Capitães da Areia

A criança é e sempre foi um dos símbolos maiores de esperança no futuro, mas o que dizer daquele menino ou menina de rua, de quem pouco se acredita que exista algum porvir? É exatamente sobre os sonhos e desilusões destes que trata o romance Capitães da Areia, de Jorge Amado. Nas telas dos cinemas, a história chega como uma homenagem ao centenário do autor feita por sua neta, Cecília Amado, que mostra ter um cuidado especial com os personagens do avô, ao mesmo tempo em que deixa claro que não está neste papel apenas por seus laços sanguíneos, mas porque tem capacidade para o posto.

Na Salvador dos anos 50, um grupo de meninos de rua vivia sua própria sociedade sob a liderança do ousado Pedro Bala. Ladrões, malandros, espertos, os garotos aproveitam tudo o que podem da cidade que os excluiu, e sabem que têm que proteger uns aos outros para se manterem como um grupo forte, os temidos Capitães da Areia. Ao lado de Bala, para armar os planos, o bando conta com a sabedoria do Professor, um jovem que tem a convicção de que seria um grande artista, não fosse um bandido. E é com a certeza de que são foras-da-lei, que eles sobrevivem e superam seus problemas.

A vida do grupo, no entanto, fica tumultuada com a presença de Dora, que acaba de perder seus pais vítimas de um surto de varíola. Levada para junto ao grupo pelo Professor, a menina causa desentendimentos, já que nunca se aceitou mulheres entre os capitães. Alvo do desejo de muitos dos garotos, ela também faz despertar o amor tando em Bala como no Professor, e ainda assim tem uma relação quase maternal com outros meninos. Além dos problemas dentro do grupo, os garotos ainda enfrentam a disputa com um outro grupo de menores e o cerco da polícia, que tenta deter os famosos capitães.

Vistos sob a ótica do dia a dia em uma grande metrópole, gente como os personagens do filme são somente bandidos, criminosos que nasceram já com o dom da maldade. Aqui, no entanto, o ponto de vista é outro, é possível viver a rotina deles. Quando Dora chega ao grupo, e é recebida com violência, o Professor faz questão de desfazer a primeira impressão, são todos bons meninos. Eles roubam, enganam, trapaceiam, e até usam da força, mas apenas por questão de sobrevivência. A menina, esperta, logo diz a todos a verdade óbvia, eles são apenas crianças que pensam que são homens.

Se Jorge Amado foi mestre ao fazer cada personagem bastante carismático, apesar de seus defeitos, Cecília soube passar isso ao longa, principalmente na escolha dos desconhecidos atores. No entanto, mesmo que a história do livro seja boa, falta alguma coesão na tela. Com uma narrativa bastante fragmentada, o filme talvez funcionasse melhor dividido em episódios independentes em alguma série. Como a intenção foi o cinema, o resultado perdeu um pouco de seu peso.

Para compensar os problemas no texto, o filme conta com boas atuações, que consegue facilmente propôr um clima misto entra a fantasia e o drama. Se por vezes a fotografia parece um tanto careta para remontar a década de 50, em muitos momentos há cenas que surpreendem pela beleza, como quando os capitães estão em um parque de diversões. A trilha sonora, ainda, realizada por Carlinhos Brown, foge do óbvio mas consegue uma integração envolvente com as imagens.

A beleza e os defeitos do filme, fazem com que o espectador perceba a beleza e os defeitos desses meninos, desses Capitães da Areia. Cecília Amado consegue, ao seu modo, enxergar e apresentar em seu filme aquilo que há de bonito na miséria, já que é bobagem pensar que só se vive daquilo que é bom, mas que não custa nada sonhar. E é aí que o longa-metragem chega com o seu maior mérito, que é mostrar que apesar das adversidades, mesmo essas crianças de rua ainda tem o principal, a esperança.

Assista ao trailer:

Capitães da Areia (2011, Brasil)
Direção:
Cecília Amado
Roteiro: Cecília Amado e Hilton Lacerda
Elenco: Jean Luis Amorim, Robério Lima e Ana Graciela

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