Arquivo para setembro \29\UTC 2011

Contra o Tempo (Source Code)

Mesmo se valendo de fórmulas batidas, a ficção científica pode render bons trabalhos como é o caso de Contra o Tempo, filme dirigido pelo pouco conhecido Duncan Jones. Apesar de sofrer com diversos adiamentos em sua data de estreia, o longa que chega às telas nesta sexta-feira (30) tem um fôlego que o diferencia, para melhor, de grande parte da produção hollywoodiana atual, talvez vindo justamente do fato de Duncan, ou do roteirista Ben Ripley, não estarem ainda influenciados pela indústria.

No filme, Jake Gyllenhaal é Colter Stevens, um capitão do exército americano que percebe que algo está estranho em sua vida. Sem saber exatamente o que aconteceu, o oficial acorda em um trem em movimento ao lado de uma mulher que não conhece, e que insiste em chamá-lo de Sean. Stevens não sabe como foi parar neste local, nem mesmo o porquê aquela mulher age como se fosse sua amiga. Poucos minutos depois, porém, uma explosão acontece e todos que estavam naquele trem morrem.

Ao acordar, o capitão descobre que está na verdade dentro de um programa chamado “Código Fonte”, em que ele consegue viver os últimos oito minutos da vida de uma pessoa. Stevens, então, tem que voltar novamente ao trem, na pele de Sean, para tentar descobrir quem foi o responsável pelo atentado, evitando assim um incidente ainda maior do que o do trem. Ao mesmo tempo em que precisa investigar o caso, o oficial também tenta descobrir o que aconteceu em sua vida nos últimos anos, e saber um pouco mais sobre este estranho programa do exército.

Apesar da ideia do filme ser original, não é muito difícil comparar com outras obras, como o clássico Feitiço do Tempo, em que Bill Murray acorda toda manhã no mesmo Dia da Marmota, sabendo exatamente o que vai acontecer, mas sem ter noção de como sair daquela situação. Stevens, aqui, também vive uma espécie de Dia da Marmota eterno, mas em vez de ter que aguentar as 24 horas, ele tem apenas oito estressantes minutos. Porém, tempo o suficiente para se encantar com a beleza de Christina, vivida por Michelle Monaghan.

A diferença de tempo é facilmente explicada por dois fatores. Primeiro, desta vez apesar do interesse amoroso do personagem, não estamos em uma comédia romântica, mas em um filme de ação, que ficaria monótono caso o Capitão Stevens pudesse ter tanto tempo para encontrar o tal terrorista. Além disso, o ritmo de vida dos espectadores de cinema mudou. Se em 1993 a linguagem de videoclipe já fazia parte de outras produções audiovisuais, hoje é raro um trabalho para o grande público que ignore a agilidade dos vídeos musicais.

Fora as semelhanças com o clássico dos anos 90, e os clichês típicos de filmes de ação e ficção científica, Contra o Tempo agrada principalmente por não ter a pretensão de ser um grande filme, apenas um bom entretenimento. Como em um jogo de videogame, em que a morte não é o final, o espectador entra no ritmo do filme e tenta, junto com Stevens descobrir o que está realmente acontecendo, tanto dentro do trem, na busca pelo terrorista, como na vida do capitão fora daquela realidade paralela. Ainda, a química entre Jake e Michelle ajuda a tornar o longa mais agradável, cumprindo o seu papel.

Assista ao trailer:

Contra o Tempo (Source Code, 2011, EUA)
Direção:
Duncan Jones
Roteiro: Ben Ripley
Elenco: Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan e Vera Farmiga
93 Minutos

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Família Vende Tudo

A ambição do ser humano pode ir bem longe, muito além de onde vai o caráter, a ética ou a moral, como bem exemplifica o cineasta Alain Fresnot em seu novo longa-metragem Família Vende Tudo, que estreia nesta sexta-feira (30). O filme, uma comédia popularesca e bastante escrachada, consegue transitar entre o humor e a crítica social, sem com isso se tornar pesado ou entediante. Com um elenco liderado por Lima Duarte e Vera Holtz, a obra ainda é destacada pelas atuações, principalmente a de Caco Ciocler, no papel de um cantor popular.

Lindinha, vivida pela bela Marisol Ribeiro, é a jovem filha de um casal de muambeiros endividados (Lima e Vera). Depois de a família perder tudo o que tinha em uma viagem voltando do Paraguai em que foram parados pela polícia, os pais da garota não veem problemas na intenção dela de ir para a cama com o famoso Ivan Cláudio, personagem de Caco Ciocler. Apaixonada pelo cantor, Lindinha quer apenas uma noite de amor com ele, mas seu pais têm outros planos.

Já induzida pela família para engravidar do músico, Lindinha faz de tudo para atingir o objetivo e acaba tendo sucesso. Um problema, no entanto, atravessa o caminho da família. Ivan Cláudio já é casado e tem outros filhos com a ciumenta Jennifer (Luana Piovani), que pode botar tudo a perder. A ambição dos personagens, cada um com o seu objetivo, faz com que se trave uma grande batalha entre eles.

Para criticar este comportamento comum de muitos brasileiros, de vender até mesmo a dignidade de sua filha por fama e dinheiro, Fresnot fez uma comédia que fala a língua do povão. Caco Ciocler, para viver o rei do Xique passou uma temporada ao lado de um cantor que vive bem essa realidade, Latino, que inclusive faz uma participação no filme. As cenas dos shows do cantor das telas são, inclusive, filmadas durante apresentações do próprio Latino. As semelhanças do músico da ficção e o da realidade são muitas, mostrando o cuidado com as atuações.

Família Vende Tudo, no entanto, não está perto de ser uma obra perfeita. Na ambição de dialogar com as massas, o filme fica popularesco demais, irritando muitas vezes o espectador. Uma boa definição do filme, seria com a frase célebre de um dos maiores clássicos do cinema nacional, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla. “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba”, disse o personagem em 1968, que pode ser aplicado aqui tanto na forma que o filme foi feito, quanto na reação dos personagens.

Não tão incomum é a história, apesar de parecer absurda a grande parte do público. Vera Holtz, falando sobre o filme, deixou claro que presenciou inúmeras vezes mães e pais de adolescentes as oferecendo para o prazer de atores famosos, na ingênua ilusão de que pudessem conseguir algo com tal ato. E é expondo este tipo de comportamento em situações que ultrapassam o limite do ridículo, que Fresnot pode fazer com que, após as gargalhadas do público, eles possam refletir se vale mesmo a pena colocar sua ambição acima de qualquer coisa.

 

Assista ao trailer:

Família Vende Tudo (2011, Brasil)
Direção:
Alain Fresnot
Roteiro: Alain Fresnot
Elenco: Marisol Ribeiro, Caco Ciocler e Luana Piovani
90 Minutos

A Serbian Film – Terror sem Limites (Srpski film)

Muito se falou sobre o polêmico A Serbian Film – Terror Sem Limites, mas pouco se reflete à realidade de longa-metragem que pretende ser um retrato metafórico do que é hoje a vida na Sérvia. Ao contrário da maioria dos comentários, não há nenhum recém-nascido sendo estuprado em cena, ainda que existam momentos fortes capaz de causar indigestão em muitos espectadores. Independente disso, não há qualidade no filme que justifique tantos comentários sobre a sua produção, mas nada explica impedir que se possa assistí-lo para chegar a este julgamento.

Considerado o maior ator pornô que a Sérvia já teve, Milos (Srdjan Todorovic) se aposentou para se tornar um simples pai de família. Sem um outro emprego, no entanto, ele percebe que o dinheiro que conseguiu juntar naquela carreira não deve durar muito tempo, e que ele precisa tomar alguma atitude para conseguir manter o nível de vida para ele, a mulher e o filho pequeno. Neste momento, Milos recebe uma proposta irrecusável de Vukmir (Sergej Trifunovic), um misterioso produtor de cinema.

Vukmir apresenta um contrato milionário para o ex-ator pornô para que este protagonize mais uma obra, mais artística e realista do que qualquer outro filme que já participou. Diante do valor que ganhará, que pode lhe dar uma boa vida por longos anos, Milos aceita a proposta. Durante as filmagens, no entanto, quando percebe o teor do filme, ele tenta desistir. Porém, algo acontece e ele acorda apenas três dias depois, sem contato com mais ninguém que conheça. Milos então parte em uma jornada para descobrir mais sobre este filme e saber o que aconteceu neste tempo.

Mesmo como uma metáfora política, A Serbian Film – Terror Sem Limites se mostra raso e ingênuo, tentando a todo momento contextualizar o espectador de uma forma superficial na realidade do país, em vez de apenas deixar isso subentendido. Há em muitos momentos diálogos forçados sobre os motivos que levaram o personagem de Vukmir a escolher a Sérvia como cenário para sua estranha obra-prima. É como se o diretor e roteirista Srdjan Spasojevic estivesse a todo momento gritando para que ninguém esqueça que esta é uma metáfora do país.

Não é difícil notar no filme referências ao sul-coreano OldBoy, vencedor do Grande Prêmio da Crítica de Cannes em 2004. Nos dois filmes temos um anti-herói que busca em sua própria memória o motivo que explique o drama vivido no momento. Em nenhum dos casos, aliás, esta resposta os liberta, apenas aumenta suas angustias. Porém, no filme asiático, o roteiro é muito melhor desenvolvido, sem a necessidade da polêmica pela polêmica. A Serbian Film sequer tenta explicar porque Milos não procura um outro emprego, ou mesmo se nega a aprofundar seus personagens.

Fica óbvio, então, que o filme foi feito com o intuito de chamar a atenção antes mesmo de ser visto, o que conseguiu no mundo todo. Aqui no Brasil, houve um movimento que tentou banir a obra, abrindo espaço para manifestações coléricas contra a censura que podia aparecer ali. Enquanto uns execravam o filme, dando a ele qualidades que não chegam a ter, outros defendiam o direito de expressão, mesmo que o longa pouco tivesse a dizer. Não fossem estas discussões, quase ninguém teria ouvido falar em A Serbian Film. De um modo ou de outro, a figura da Sérvia continua a mesma, já que o vazio da obra sequer consegue representar o país, como tanto bradou o diretor.

Assista ao trailer:

A Serbian Film – Terror sem Limites (Srpski film, 201o, Sérvia)
Direção:
Srdjan Spasojevic
Roteiro: Srdjan Spasojevic
Elenco: Srdjan Todorovic, Sergej Trifunovic e Jelena Gavrilovic
104 Minutos

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