artistas como Ed Harris e Colin Farrell, além de ter a presença da jovem, mas bastante elogiada Saoirse Ronan, que foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante em 2008 por Desejo e Reparação, aos 14 anos.

Durante a década de 1940, com a Europa ameaçada por seguidores de Hitler e de Stalin, o jovem polonês Janusz (Jim Sturgess) é preso como espião pelo regime stalinista e levado para um gulag soviético com pouca chance de sobrevivência. Lá, não apenas os guardas, os criminosos e as poucas condições de vida são um obstáculo aos prisioneiros, mas a própria natureza é uma inimiga cruel, já que o campo onde Janusz e outros homens estão sofre com nevascas e é cercado por florestas e desertos.

Mesmo com a visível impossibilidade de fugir dali, o polonês tenta reunir um grupo que tope a aventura, já que para ele morrer em liberdade é melhor do que viver para sempre em uma prisão. Não é difícil encontrar quem esteja disposto a enfrentar o frio e a fome pela pequena chance de se ver livre. O grupo então parte para uma arriscada jornada para ter de volta o poder sobre suas próprias vidas. No caminho, além dos riscos já previstos, eles também aprendem melhor sobre o convívio humano.

Não tão marcante como outras obras de Weir, Caminhos da Liberdade ainda consegue se manter superior a outros filmes que se propõe às jornadas de superação, um gênero cada vez mais comum no cinema norte-americano. O diretor, que estava sem filmar desde 2003, quando lançou Mestre dos Mares, derrapa por vezes, ao exagerar no discurso político anti-Stalin, em vez de se focar ainda mais em seus personagens, que apesar de interessantes são pouco explorados.

Pouco se sabe sobre quem são aqueles homens que se unem em busca da liberdade, e mesmo quando se tem a oportunidade de descobrir isso, no momento em que Irena, personagem de Saoirse entra no grupo, ainda fica grande a distância entre eles e o público. Ainda assim, é de admirar o trabalho de diretor de atores de Weir, além do bom desempenho do elenco, principalmente o ladrão vivido por Colin Farrell e o misterioso norte-americano de Ed Harris. Com tantos altos e baixos, e sem nenhum grande momento edificante, o longa se mostra como apenas mais uma obra pequena do cineasta, que tem trabalhos bem mais interessantes.

Caminho da Liberdade (The Way Back, 2010, EUA)
Direção:
Peter Weir
Roteiro: Peter Weir e Keith R. Clarke
Elenco: Jim Sturgess, Ed Harris e Colin Farrell
133 Minutos

Velozes e Furiosos 5 (Fast Five)

Não se pode esperar nada muito complexo da quinta parte de uma franquia de ação, mesmo que esta série continue a dar lucros exorbitantes para seus realizadores. É o caso de Velozes e Furiosos 5, filme de Justin Lin, que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira (6). Tendo como cenário o Rio de Janeiro na maior parte de seus 130 minutos, o longa metragem pode gerar bastante decepção nos fãs tupiniquins que desejam ver seu país retratado mais uma vez nas telas pelo olhar hollywoodiano.

Do mesmo modo como grande parte das cenas de ação são irreais fora das telas, assim também é a Cidade Maravilhosa mostrada aqui. Apenas um estrangeiro com pouco conhecimento sobre o Brasil para dar como verossímeis as imagens. O fato de a maior parte do filme ter sido feito na Costa Rica, e não em terras cariocas, não teria sido um problema tão grande se, como na animação Rio, a equipe tivesse um brasileiro legítimo desfazendo algumas ideias distorcidas que se tem do país no resto do mundo ou criando outras tantas. De nativo, talvez o maior posto seja mesmo da protagonista Jordana Brewster, uma quase brasileira que nasceu no Panamá e pouco viveu no país de sua família.

A atriz volta a interpretar Mia Toretto, que desta vez viaja para o Rio de Janeiro com Brian O’Conner (Paul Walker). Os dois vem fugidos após o ex-policial ajudar o irmão da moça, o troglodita Dominic (Vin Diesel), a fugir de uma prisão de segurança máxima nos EUA em uma espetacular cena de ação, que já indica o que traz o longa. No Brasil ainda está o ex-parceiro Vince, que tenta constituir uma família em uma favela carioca. Com uma dica dele, os três decidem entrar em um arriscado roubo de carros que se mostra muito mais complicado do que a princípio pareceu.

Percebendo que algo de errado está acontecendo, os americanos descobrem um esquema de lavagem de dinheiro de Hernan Reyes, homem considerado o dono da cidade. Perseguidos pela polícia e por perigosos capangas, eles armam um plano ainda mais ousado, roubar todo o dinheiro do bandido. Para isso, Dom, Mia e O’Conner vão contar com a ajuda de antigos parceiros e muita adrenalina. Caso a missão se cumpra, eles terão dinheiro o suficiente para nunca mais precisarem pensar em roubar novamente.

Os problemas do enredo já começam a ficar gritantes quando Mia e O’Conner sobem um morro do Rio de Janeiro em um carro com mão inglesa. Este, porém, acaba sendo um detalhe pequeno diante de tantos deslizes ao longo do filme, que chega a ter uma perseguição a um trem em uma paisagem desértica, impossível de ver por aqui. Mesmo os personagens são sofríveis, já que todo brasileiro de Velozes e Furiosos 5 fala um português com sotaque estrangeiro, e o tal Herman Reyes, em vez de ser um malandro político ou policial miliciano carioca, é um empresário de Portugal.

Chega um momento na trama em que o personagem de Diesel diz ao policial Luke Hobbs, de Dwayne Johnson, que seu trabalho não está funcionando porque ele pensa que está nos EUA, mas aqui é o Brasil. Talvez o mesmo poderia ser dito à Justin Lin e os roteiristas Chris Morgan e Gary Scott Thompson. Porém, esta é apenas a quinta parte de uma franquia de ação que ainda rende milhões de dólares, então ninguém está se preocupando muito com isso. Assim, quem não der bola para o roteiro e se esquecer um pouco da vontade de se ver na tela vai curtir a adrenalina das cenas, além de ainda rir com os erros absurdos que o filme comete com o país.

Velozes e Furiosos 5 (Fast Five, 2011, EUA)
Direção:
Justin Lin
Roteiro: Chris Morgan e Gary Scott Thompson
Elenco: Vin Diesel, Paul Walker e Jordana Brewster
130 Minutos

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