Estrada Para Ythaca

Muitos dos filmes brasileiros exibidos em festivais pelo país já tem seu destino traçado, com uma curtíssima vida. Poucos são aqueles que conseguem alguma visibilidade e chegam a estrear em alguma sala de cinema. Estrada Para Ythaca, do coletivo de diretores cearenses Alumbramento, teve sorte diferente e chega nesta sexta-feira (27) aos cinemas de oito cidades graças à iniciativa da nova Vitrine Filmes, que pretende disponibilizar estas obras ao grande público, ao menos em um horário por dia durante uma semana, como se os longas estivessem realmente em uma vitrine.

A história fala sobre quatro jovens abalados com a morte precoce do amigo Julio. Após uma noite de bebedeira, eles decidem roubar um carro e partir em direção à Ythaca, um lugar que tem uma ligação especial com Julio, um lugar mítico, que representa mais do que uma região física, mas uma ideia buscada, não apenas pelos personagens, mas pelos próprios cineastas. Cada um dos quatro então prestam suas homenagens durante o percurso, e não se sabe bem se algum dia eles vão mesmo conseguir chegar a algum lugar.

Não há muito que aconteça na obra, que é encenada pelos próprios diretores, em um clima bastante mambembe, já que o longa foi realizado com apenas R$ 1.860,00. Ao mesmo tempo em que o filme nada diz, no entanto, ele pode revelar muito sobre uma geração. Os quatro rapazes, na faixa dos trinta anos, que tiveram suas infâncias na perdida década de 80, não diferem muito da maioria dos jovens dessa idade em grande parte do país. De uma forma simplista, é possível dizer que o filme é como uma versão de Sem Destino para os tempos atuais.

Se no filme norte-americano os heróis são motoqueiros hippies, cheios de dinheiro ganhos com venda de drogas, nessa versão brasileira feita 40 anos depois, temos sujeitos em um vazio existencial que se mostra de várias formas. Os personagens não têm passado, e mesmo o fato de roubarem um carro não os coloca como foras-da-lei revolucionários. São pseudo-hippies, que não dispensam a louça e os talheres para comer nem mesmo no meio do nada em uma viagem repentina. Tentam uma vida poética, mas a poesia que conseguem ainda parece tão vazia quanto o deserto dos cenários.

Há que se louvar a iniciativa da Vitrine Filmes de trazer filmes como Estrada Para Ythaca para o circuito, mas o longa deve frustrar a maioria do público acostumado com obras mais palatáveis. O filme talvez sirva apenas para saciar uma curiosidade de como estão se formando os jovens cineastas fora do eixo Rio-São Paulo. Para aqueles que se arriscam à sessão, ao menos a trilha sonora pode trazer algum prazer.

Estrada Para Ythaca (2010, Brasil)
Direção:
Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti
Roteiro: Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti
Elenco: Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti
70 Minutos

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