Arquivo para novembro \11\UTC 2011

Amanhã Nunca Mais

Em seu primeiro longa-metragem, Amanhã Nunca Mais, Tadeu Jungle já deixou clara a sua opção por fazer uma crítica à sociedade brasileira, principalmente a anestesiada classe média representada na tela. Nenhum problema nesta crítica, o que já começa a desqualificar a obra é a forma como ela é colocada. Se o público não percebê-la no filme, por exemplo, fica sabendo desta intenção até mesmo no material de divulgação, que já mostra a tendência da obra de apresentar algo mastigado, que até por isso fica sem sabor para quem tenta consumir.

Na história, Lázaro Ramos é o anestesista Walter, um homem bom que sofre por não conseguir dizer não a ninguém, mesmo que saiba que terá problemas com isto. Em um dos poucos momentos de lazer em família, durante um fim de semana na praia, ele acaba cedendo ao pedido do chefe e volta para o trabalho em São Paulo, provocando o desgosto da mulher (Fernanda Machado) e da filha. Desconfiado de que pode ser trocado por outro a qualquer momento, Walter tenta agradar a esposa, mas não sabe como pode fazer isto.

No aniversário de sua filha, então, ele tem a ideia de ajudar com a preparação da festa, mesmo estando de serviço. Após convencer a mulher de que é capaz de cumprir a simples missão de levar o bolo é que ele percebe que nada será tão fácil. Trabalhando em um hospital público e morando em uma caótica metrópole, Walter passa por diversos contratempos até conseguir enfim chegar em casa com a encomenda. Como ele tem esta dificuldade em negar qualquer pedido, tudo fica ainda mais difícil.

Mesmo que o roteiro tenha seus méritos, mantendo a história coesa apesar de passar por diversas situações diferentes em pequenos intervalos de tempo, sofre por uma certa fraqueza. A fórmula acaba ficando gasta muito rapidamente, tornando a tarefa da busca do bolo quase que mais maçante para o espectador do que para o próprio Walter. Talvez a obra funcionasse melhor como um curta-metragem, se tornando por vezes bastante arrastada. Mesmo as boas atuações não salvam o público de momentos de tédio diante da tela.

O problema maior da fita, no entanto, é a apresentação. Amanhã Nunca Mais começa mal. Em uma exibição na televisão, provavelmente os primeiros minutos sirvam para procurar algo melhor em outra emissora. No cinema, apenas para pensamentos de arrependimento. Artista multimídia, Tadeu não resistiu à tentação de criar uma espécie de clipe, que no início do longa irrita quem está assistindo, em vez de fidelizar o público. Se tudo melhora depois, infelizmente o espectador já está de má vontade com o restante da obra.

A crítica a um Brasil anestesiado, contada sob a ótica de um anestesista, parece um tanto fraca. As explicações são mais visíveis do que a opinião dentro do filme. Fica assim a impressão de que ou não foi possível passar no longa a mensagem que se desejava ou, pior, acreditou-se que o público não seria capaz de compreendê-la. Em geral, então, Amanhã Nunca Mais acaba sendo um filme de poucos atrativos e fácil de ser esquecido.

Assista ao trailer:

Amanhã Nunca Mais (2011, Brasil)
Direção:
Tadeu Jungle
Roteiro: Marcelo Muller, Mauricio Arruda e Tadeu Jungle
Elenco: Lázaro Ramos, Fernanda Machado e Maria Luísa Mendonça
74 Minutos

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A Pele que Habito (La Piel que Habito)

As cores de Almodóvar já não são mais as mesmas. Se em Abraços Partidos o diretor espanhol retomou alguns de seus temas e cenários da juventude, agora com o novo A Pele que Habito o cineasta parece romper de vez com o seu cinema alegre e multi-colorido e cria um ambiente clean apesar de sombrio, principalmente pela grande atuação de Antonio Banderas, que deixa de lado o bom-mocismo para encarnar um personagem que chega a assustar pela sua obsessão e seu ar quase de um psicopata. Se desta vez a história parece bizarra até mesmo para Almodóvar, não se pode pensar em outro diretor para ela.

O Dr. Robert, um importante cirurgião espanhol, vivido por Banderas, sofre há anos com a morte de sua mulher após um acidente de carro, em que ela teve seu corpo carbonizado. O médico, então, fica obcecado com a ideia de criar uma pele artificial que possa suportar até mesmo o fogo. Afastado de seu trabalho tradicional, Robert vive em uma mansão equipada com um moderno laboratório e centro cirúrgico, onde ele pode fazer seus experimentos. Para isso, no entanto, ele precisa de uma cobaia humana, a bela Vera (Elena Anaya), a quem ele mantém presa.

Trancafiada todo o dia no quarto, a moça tem poucas esperanças de retomar sua vida normal longe dali. Os únicos contatos que tem é com o médico e com Marília (Marisa Paredes), a governanta da casa. Quando o filho de Marília visita o local, Vera tem a chance de saber mais sobre Robert, e percebe que talvez o médico esteja se apaixonando por ela, já que ela é muito parecida com a falecida mulher do doutor. Assim, ela começa a acreditar que ainda pode sair daquele quarto. Porém, o que passou na casa nunca irá sair de sua memória, e mudará a sua vida para sempre.

Se o óbvio seria associar A Pele que Habito com O Médico e o Monstro, Pedro Almodóvar mostra sua maestria ao fazer com que o seu doutor seja, ele próprio, o bem e mal encarnados em uma só personalidade. Robert não precisa de qualquer transformação, ele é humano, com o que de bom e ruim isto possa acarretar. Mais do que à história de Jekyll e Hyde, no entanto, o filme remete a OldBoy, premiado longa sul-coreano de 2003 sobre a vingança, tema que tem importante papel também desta vez.

A obsessão interpretada por Banderas não é sem razão. Almodóvar tem sempre uma explicação para os desvios de seus personagens. No decorrer da história, o espectador percebe como a vingança move as ações não apenas do Dr. Robert, mas de muitos dentro da trama. Assim como OldBoy, também, temos um personagem que é sequestrado e mantido refém de uma forma bastante estranha. Vera não está ali por acaso, está pagando por uma ação do passado, algo que nunca imaginou que pudesse causar tamanha dor a alguém, a ponto desta pessoa lhe fazer passar por tudo o que ela acaba passando.

Perturbador em muitos momentos, A Pele que Habito pode ser definido quase como um terror psicológico, mas de um tipo que só poderia ser filmado por Almodóvar. O diretor, aliás, mostra sua genialidade em deixar o espectador imaginar uma coisa, quando o que ele quer dizer é algo bem diferente, como ele faz com o próprio título da obra, ou na escolha do elenco. Se perdeu o colorido de seus primeiros filmes, o espanhol deixa claro que evoluiu ainda mais em seu trabalho, e que seu estilo pode render grandes obras mesmo que sem a extravagância que lhe deu sua fama.

Assista ao trailer:

A Pele que Habito (La piel que habito, 2011, Espanha)
Direção:
Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya e Marisa Paredes
117 Minutos

10 Filmes Para Assistir Depois de Morrer

No dia de Finados todos estão relembrando seus entes queridos que já se foram, mas poucos pensam em algo importante: e quando chegar a sua vez? Temos na internet e nas livrarias listas e listas do que fazer antes de morrer. Mas e depois? Vai se acomodar? É preciso também começar a se planejar para os programas pós-vida.

Pensando nesta delicada questão, o VerdadeAlternativa prepara uma lista de dez filmes para assistir depois de morrer. Não que você não possa vê-los durante a vida. Muitos deles até são recomendados ver antes também, mas o importante é que você leve o DVD em seu caixão para se preparar para o outro lado.

1. A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra (1946)

Ok, você morreu, a vida acabou, mas ainda fica com aquela sensação incômoda de que nada valeu a pena. Este clássico do cinema mostra como seria a vida de George Bailey (James Stewart) se ele nunca tivesse nascido. Quem sabe você se inspire, encontre um anjo como o que o personagem encontrou, e não busque saber também como seria a sua. Bem, dependendo do caso pode não ser uma boa ideia.

2. O Céu Pode Esperar, de Warren Beatty (1978)

Está certo que o título é ótimo para quem está a beira da morte, mas nem tanto para quem já passou desta para melhor. Mesmo assim, o filme escrito, dirigido e estrelado por Warren Beatty tem algo a ensinar. E se por acaso a morte se enganou e você foi na hora errada? Pior ainda, se você tem a chance de voltar para terminar sua missão e seu corpo já tiver sido cremado. Bem, nada mal fazer como Beatty e voltar na pele de um milionário, não?

3. Ghost – Do Outro Lado da Vida, de Jerry Zucker (1990)

A questão é se você foi mesmo na hora certa para o beleléu, mas deixou aqui na Terra um grande amor. Foi o que aconteceu com Sam Wheat (Patrick Swayze), que pra piorar vê a sua amada Molly (Demi Moore) sendo seduzida por um ex-melhor amigo. Se isto acontecer também com você, não precisa maldizer a hora da sua morte. Basta procurar a primeira vigarista que finge falar com os mortos. Sempre dá certo! (ao menos neste filme deu)

4. Amor Além da Vida, de Vincent Ward (1998)

Mesmo que você não consiga seguir os conselhos de Swayze, pode fazer o que fez Chris Nielsen (Robin Williams) aqui. Ainda amando muito a sua mulher, mesmo depois de morto, ele não desistiu dela. Quando sabe que Annie (Annabella Sciorra) também está morta, o personagem decide buscar pelo céu e o inferno por sua amada, enfrentando qualquer obstáculo, por mais tenebroso que possa ser. Se ele pode, não deve ser tão difícil.

5. Desconstruindo Harry, de Woody Allen (1997)

Bem, não estou aqui querendo dizer que você não foi uma pessoa correta e idônea durante a sua vida, longe de mim, mas você há de concordar comigo que há a chance de você ir direto para o inferno. Aqui Woody Allen mostra que não há tanto com o que se preocupar, já que o Diabo não é alguém assim tão difícil. Dá até para manter uma discussão filosófica com o Coisa-Ruim se você quiser, principalmente se for por uma mulher.

6. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957)

Nem todo mundo tem o azar de morrer já assim de primeira. Há aqueles que podem negociar com a morte, como no clássico filme sueco. Sim, você deve estar se perguntando se aqui não era para ser uma lista apenas de filmes para assistir depois de morrer. Você está certo, mas se Antonius Block (Max von Sydow) conseguiu jogar um xadrês com a morte para adiar a terrível hora, é sinal de que a temida senhora não é assim tão difícil de se lidar.

7. Bill & Ted – Dois Loucos no Tempo, de Peter Hewitt (1991)

Uma prova de que a morte não é tão terrível está aqui. Quando os roqueiros malucos Bill (Alex Winter) e Ted (Keanu Reeves) morrem após um plano macabro de um vilão do futuro, eles seguem os ensinamentos de Sydow, e ganham uma aliada em sua busca para voltar à vida, a própria morte. Não apenas ela, mas os dois entram em contato também com ELE, o Todo Poderoso. Após assistir a esse filme, você percebe que nem tudo está perdido depois de sua ida.

8. Dylan Dog e as Criaturas da Noite, de Kevin Munroe (2010)

Um assunto que não pode ser ignorado nesta lista é a possibilidade de você se tornar um morto-vivo. Existem muitos filmes que tratam deste tema, mas poucos podem ser úteis, já que a maioria o deixaria deprimido, ao ver que lhe resta apenas vagar pelas ruas e levar um tiro de espingarda. Aqui, porém, há um verdadeiro guia de sobrevivência para zumbis, que lhe mostra como se alimentar, tomar banho e até mesmo o que fazer se, por acaso, partes de seu corpo cairem.

9. Coisas Para se Fazer em Denver Quando Você Está Morto, de Gary Fleder (1995)

Concordo, neste filme não há nenhum grande aprendizado para quem já foi desta para uma melhor, até porque o foco está nos vivos, apesar do título, mas quem há de dizer que não dá para se refletir sobre a eternidade pós-vida em um filme com este nome? Não apenas em Denver, mas em tantos lugares do mundo, afinal não é preciso pagar passagens aéreas nem diárias de hotel quando você não mais existe. Por que não aproveitar?

10. Depois da Vida, de Hirokazu Koreeda (1998)

Caso nenhum desses filmes surtam qualquer resultado prático, a boa pedida é este longa japonês que mostra como é quando alguém morre na cultura oriental. Assistindo, você fica sabendo que todos temos que escolher o melhor momento de nossas vidas para que este seja transformado em um filme, que iremos assistir por toda a eternidade. Não é uma escolha simples, já que vamos conviver para sempre com isto. Bem, aproveite então que ainda está vivo, e crie boas opções para a escolha ser mais fácil depois.

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