Arquivo para agosto \31\UTC 2011

O Homem do Futuro

O Brasil nunca teve grande tradição no cinema fantástico, mas esta imagem pode estar mudando com a consolidação do nome de Claudio Torres como um diretor do gênero. Com o lançamento de seu quarto longa-metragem, O Homem do Futuro, o cineasta mostra que não apenas sabe fazer uma grande obra dentro do universo da ficção científica, mas que sabe bem adequar um tema complexo ao público. Não apenas isso, Torres também demonstra uma habilidade de deixar suas obras com uma brasilidade mesmo que com temas recorrentes no cinemão americano.

Em O Homem do Futuro, Wagner Moura é o fracassado cientista Zero, que na falta de uma vida mais interessante, dedica o tempo que tem a desenvolver uma nova forma de energia. Com a certeza de que um dia terá uma descoberta que irá mudar o destino da humanidade, ele pretende não apenas ser reconhecido por isso, mas provar para Helena (Alinne Moraes), o amor de sua vida, que ela estava errada em tê-lo humilhado vinte anos antes, em uma festa da faculdade.

O invento, no entanto, dá errado, e Zero acidentalmente vai parar em 1991, justamente no pior dia de sua vida. Sabendo toda a dor que sofreu por todos estes anos pela rejeição de Helena, ele decide mudar o passado, contando para seu antigo eu não apenas a desgraça que vai se abater sobre a sua vida, mas como será o mundo no futuro, e como se dar bem com todas estas informações. No entanto, o fato de tentar consertar sua vida desencadeia uma série de transtornos que podem piorar ainda mais a sua relação com o seu grande amor.

Se conseguiu conquistar um público considerável com A Mulher Invisível, seu filme anterior, usando este universo fantástico aliado a um senso de humor tipicamente brasileiro, desta vez Torres também traz uma carga alta de romantismo e nostalgia, tendo um resultado ainda melhor. Mesmo com uma atuação pouco natural, o casal de protagonistas, Alinne Moraes e Wagner Moura, emocionam o espectador com a mesma facilidade com que o faz rir. Não distante ficam os coadjuvantes Fernando Ceylão e Maria Luisa Mendonça.

Apesar disso, é de lamentar que o cineasta tenha abandonado a veia mais contestadora de Redentor, seu primeiro longa, e abraçado de vez o cinema de puro entretenimento. Mesmo que o resultado seja bom, superior a grande parte da produção nacional, não rende qualquer tipo de reflexão futura. Com o mesmo tema, a viagem no tempo, o próprio Brasil já produziu o subestimado A Máquina, de João Falcão, também envolto em humor e romance e com um jeito mambembe de filmar, mas com maior poesia e profundidade.

Para ambientar o 1991 de Zero, o filme usa a técnica simples, mas eficiente, da trilha sonora, principalmente com a canção Tempo Perdido, da Legião Urbana, cantada pelos próprios atores. Não apenas no som, mas a direção de arte também opta por alternativas sem qualquer requinte na maior parte das cenas. O resultado acaba se tornando natural e agradável, dando um charme a mais à narrativa. Um dos exemplos é a roupa de astronauta usada por Wagner Moura. Não que ele precisasse dela para a viagem no tempo, mas ele queria estar bem para uma festa à fantasia.

Mesmo que distante das superproduções hollywoodianas de ficção científica, ou de qualquer filme que explora um universo fantástico com um abuso de efeitos especiais, O Homem do Futuro envolve e cativa o espectador. O cinema brasileiro, realizado por Claudio Torres, mostra então que não é preciso gastar milhões de reais para fazer o público acreditar naquilo que se pretende contar. Basta saber criar uma boa história e ter um jeitinho brasileiro para levá-la para as telas, e parece que Claudio não tem dificuldade com nenhum dos dois.


Assista ao trailer:

O Homem do Futuro (2011, Brasil)
Direção:
Cláudio Torres
Roteiro: Cláudio Torres
Elenco: Wagner Moura, Alinne Moraes e Gabriel Braga Nunes
102 Minutos

Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes)

Se há mais de 40 anos, em 1968, o ator Charlton Heston nos mostrou que no futuro a Terra é dominada por símios inteligentes, enquanto aos humanos resta uma vida pré-histórica, sem sequer o dom da fala, agora James Franco vem nos dizer como foi o início deste trágico destino dos homens. Em Planeta dos Macacos: A Origem, do diretor Rupert Wyatt, são muitas as referências ao antigo filme, de Franklin J. Schaffner. No entanto, não há como traçar uma relação entre os cinco filmes originais e este, já que as contradições são muitas entre as obras.

Aqui, Franco vive o cientista Will Rodman, que faz um imenso esforço para descobrir a cura para o mal de alzheimer, doença que acomete o seu pai, Charles (John Lithgow). Testando os experimentos em macacos em uma grande corporação da indústria farmacêutica, ele logo descobre uma fórmula que não apenas regenera as células cerebrais, como pode despertar uma inteligência incomum em quem é submetido a ela. No entanto, um acidente no laboratório, que resulta na morte da cobaia, faz com que o projeto tenha que ser completamente repensado.

Enquanto tenta descobrir uma fórmula mais eficaz de combater a doença que atormenta seu pai, Will passa a ser babá de um pequeno chimpanzé, Cesar, filho de sua antiga cobaia. Logo o cientista percebe que há algo de especial no filhote, vindo dos genes modificados por seu experimento. Com uma inteligência incomum para macacos, e acima até da de alguns humanos, Cesar cresce aprendendo o modo de vida do homem, seja para o bem ou para o mal. Assim, quando ele é obrigado a conviver com outros de sua espécie, o que aprendeu serve para que se torne um líder e seu rancor contra os humanos é decisivo para o que fará com este poder.

Apesar do nome do filme supor que se trate da origem do Planeta dos Macacos, este filme foge das explicações dadas na série dos anos 70. Se lá Cesar era o filho de animais vindos do futuro, em uma fuga desesperada pelo espaço que desafia a física, desta vez são as experiências genéticas que determinam o início do fim da humanidade. Mesmo o mais recente filme realizado por Tim Burton não pode se encaixar neste, já que nele supõe que se trate de um outro lugar, fora da Terra. Sendo um filme a parte, o longa acaba gerando certa estranheza, ao narrar a origem de algo que não se sabe ao certo ainda o que é.

Não apenas o nome do chimpanzé líder da revolução símia é o mesmo dos filmes originais, mas há diversos momentos em que há referências a eles. Enquanto na obra de 1968, o personagem humano de Charlton Heston era chamado de Olhos Claros, pelos espertos macacos do futuro, aqui é a mãe de Cesar que recebe esse apelido dos cientistas. Mesmo com as homenagens, porém, Wyatt foi além ao propor um motivo especial para o domínio animal. Enquanto na série original os primatas apenas adquirem características humanas, desta vez eles ainda mantém as qualidades dos macacos, o que lhes dá grande vantagem sobre os homens.

Nas cenas em que os animais mostram todo seu potencial está a vantagem sobre os filmes originais. Se o roteiro se apresenta menos complexo do que antes, a tecnologia compensa isso com imagens muito mais realistas. Não vemos desta vez um ator vestido de chimpanzé como fica claro tanto na primeira série quanto no longa de 2001, mas é possível acompanhar um verdadeiro primata atuando ao lado de Franco, Lithgow ou Freida Pinto. Quando inicia a guerra entre as duas raças, esta tecnologia é decisiva para mostrar esta superioridade de Cesar e seus iguais.

Não é de esperar que O Planeta dos Macacos: A Origem fique apenas neste primeiro filme. Se nos anos 70 os produtores já foram bem-sucedidos em explorar a série, o mesmo deve se repetir agora. Mesmo com o original décadas distante, o sucesso de bilheteria desta nova explicação é grande no mercado norte-americano. Resta esperar para saber se, assim como distorceram a forma como ocorreu a dominação, vai haver um novo futuro para este planeta, diferente do encontrado pelo personagem de Heston.

Originalmente publicado no Portal R7.

 

Assista ao trailer:

Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011, EUA)
Direção:
Rupert Wyatt
Roteiro: Rick Jaffa
Elenco: James Franco, Andy Serkis e Freida Pinto
105 Minutos

Onde Está a Felicidade?

Quando em 2007 o casal Carlos Alberto Riccelli e Bruna Lombardi ressurgiu na mídia brasileira, trazendo o longa-metragem O Signo da Cidade, dirigido por ele e escrito e protagonizado por ela, houve certa desconfiança sobre a obra. O resultado, bastante superior ao esperado, mesmo não sendo alguma obra-prima, foi capaz de gerar boa vontade para uma nova produção dos dois, mas eis que chega Onde Está a Felicidade?, que desfaz este otimismo. Se o filme ainda repete alguns deslizes no roteiro de Bruna, não consegue também repetir uma boa história e momentos de emoção da obra anterior.

Com um casamento praticamente perfeito de 11 anos, a jornalista gastronômica Teodora (Bruna Lombardi) descobre por acaso que Nando (Bruno Garcia), seu marido, tem uma amante virtual. Não bastasse, junto com a desilusão amorosa Teo também se vê desempregada e sem expectativas de um novo trabalho. Ela então entra em uma crise existencial e tenta de toda forma se encontrar fora desta realidade de perfeição a que estava acostumada. Sem muito sucesso, nem mesmo ao apelar para fórmulas milagrosas, ela decide fazer uma viagem espiritual.

Ao lado da sobrinha de uma amiga, a confusa espanhola Milena (Marta Larralde), e do ex-produtor de seu programa de receitas, Zeca (Marcello Airoldi), Teo vai a Europa com a missão de fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Sem muito jeito para viagens como esta, os três percebem que não é nada fácil seguir o objetivo, e continuam tentando enganar a si mesmos, burlando as passagens e não dando a real importância à viagem. Mesmo com toda confusão, Teodora vai sentindo a falta de Nando, e aos poucos os dois, mesmo de longe, voltam a se entender.

Se a história de Onde Está a Felicidade? já não parece muito interessante, somado às atuações o desinteresse passa a ser total. Com um estilo exagerado, aparentemente tentando prestar uma frustrada homenagem ao do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, o filme acaba tendo um resultado risível, mesmo quando não se pretende uma comédia. A risada do público, porém, que chega mais pelos erros do que pelas piadas, não é aquela solta e alegre, mas a constrangida e quase sem graça, de quem não queria estar ali.

Nem mesmo as participações especiais, um grande mal do cinema brasileiro que se pretende de humor atualmente, consegue salvar algumas cenas. O casal de comediantes Marcelo Adnet e Dani Calabresa poderia ter se poupado de estar no filme. Se ele faz um personagem desinteressante e sem qualquer graça, ela tenta fazer uma mulher sensual, mostrando que o excesso de piadas sem graça matou um texto que já não tinha tanto apelo.

Para quem não viu O Signo da Cidade, Onde Está a Felicidade? é motivo o bastante para passar longe de um filme da parceria entre Bruna e Riccelli. Para quem assistiu ao filme anterior, este expões ainda mais os erros daquele, e mostra que ainda falta muito para que o casal de atores consiga um resultado digno em sua nova empreitada na sétima arte.

Assista ao trailer:

Onde Está a Felicidade? (2011, Brasil)
Direção:
Carlos Alberto Riccelli
Roteiro: Bruna Lombardi
Elenco: Bruna Lombardi, Bruno Garcia e Marcello Airoldi
110 Minutos

Dylan Dog e as Criaturas da Noite (Dylan Dog: Dead of Night)

Se no passado grande parte dos filmes de terror mais divertiam do que assustavam, hoje em dia este gênero ganhou ares de superprodução e já não têm mais os requintes dos clássicos filmes B, mesmo que continuem não assustando. De vez em quando, no entanto, aparece um ou outro longa que pode relembrar estas obras comicamente toscas, como é o caso de Dylan Dog e as Criaturas da Noite. Adaptado dos quadrinhos italianos, o filme não tem grandes pretensões, e justamente por isso pode agradar.

Escolhido como uma espécie de guardião do mundo dos mortos-vivos, o detetive particular Dylan Dog (Brandon Routh) é o único humano que sabe que não estamos sozinhos no mundo, mas que dividimos espaço com vampiros, lobisomens, zumbis, e tantas outras criaturas que se pensava ser apenas do mundo da fantasia. Porém, após um incidente trágico em sua vida, o jovem decide se aposentar deste posto e trabalhar apenas com aqueles que ainda estão vivos.

Certo dia, ele é chamado para resolver a misteriosa morte do pai da bela Elizabeth (Anita Briem), mas ele declina logo que percebe que não é um caso deste mundo. Mesmo com a recusa, ele é obrigado a ajudar a moça a descobrir o que realmente aconteceu. Para isso, ele volta a ter de lidar com seres como o quase amigável lobisomem Gabriel (Peter Stormare) ou o maléfico vampiro Vargas (Taye Diggs), mas sem temer a morte, porque ele sabe que ainda vem muita coisa depois dela.

Se o filme pode ser comparado com um antigo filme B de terror, não há que se esperar grandes destaques nas atuações. O protagonista, Brandon Routh que já foi o Superman no filme de 2006, claramente se preocupa mais em fazer exercícios de musculação para os braços do que os de técnica teatral. Se ele não tem uma atuação brilhante, o mesmo se pode esperar de seu parceiro Sam Huntington, o Jimmy Olsen do mesmo Superman. Aqui, no papel de um recém-transformado zumbi, ele atua como um morto-vivo. Sem pensar muito. Claro, o resultado por vezes chega a ser hilário.

Apesar de não explorar tanto o universo sobrenatural como poderia, o longa acerta com seus efeitos especiais, que se às vezes se mostram exagerados, não o são em comparação com blockbusters. Ainda, certo exagero cabe perfeitamente em um filme como este, em que nada se deva ser levado muito a sério. Esta mistura entre péssimas, mas cômicas, atuações, seres fantásticos e uma boa dose de efeitos, assemelha ao clássico dos anos 80 Bill & Ted – Uma Aventura Fantástica, mas desta vez se trata de um terror. Ou uma tentativa disto.

Não que Dylan Dog e as Criaturas da Noite seja daqueles clássicos filmes que são tão ruins que ficam bons. Talvez se enquadre mais naquelas obras agradáveis de ver em uma tarde vazia para passar o tempo, assim como seu semelhante de 1989. De qualquer forma, o filme não oferece ao espectador menos do que ele se pretende. Uma comédia com tons de terror e fantasia. Não é o melhor a se ver no cinema, mas ao menos é um filme honesto.

 

Assista ao trailer:

Dylan Dog e as Criaturas da Noite (Dylan Dog: Dead of Night, 2010, EUA)
Direção:
Kevin Munroe
Roteiro: Thomas Dean Donnelly e Joshua Oppenheimer
Elenco: Brandon Routh, Sam Huntington e Anita Briem
107 Minutos

A Árvore da Vida (The Tree of Life)

Até onde é possível ir para entender melhor a sua própria relação com a vida? Para o cineasta norte-americano Terrence Malick, se pode ir muito longe. Conhecido por ser um diretor recluso e perfeccionista, Malick foi o grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes por A Árvore da Vida, seu quinto longa-metragem em uma carreira de quase quarenta anos. Mais do que apenas mais um filme, este, estrelado por Brad Pitt e Sean Penn, é o trabalho mais pessoal e bem realizado do diretor, e sem dúvida uma obra que deve ficar entre os maiores já feitos na história do cinema.

Sean Penn é Jack, um arquiteto de meia idade ainda atormentado pela relação de amor e ódio com o pai e com um acontecimento na juventude que marcou a história de toda a família. Mr. O´Brien, o pai, vivido por Brad Pitt, nunca foi um homem afetuoso. Na ânsia por dar um futuro glorioso aos seus três filhos, ele sempre prefere o rigor e a força, ao carinho. Resta então às crianças o suporte da mãe, uma mulher submissa, mas capaz de encontrar forças onde for para proteger e reconfortar os meninos, a quem ama incondicionalmente.

Nada fica muito óbvio durante as mais de duas horas de projeção, mas a profundidade das cenas mostram que a carga emotiva do filme pode falar muito mais ao espectador do que um roteiro simples, com começo, meio e fim. Não existe tempo em A Árvore da Vida, Malick vai muito além da cronologia para contar esta relação entre pai e filho, que começa quando a mãe ainda é uma menina e vai muito mais longe do que qualquer outro cineasta ousou chegar. Se quando Terrence começava a carreira, o mundo do cinema ainda estava deslumbrado pelo trabalho de Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisseia no Espaço, desta vez é ele quem chama a atenção com sua odisseia na vida.

A odisseia, aliás, não é apenas de seu personagem, mas do próprio diretor. Se o intuito de Mallick era fazer um filme que explorasse o ser humano, nada melhor do que usar a si como centro desta história. Mais do que Jack, Sean Penn é Terrence Mallick nesta obra. Filho mais velho de três irmãos, o cineasta sempre sofreu a culpa de ter aproveitado os privilégios de ser o primogênito, mas ter falhado no momento em que um de seus irmãos mais precisou. Estudante de violão, o jovem Larry Mallick foi à Europa ter aulas com um rigoroso professor. Sem suportar a pressão, ele se mutilou. O pai pediu que Terrence fosse buscá-lo, mas o diretor se negou. Larry se matou logo em seguida. Este episódio é um dos pontos de partida de A Árvore da Vida.

Não é fácil, no entanto, para o cineasta entrar em contato com a história. Consumido pela culpa desde que aconteceu, em 1968, Mallick busca elementos para expôr isto nas telas. Desde seus primeiros trabalhos no cinema, ele deseja fazer um filme sobre a origem da vida. O diretor então achou que o momento ideal para isso seria justamente neste longa, em que fala sobre a sua própria vida. Conhecido por colocar nas telas cenas de uma beleza plástica grandiosa, Terrence deixa os espectadores desta vez deslumbrados com o que ele é capaz de criar.

Se a obra não é completa do ponto de vista do cinema clássico, isto faz com que haja um maior leque de possibilidades de entendimento do filme. O menino Jack, mais do que apenas estar se relacionando com o seu pai e mãe, está também entrando em contato com seu próprio instinto, com a violência existente nos seres vivos desde o início da vida; e o adulto Jack sabe disso, e sabe que se tornou apenas uma cópia moderna do próprio pai. Além disso, há uma luta constante na tela entre a ciência e a fé, duas instituições que sempre estão juntas, mas nunca deixarão de se confrontar.

Sem respostas, mas com diversos questionamentos, Terrence Mallick consegue um ótimo resultado em um filme que tenta desvendar esta misteriosa Árvore da Vida. Mantendo sua assinatura, com belas imagens, presença de astros no elenco, forte contato com a natureza e a narração tomando conta de boa parte do filme, o diretor não apenas não decepciona, mas se consolida ainda mais no hall dos grandes mestres da sétima arte.

Assista ao trailer:

A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011, EUA)
Direção:
Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Sean Penn e Jessica Chastain
139 Minutos

Melancolia (Melancholia)

É comum perceber que os cineastas estão entre os humanos com mais problemas de ego, mas o caso do dinamarquês Lars Von Trier se destaca. Desde que consolidou seu nome em todo o mundo com o apoio do marketing conquistado com o movimento Dogma 95, o diretor usa o que pode para inflar o seu ego e, consequentemente, atingir um nível ainda maior de genialidade em suas obras. Porém, se com Anticristo ego e genialidade estiveram em nível quase insuportável, com o seu novo filme, Melancolia o limite foi rompido, e a qualidade muitas vezes dá lugar ao pedantismo.

Não há dúvidas de que as declarações de Von Trier em Cannes, em que o cineasta chocou público, imprensa e organizadores ao defender ideias de Hitler, são apenas mais uma forma de chamar a atenção para o filme, assim como ele já havia feito em outros momentos de forma mais sutil. Se desta vez o diretor foi longe demais no marketing, não é diferente na maneira em que ele desenvolve sua nova obra, sobre a possibilidade do choque entre a Terra e um planeta perdido, chamado Melancolia.

Na primeira parte do filme, o acontecimento astronômico é apenas um pano de fundo sem grande importância. O que gira a trama é o casamento da publicitária Justine (Kirsten Dunst) com Michael (Alexander Skarsgård). Mesmo feliz pelo grande dia, a jovem sente que algo está errado com ela, e reluta em estar na festa. A presença de algumas pessoas no local, no entanto, torna tudo ainda pior, criando um clima de constrangimento para a maioria dos convidados e, principalmente, para o noivo.

Alguns dias após a cerimônia, Justine passa uma temporada na casa de sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) e do marido dela, John (Kiefer Sutherland), um milionário apaixonado por astronomia que tenta tranquilizar a família a respeito dos boatos de que a Terra vai se chocar com Melancolia. À medida em que o tempo passa, e que o planeta intruso se aproxima, a relação entre todos na casa vai mudando, e cada um revela sentimentos que tentava esconder. Apenas Justine permanece serena, como se estivesse escondendo um grande segredo de todos.

Pelas primeiras cenas do filme já é possível perceber que o filme se pretende grandioso. Von Trier mostra um clipe com uma estética de ensaios de moda, em câmera lenta, que dão ao espectador um misto de deslumbramento e inquietação. Esta sensação se mantém durante toda a projeção, que é dotada de atuações incríveis, cenas de uma beleza ímpar, e um roteiro recheado de uma pretensão e arrogância muito maior do que em qualquer outro filme do diretor. Tanto que chega a macular o resultado final.

Fosse original, Melancolia já teria potencial para desagradar a muitos, mas nem mesmo esta qualidade o filme contém. Se a primeira parte lembra a todo momento de Festa de Família, sucesso dinamarquês dirigido em 1998 por Thomas Vinterberg, o resto do filme tem claras inspirações no fracassado Dogma do Amor, filmado pelo mesmo diretor em 2003. Não custa lembrar que Vinterberg foi responsável, ao lado de Lars Von Trier, pelo movimento Dogma 95, que tem em Festa de Família sua maior produção.

Não bastasse as semelhanças propositais, há também aquela por acidente. O filme tem elementos bastante próximos à A Árvore da Vida, de Terrence Malick, que chega ao Brasil em 12 de agosto. Assim, além de Lars Von Trier nos oferecer um trabalho ainda mais pretensioso e arrogante que os anteriores, o fruto aparece como um requentado, que apesar do disfarce de uma trama inédita e inusitada, e do tempero da ótima fotografia e das atuações brilhantes, não tem o sabor das obras anteriores do dinamarquês.

Assista ao trailer:

Melancolia (Melancholia, 2011, Dinamarca/Suécia/França/Alemanha)
Direção:
Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier
Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg e Kiefer Sutherland
136 Minutos

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